Rev. Steven R. Houck
Visto que Deus soberanamente elege o pecador para vida eterna, o regenera pelo Espírito de Cristo, o chama e lhe dá fé e arrependimento pela sua irresistível graça, o justifica e até o santifica pela força do seu poder, deve ser também verdade que o pecador convertido é feito perseverar na fé pela graça preservadora de Deus. O crente verdadeiro que é salvo pela graça soberana de Deus não pode perder essa salvação. Deus, pelo seu poder soberano, guarda o crente para que não ele não possa cair total e absolutamente do estado de graça. O apóstolo Pedro diz que aqueles que são "eleitos segundo a presciência de Deus Pai" e "gerados de novo para uma viva esperança" são "guardados pelo poder de Deus mediante a fé para a salvação, já prestes a se revelar no último tempo" (I Pedro 1:2-5). Deus, pela força de seu poder, preserva o verdadeiro filho de Deus para que ele receba esta salvação final e completa que será revelada na segunda vinda de Cristo.

Não poderia ser de outra forma, visto que a obra da salvação é uma obra de Deus. A obra de Deus não falha. A obra do homem é finita e frequentemente termina em nada. Mas a obra de Deus é uma obra todo-poderosa e soberana. Quando ele estabelece seu pacto com o seu povo, promete salvá-los no sangue de Cristo e, então, lhes salva pela sua graça, essa grande obra é certa e segura. É uma obra eterna. Assim Deus diz através do profeta Isaías: "Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão abalados; porém a minha benignidade não se apartará de ti, e a aliança da minha paz não mudará, diz o SENHOR que se compadece de ti" (Isaías 54:10). Deveras, os montes podem se retirar; mas a benignidade, a misericórdia e o amor de Deus, que salva o seu povo, permanecerão sobre eles para sempre. Deus não muda. Quando salva alguém, ele salva de fato—salva para sempre. Quando o Deus da vida dá vida, essa vida é uma vida eterna que nunca morre. Dessa forma, Jesus pôde dizer: "Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida" (João 5:24). A vida eterna não é algo que possa ser perdido. Se fosse, não seria vida eterna.

A salvação eterna do povo eleito de Deus é tão certa que nada pode jamais tirá-la deles. Embora os ímpios procurem conseguir com que eles corram com eles em toda a sua lascividade e pecado, embora o próprio diabo os tente para abandonar a Deus e a Verdade de sua Palavra, ninguém é capaz de tirá-los da graça que Deus lhes deu. Jesus diz: "E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai" (João 10:28-29). Os crentes estão seguros nas mãos de Cristo e nas mãos de seu Pai celestial. Ninguém pode arrebatá-los. Sim, nem mesmo os pecados dos crentes pode separá-los de Deus e de sua salvação. Todos os seus pecados foram apagados no sangue do Cordeiro. Cristo morreu por eles e Deus os justificou. Portanto, o povo de Deus pode dizer com o apóstolo Paulo: "Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Romanos 8:38-39).

Isso não significa, contudo, que alguém que professe ser um cristão possa viver da forma que ele quiser e ainda estar certo da salvação eterna. O apóstolo Pedro diz que "somos guardados pelo poder de Deus através da fé" (I Pedro 1:5). Quando Deus preserva o seu povo, ele o faz de uma forma que eles perseveram na fé. Embora o crente verdadeiro possa tropeçar em graves pecados, ele não cai definitivamente. Deus o traz de volta para que pela fé ande nos caminhos de Deus. Ele é preservado no caminho da fé—uma fé que resulta num viver piedoso. Qualquer um, portanto, que professa ser um cristão, mas contínua e abertamente anda nos caminhos do pecado, não é um verdadeiro filho de Deus. De tais pessoas o apóstolo João fala quando diz: "Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós" (I João 2:19). Há muitos que professar serem cristãos, mas não o são. Eles caíram de sua profissão. O verdadeiro filho de Deus, contudo, persevera na fé. Não porque ele seja capaz de permanecer de pé por si mesmo, mas porque Deus o preserva pela sua graça. De fato, o povo de Deus tem boa razão para regozijar-se com Judas quando o mesmo diz: "Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória. Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém" (Judas 24-25).

Referências Nas Escrituras

Preservação e Perseverança:
1 Pedro 1:2-5;  Isaías 54:10;  João 5:24;  João 10:28-29;  Romanos 8:38-39;  1 João 2:19; Judas 24-25
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Fonte: A Soberania de Deus na Salvação - Rev. Steven R. Houck
Fonte:  Covenant Protestant Reformed Church
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

Rev. Steven R. Houck
Assim como Deus soberanamente justifica o seu povo através do sangue de Cristo, assim também é Deus quem soberanamente os santifica pela poderosa obra do Espírito de Cristo. Enquanto a justificação tem a ver com nosso estado legal diante de Deus, a santificação tem a ver com nossa condição atual. Somos libertos da culpa do pecado pela justificação, mas ainda somos pecadores. O pecado ainda habita dentro dos filhos de Deus, de forma que o melhor de suas boas obras é manchado por ele. Na santificação, contudo, o povo de Deus é livrado do poder e do domínio do pecado. O Espírito de Deus dá graça para que sejamos "despidos do velho homem" e "vestidos do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou" (Colossenses 3:9-10). O apóstolo Paulo fala disso em II Coríntios 3:18. Ele diz: "Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor." Embora o crente nunca será perfeito nesta vida, na santificação ele é mais e mais transformado à imagem de Cristo.

Não pode ser negado, portanto, que o pecador justificado deva realizar boas obras. Não é verdade que você pode viver como o diabo porque já foi justificado. Embora na justificação o crente seja liberto da culpa de todo pecado, sua justificação não é um fundamento para uma vida ímpia. Essa é a mentira do diabo. Nós que cremos na soberania da graça de Deus, cremos que Deus opera de tal forma nos corações do seu povo que Ele faz com que eles mais e mais fujam do pecado e procurem o que é bom e reto. As boas obras são uma parte essencial da vida cristã. O apóstolo Pedro nos exorta: "Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo" (I Pedro 1:15-16). Jesus nos diz que manifestamos o fato de que somos seguidores dele pela produção de muito fruto. Ele diz: "Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos" (João 15:8). Aqueles que são os objetos da graça de Deus, glorificam a Deus mostrando ao mundo as boas obras que a graça produz neles. "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus" (Mateus 5:16).

De fato, se um homem diz que é um crente e, todavia, vive uma vida ímpia de contínuo pecado e promiscuidade, ele mostra que ele não é um objeto da graça de Deus. A fé que é dada pela graça de Deus é uma fé que busca a Deus e a justiça do reino de Deus. Tiago nos ensina isso quando diz: "Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? … Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma" (Tiago 2:14, 17). A verdadeira fé sempre se manifesta nas boas obras. Deveras, o crente está longe de ser perfeito. Todavia, sua santificação implica que ele busca o que é bom e agradável a Deus.

Mas, são estas boas obras o produto da própria força dos crentes? Elas contribuem com algo para a salvação? Podem ser consideradas como a parte do homem na salvação? Não, nunca! Isso é impossível, porque todas boas obras que qualquer crente realize são somente o produto da graça de Deus. À parte da obra de santificação de Deus, o seu povo não pode fazer nada. Lemos em Filipenses 2:13: "Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." O crente faz o que é agradável a Deus somente porque Deus soberanamente opera essa boa obra nele. Ele faz com que o crente deseje o que é reto e faz com que ele faça isso também. De fato, todas as boas obras que o seu povo realiza foram determinadas por Deus desde antes da fundação do mundo. "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus ordenou antes para que andássemos nelas" (Efésios 2:10). A vida de santificação do cristão está tanto nas mãos de Deus que os crentes fazem todas as boas obras que Deus ordenou para cada um fazer.

Assim a santificação, como a justificação, é totalmente uma obra de Deus. Assim com Cristo é dito ser nossa justificação, assim também ele é dito ser nossa santificação. "Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação …" (I Coríntios 1:30). Santificação é o resultado da obra soberana do Espírito de Cristo baseada sobre o sangue de Cristo. É somente no poder do sangue de Cristo que o crente pode vencer o pecado e fazer o que é bom. O Espírito Santo nos ensina isso em Hebreus 10:10: "Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, de uma vez por todas." Realmente, Cristo Jesus nosso Senhor, que morreu pelo seu povo, é tudo da salvação. Do princípio ao fim a salvação é baseada sobre o seu precioso sangue.


Referências Nas Escrituras

Santificação: Colossenses 3:9-10;  II Coríntios 3:18;  1 Pedro 1:15-16;  João 15:8;  Mateus 5:16;  Tiago 2:14,17;  Filipenses 2:13;   Efésios 2:10;   I Coríntios 1:30;  Hebreus 10:10

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Fonte: A Soberania de Deus na Salvação - Rev. Steven R. Houck
Fonte:  Covenant Protestant Reformed Church
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

Jonathan Edwards
A Morte Eterna Com a Qual Deus Ameaça o Ímpio Não é a Aniquilação, Mas Uma Justa e Permanente Punição ou Tormento.

A verdade desta proposição será demonstrada pelas seguintes características:

Primeiro, a Escritura em toda a parte retrata o castigo dos ímpios como algo que implica dores e sofrimentos extremos. Mas um estado de aniquilação não é um estado de sofrimento. Pessoas aniquiladas não têm nenhum senso ou sentimento de dor ou prazer, e muito menos podem sentir esta punição que carrega em si mesma uma extrema dor ou sofrimento. Eles não sofrem nada mais na eternidade do que já sofreram da eternidade.

Segundo, está de acordo tanto com a Escritura quanto com a razão, supor que os ímpios serão punidos de tal forma que estarão conscientes da punição que estão sofrendo: que eles estarão cientes que naquela circunstância Deus executou e cumpriu o que havia ameaçado; ameaça a qual eles desconsideraram e não acreditaram. Eles saberão que a justiça veio sobre eles, que Deus estará reivindicando aquela autoridade a qual eles desprezaram, e que Deus não é um ser tão desprezível quanto eles pensavam que fosse. Enquanto estiverem sob a punição ameaçada, eles estarão conscientes do porquê estão sendo punidos. É sensato que eles estejam conscientes de sua própria culpa, lembrem de suas antigas oportunidades e obrigações, e vejam a sua própria loucura e a justiça de Deus. Se a punição ameaçada for a aniquilação eterna, eles nunca saberão que isto é infligido. Eles nunca saberão que Deus é justo em puni-­los, ou que eles são merecedores do mesmo. Como pode isto estar de acordo com as Escrituras, em que Deus ameaça, que Ele retribuirá o ímpio diretamente ­ Dt 7:10; com Jó 21:19­-20: "Deus reserva o castigo para ele, e ele o saberá. Que os seus próprios olhos vejam a sua ruína; que ele mesmo beba da ira do Todo ­poderoso!" ; e com Ezequiel 22:21­-22: "Eu [Deus] os ajuntarei e soprarei sobre vocês a minha ira impetuosa, e vocês se derreterão. Assim como a prata se derrete numa fornalha, também vocês se derreterão dentro dela, e vocês saberão que eu, o Senhor, derramei a minha ira sobre vocês"? E como pode isto estar de acordo com aquela expressão tantas vezes anexada as ameaças da ira de Deus contra os ímpios: "E vós sabereis que eu sou o Senhor"? (cf. Ez 7:14)

Terceiro, a Escritura ensina que os ímpios sofrerão diferentes graus de tormento, de acordo com os diferentes agravos de seus pecados. "Mas Eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco! ’, corre o risco de ir para o fogo do inferno" ­ Mt 5:22. Aqui Cristo nos ensina que o tormento dos ímpios será distinto para cada pessoa, de acordo com o diferente grau de sua culpa. Haverá mais tolerância para Sodoma e Gomorra, para Tiro e Sidom do que para as cidades onde a maioria dos milagres de Cristo foram realizados (cf. Mt 11:21­-24). Novamente, nosso Senhor nos assegura que: "Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites" ­ Lc 12:47­-48. Essas várias passagens da Escritura infalivelmente provam que haverá diferentes graus de punição no inferno, o que é totalmente inconsistente com a suposição de que a punição consiste na aniquilação, no qual não pode haver graus.

Quarto, a Escritura é muito clara e rica neste assunto: que o castigo eterno dos ímpios consistirá no sofrimento e tormento consciente, e não na aniquilação. O que se diz sobre Judas é digno de ser observado aqui: "Melhor lhe seria não haver nascido" ­ Mt 26:24. Isso parece claramente nos ensinar, que o castigo dos ímpios é tal que a sua existência, como um todo, é pior do que a não existência. Mas se a sua punição consiste meramente na aniquilação, isso não é verdade! É dito que os ímpios, em seu castigo, lamentarão, chorarão e rangerão seus dentes ­ o que não implica apenas na existência real, mas em vida, conhecimento e atividade ­ e que eles são, de uma maneira muito consciente e intensa, afetados por sua punição ­ Is 33:14. Pecadores no estado de sua punição são retratados como seres habitando com chamas eternas. Mas se eles são apenas transformados em nada, onde é a base para esta retratação? É absurdo dizer que os pecadores habitarão com a aniquilação, pois não há habitação neste caso.Também é absurdo chamar a aniquilação de fornalha ardente, o que implica em um estado de existência, sensibilidade e dor extrema: enquanto na aniquilação não há nem um nem outro.

É dito que eles serão lançados no lago de fogo e enxofre. Como pode esta expressão, com alguma propriedade, ser entendida como um estado de aniquilação? Sim, eles são expressamente avisados que não terão descanso nem de dia nem de noite, mas serão atormentados com fogo e enxofre, para todo o sempre ­ Ap 20:10. Mas, aniquilação é um estado de descanso, um estado em que nem mesmo o menor tormento pode, possivelmente, ser experimentado. O homem rico no inferno, ergueu os olhos de onde estava sendo atormentado, e viu ao longe Abraão, e Lázaro em seu seio, e entrou em uma conversa particular com Abraão: tudo o que prova que ele não foi aniquilado (cf. Lc 16:19­-31).

Os espíritos dos homens ímpios antes da ressurreição não estão em um estado de aniquilação, mas em um estado de tormento. Eles são espíritos em prisão, como diz o apóstolo sobre os que se afogaram no dilúvio ­ 1Pe 3:19. E isso aparece bem nitidamente no exemplo do homem rico, mencionado anteriormente, se considerarmos ele como o representante do ímpio em seu estado intermediário entre a morte e a ressurreição. Mas se os ímpios, mesmo ali, estão em um estado de tormento, muito mais estarão, quando sofrerem aquilo que é a punição adequada pelos seus pecados.

A aniquilação não é uma desgraça tão grande assim, de forma que alguns a preferiram a um estado de sofrimento até mesmo nesta vida. Este foi o caso de Jó, um homem justo. Mas se um homem justo pode, neste mundo, sofrer o que é pior do que a aniquilação, sem dúvida, a punição adequada dos ímpios, na qual Deus pretende manifestar Seu repúdio singular pela maldade deles, será uma desgraça muitíssimo maior e, portanto, não pode ser a aniquilação. Esta só pode ser uma declaração muito vil e desprezível da ira de Deus para com aqueles que se rebelaram contra Sua coroa e dignidade ­ quebraram as suas leis, e desprezaram tanto a Sua vingança quanto Sua graça ­ o que não é uma desgraça tão grande quanto aquela que alguns de seus verdadeiros filhos têm sofrido nesta vida.

O castigo eterno dos ímpios é considerado a segunda morte ­ Ap 20:14; 21:8. É, sem dúvida, chamado a segunda morte, em alusão à morte do corpo, e como a morte do corpo é normalmente assistida com grande dor e angústia, então o mesmo, ou algo imensamente maior, está implícito em chamar o castigo eterno do ímpio a segunda morte. Não haveria propriedade alguma em chama-­lo assim, se o castigo consistisse meramente na aniquilação. E estes ímpios que morrerem pela segunda vez sofrerão, pois não poderia ser chamado a segunda morte com relação a nenhum outro ser, senão aos homens. Não se pode chamar desta maneira quando se trata dos demônios, visto que eles não morrem de morte temporal, a qual é a primeira morte. Em Apocalipse 2:11 diz: "Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. O vencedor de modo algum sofrerá a segunda morte"; sugerindo que todos os que não vencem os seus desejos, mas vivem no pecado, sofrerão a segunda morte.

Repetindo, os ímpios sofrerão o mesmo tipo de morte que os demônios, assim como diz no verso 41 do contexto: "Malditos, apartem­-se de mim para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos". Ora, o castigo do diabo não é a aniquilação mas o tormento. Portanto, ele treme de medo. Não por medo de ser aniquilado ­ ele estaria contente com isso. O que ele teme é o tormento, como aparece em Lucas 8:28, onde ele grita e implora a Cristo que não o atormente antes do tempo. E diz: "O diabo, que as enganava, foi lançado no lago de fogo que arde com enxofre, onde já haviam sido lançados a besta e o falso profeta. Eles serão atormentados dia e noite, para todo o sempre" ­ Ap20:10.

É estranho como os homens vão diretamente contra revelações tão claras e plenas das Escrituras, a ponto de supor, mesmo diante de todas estas coisas, que a punição eterna ameaçada contra os ímpios não significa nada mais do que a aniquilação.

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Fonte: A Eternidade dos Tormentos do Inferno.
Traduzido do original em inglês: The Eternity of Hell's Torments
Jonathan Edwards © Domínio Público
Tradução: Firelandmission

Herman Hoeksema
Perseverança dos Santos Definida

A perseverança dos santos é um ato da graça de Deus pelo qual ele preserva os crentes e santos em Cristo Jesus, em seu poder e por meio da fé, até o fim para a salvação e glória, de forma que eles lutam o bom combate da fé, e de forma que nunca possam cair da graça que uma vez receberam. A Escritura e as confissões Reformadas ensinam a perseverança dos santos por causa da infalível preservação de Deus.

Prova Escriturística para a Perseverança

A perseverança dos santos é de fato o ensino da palavra de Deus:

Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai, que me enviou, é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último Dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último Dia (João 6:37-40).

Aos judeus incrédulos Jesus disse:

Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las das mãos de meu Pai. Eu e o Pai somos um (João 10:26-30).

Filipenses 1:6 assegura os santos: "Tendo por certo isto mesmo: que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo." Nascemos de novo para "uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e que se não pode murchar, guardada nos céus para vós que, mediante a fé, estais guardados na virtude de Deus, para a salvação já prestes para se revelar no último tempo" (I Pe. 1:3-5).

A perseverança certa dos santos é fundamentada na eleição eterna de Deus. Ela é garantida pela obra do Espírito Santo e os dons da graça, que são sem arrependimento. Ela é garantida pela própria intercessão de Cristo pelos seus, pois sua oração certamente será ouvida. Finalmente, ela está na própria natureza da vida espiritual dos santos, pois a vida deles é eterna. Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, e, portanto nunca pode perecer. Deus, que implantou essa vida eterna em seu coração, a preservará para a glória final.

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Fonte: Reformed Dogmatics, Herman Hoeksema, Reformed 
Free Publishing Association, vol. 2, pp. 175-176.

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

Rev. Ronald Hanko
Por que precisamos da Palavra de Deus na forma escrita? Não tinha Deus em outros tempos e lugares se revelado de diferentes formas, e se feito conhecido ao seu povo? Ele não deu sua Palavra muito antes dela ser escrita? Não é uma forma de idolatria, portanto, sugerir que a Palavra de Deus escrita é a única palavra a qual devemos prestar atenção, a única regra para a nossa fé e vida?

A razão fundamental de não termos e não desejarmos a Palavra de Deus em qualquer outra forma diferente daquela escrita na qual ele nos deu, é que "todos os homens são mentirosos e mais vãos que a própria vaidade." A Palavra escrita de Deus permanece como um testemunho contra todos os esforços dos homens de negar, distorcer ou corromper o que ele lhes disse.

Isso não é dizer que os homens não mais negligenciam, distorcem, desobedecem e rejeitam ouvir a Palavra, como nos foi escrita infalivelmente nas Escrituras, mas sim que o registro escrito deixa-os sem escusa.

No final, eles não podem negar que a criação como relatada em Gênesis 1 e confirmada por toda a Escritura é a história da criação divina em seis dias. Nem podem negar que a Escritura ensina que a mulher deveria ficar em silêncio na igreja. Eles podem chamar esse ensino de antiquado e culturalmente condicionado, mas o que a Palavra diz é claro. Negando isso, eles perdem não somente a Palavra de Deus, mas também a vida eterna (Ap. 22:18-19).

Além do fato que todos os homens são mentirosos e corrompem a Palavra de Deus para os seus próprios fins, somos por natureza tão corruptos e depravados que não tomaríamos a mensagem de Deus de maneira honesta, se ele tivesse nos deixado apenas sua Palavra falada, quer através de anjos, profetas ou diretamente. Sem dúvida entenderíamos errado ou corromperíamos a Palavra falada.

Nem mesmo lembraríamos o que Deus teria dito, se ele não tivesse nos dado suas palavras na forma escrita. Quem de nós lembra perfeitamente o sermão que ouviu no último domingo? Ou quem pode estar absolutamente certo que ouviu e lembra corretamente? Peça que duas testemunhas digam o que outro alguém disse, e quase sempre você receberá duas versões diferentes do que foi dito.

Também, há muitas coisas que Deus disse que não nos agrada – coisas que não gostamos de considerar ou ouvir. Há sempre a possibilidade de tirá-las da mente e esquecê-las, como fazemos tão frequentemente, ou de ouvirmos de forma diferente, colorindo e interpretando-as por nossa fraqueza e pecado. Que os homens fazem isso mesmo com a Palavra escrita é prova que eles e nós certamente faríamos isso com a Palavra falada.

Em sua sabedoria e misericórdia, Deus nos deu sua Palavra escrita, para que não possamos alegar que nunca ouvimo-la ou que a ouvimos incorretamente. Devemos, portanto, ter a mais alta consideração pela Palavra escrita e não buscar em outro lugar o conhecimento de Deus e da sua vontade.
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Fonte (original): Doctrine According to Godliness, Ronald Hanko, Reformed Free Publishing Association, pp. 11-12.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

João Calvino
1. OS DEZ MANDAMENTOS 
      Na Lei de Deus se nos deu uma perfeitíssima regra de toda justiça, que podemos chamar com toda razão "a vontade eterna do Senhor", pois tem resumido plenamente e com clareza em duas Tábuas tudo quanto exige de nós.

     Na primeira Tábua nos prescreveu, em poucos mandamentos, quando é o serviço que lhe é agradável a sua Majestade.  Na segunda, quais são as obrigações de caridade que temos com o próximo.

PRIMEIRA TÁBUA
• Primeiro Mandamento 
"Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:2-3, ACF).

       A primeira parte deste mandamento é como uma introdução a toda a Lei. Pois ao afirmar que Ele é "Jeová, nosso Deus", Deus se declara como quem tem o direito de mandar e a cujo mandado se deve obediência, segundo o diz por seu profeta: "Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor?" (Malaquias 1:6, ACF).

   De igual modo lembra seus benefícios, colocando em evidência nossa ingratidão se não obedecemos a sua voz. Pois por esta mesma bondade com a qual antes "tirou" o povo judeu "da servidão do Egito", libera também a todos seus serviços do eterno Egito, quer dizer, do poder do pecado.

       Sua proibição de ter "outros deuses" significa que não devemos atribuir a ninguém nada do que pertence a Deus. Agrega "diante de mim", declarando deste modo que quer ser reconhecido como Deus não só numa confissão externa, senão com toda verdade, do íntimo do coração.

      Pois bem, estas coisas pertencem unicamente a Deus, e não podem transferir-se a nenhum outro sem arrebatá-las dEle; estas coisas são: que o adoremos a Ele sozinho, que nos apoiemos em Ele com toda nossa confiança e com toda nossa esperança, que reconheçamos que tudo o bom e santo provém dEle, e que lhe tributemos o louvor por toda bondade e santidade.

• Segundo Mandamento
"Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás" (Êxodo 20:4-5, ACF).

      Do mesmo modo que pelo mandamento anterior declarou que era o único Deus, assim agora diz quem é que como deve ser honrado e servido.

       Proíbe, pois, que lhe atribuamos "alguma semelhança", e a razão disto nos dá no capítulo 4 do Deuteronômio e no capítulo 40 de Isaias, a saber: que o Espírito não tem nenhum parecido com o corpo.

       Do resto, proíbe que demos culto a nenhuma imagem. Aprendamos, pois, deste mandamento que o serviço e a honra de Deus são espirituais: pois, como é Espírito, quer ser honrado e servido em espírito e em verdade. Imediatamente agrega uma terrível ameaça, com a que declara quão gravemente resulta ofendido quebrantando este mandamento: "porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos" (Êx 20:5-6, ACF).

     Que e como se disser que Ele é o único em quem devemos descansar, que não suporta que coloquemos a ninguém a seu lado. E inclusive que vingará sua Majestade e sua Glória se alguns a transferirem às imagens ou a qualquer outra coisa; e não de uma vez para sempre, senão nos pais, filhos e descendentes, quer dizer, em todos, enquanto imitem a impiedade de seus pais; do mesmo modo que manifesta sua misericórdia e doçura aos que o amam e guardam sua Lei. Em todo o qual nos declara a grandeza de sua misericórdia que a estende até mil gerações, enquanto que só assina quatro gerações para sua vingança.

• Terceiro Mandamento
"Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão" (Êx 20:7, ACF).

       Nos proíbe aqui abusar de seu santo e sagrado Nome nos juramentos para confirmar coisas vãs ou mentiras, pois os juramentos não devem servir-nos para prazer ou deleite, senão para uma justa necessidade quando se trata de manter a glória do Senhor ou quando é necessário afirmar algo que serve para edificação.

      E proíbe terminantemente que maculemos no mínimo seu santo e sagrado Nome; ao contrário, devemos tomar este Nome com reverência e com toda dignidade, segundo o exige sua santidade, trate-se de um juramento que nós pronunciemos, ou de qualquer coisa que nos propomos perante Ele.
        E já que o principal uso que devemos realizar deste Nome é invocá-lo, aprendemos que classe de invocação  é a que aqui nos ordena.

       Finalmente,  anuncia neste mandamento um castigo, com o fim que aqueles que profanem com injúrias e outras blasfêmias a santidade de seu Nome, não acreditem que poderão escapar de sua vingança.

• Quarto Mandamento
"Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou" (Êx 20:8-11, ACF).

     Vemos que promulgou este mandamento por três motivos: Primeiro, porque o Senhor quis, por meio do repouso do sétimo dia, dar a entender ao povo de Israel o repouso espiritual no qual devem os fiéis abandonar suas próprias obras para que o Senhor opere neles.

      Em segundo lugar, quis que existisse um dia ordenado para reunir-se, para escutar sua Lei e tomar parte em seu culto. Em terceiro lugar, quis que aos servos e a os que vivem sob o domínio de outro lhes fosse concedido um dia de repouso para poder descansar de seu trabalho. Mas isto é uma conseqüência, antes que uma razão principal.

       Em quanto ao primeiro motivo, não há dúvida alguma de que cessou com Cristo: pois Ele é a Verdade com cuja presença desaparecem todas as figuras, e é o Corpo com cuja vinda se esvaecem todas as sombras. Pelo qual são Paulo afirma que o sábado era "a sombra do porvir". Do resto, declara a mesma verdade quando, no capítulo 6 da carta aos Romanos, nos ensina que fomos sepultados com Cristo, a fim de que por sua morte morramos à corrupção de nossa carne. E isso não se efetua num só dia, senão ao longo de toda nossa vida até que, mortos inteiramente a nós mesmos, sejamos transbordados da vida de Deus. portanto deve estar muito longe do cristão a observação supersticiosa dos dias.

      Mas como os dois últimos motivos não podem contar-se entre as sombras antigas senão que se referem por igual a todas as épocas, apesar de ter sido ab-rogado o sábado, ainda tem vigência entre nós o que escolhamos alguns dias para escutar a Palavra de Deus, para romper o pão místico na Ceia e para orar publicamente. Pois somos tão fracos que é impossível reunir tais assembleias todos os dias. Também é necessário que os servos e os operários possam repor-se de seu trabalho.

      Por isso foi abolido o dia observado pelos judeus —o qual era útil para desarraigar a superstição—, e se destinou a esta prática um outro dia —o qual era necessário para manter e conservar a ordem e a paz na Igreja.

       Se, pois, aos judeus se deu a verdade em figura, a nós se nos revela esta mesma verdade sem nenhuma sombra: Primeiramente, para que consideremos toda nossa vida um "sábado", quer dizer, repouso contínuo de nossas obras, para que o Senhor opere em nós por meio de seu Espírito.
      Em segundo lugar, para que mantenhamos a ordem legítima da Igreja, com o fim de escutar a Palavra de Deus, receber os Sacramentos e orar publicamente.
      Em terceiro lugar, para que não oprimamos desumanamente com o trabalho aos que nos estão sujeitos.

SEGUNDA TÁBUA
• Quinto Mandamento
"Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá" (Êx 20:12, ACF).

     Neste mandamento se nos ordena respeitar a nosso pai e mãe, e aos que de modo parecido exercem autoridade sobre nós, como os príncipes e magistrados. A saber, que lhes tributemos reverência, reconhecimento e obediência, e todos os serviços que nos sejam possíveis, pois é a vontade de Deus que correspondamos com todas estas coisas aos que nos trouxeram a esta vida. E pouco importa que sejam dignos ou indignos de receber esta honra, pois, sejam o que for, o Senhor nos os deu por pai e mãe e quis que os honremos.

      Mas devemos indicar de passagem que somente se nos manda obedecê-lhes em Deus. pelo qual não devemos, para agradá-los, quebrantar a Lei do Senhor; pois se nos ordenam algo, seja o que for, contra Deus, então não devemos considerá-los, neste ponto, como pai e mãe, senão como estranhos que querem afastar-nos da obediência a nosso verdadeiro Pai.

      Este quinto mandamento é o primeiro que contém uma promessa, como o indica são Paulo no capítulo 6 da carta aos Efésios. Pelo fato de prometer o Senhor uma bênção na vida presente aos filhos que tenham servido e honrado a seu pai e mãe, observando este mandamento tão conveniente, declara que tem preparada uma certíssima maldição  para os que são rebeldes e desobedientes.

• Sexto Mandamento
"Não matarás" (Êx 20:13, ACF).

     Aqui nos é proibido qualquer tipo de violência e ultraje, e em geral toda ofensa que posa ferir o corpo do próximo. Pois se lembrarmos que o homem foi feito a imagem de Deus, devemos considerá-lo como santo e sagrado, de sorte que não pode ser violentado sem violentar também, nele, a imagem de Deus.

 • Sétimo Mandamento
"Não adulterarás" (Êx 20:14, ACF).

     O Senhor nos proíbe aqui qualquer classe de luxúria e de impureza. Pois o Senhor uniu o homem e a mulher somente pela lei do matrimônio, e como esta união está selada com sua autoridade, a santifica também com sua bênção; portanto, qualquer união que não seja a do matrimônio é maldita ante Ele. É, portanto, nosso que aqueles que não têm o dom da continência —pois é um dom particular que não está na capacidade de todos— coloquem um freio à intemperança de sua carne com o honesto remédio do matrimônio, pois o matrimônio é honroso em todos; porém Deus condenará os fornicarios e os adúlteros.

 • Oitavo Mandamento 
"Não furtarás" (Êx 20:15, ACF).

     Se nos proíbe aqui, de um modo geral, que nos apropriemos dos bens alheios. Pois o Senhor quer que estejam longe de seu povo todo tipo de rapinas por meio das quais são abrumados e oprimidos os fracos, e também toda sorte de enganos com os que se vê surpreendida a inocência dos humildes.

      Se, pois, quisermos conservar nossas mãos puras e limpas de furtos, é necessário que nos abstenhamos tanto de rapinas violentas como de enganos e sutilezas.

 • Nono Mandamento
"Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êx 20:16, ACF).

     O Senhor condena aqui todas as maldições e injúrias com as que se ultraja a boa fama de nosso irmão, e todas as mentiras com as quais, de qualquer forma que seja, se fere o próximo.

    Pois se a boa fama é mais preciosa que qualquer outro tesouro, não recebemos menos dano ao sermos despojados da integridade de nossa boa fama que ao sê-lo de nossos bens. Com freqüência se consegue tirar os bens a um irmão com falsos testemunhos, tão perfeitamente como com a cobiça das mãos. Por isso fica amarrada nossa língua por este mandamento, como o estão nossas mãos pelo anterior.

• Décimo Mandamento
"Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" (Êx 20:17, ACF).

     Por este mandamento o Senhor coloca como um freio a todos os desejos que ultrapassam os limites da caridade. Pois todo o que os outros mandamentos proíbem cometer em forma de atos contra a regra do amor, este proíbe concebê-lo no coração.

     Assim, este mandamento condena o ódio, a inveja, a malevolência, do mesmo modo que antes estava condenado o homicídio. Tão proibidos estão os afetos impuros e as máculas internas do coração como a libertinagem. Onde já estavam proibidos o engano e a cobiça, aqui o está a avareza; onde já se proibia a murmuração, aqui se reprime inclusive a malevolência.

     Vemos, pois, quão geral é a intenção deste mandamento, e como se estende ao longo e ao largo. Pois o Senhor exige que amemos nossos irmãos com um afeto maravilhoso e sumamente ardoroso, e quer que não se veja turvado pela mais mínima cobiça contra o bem e proveito do próximo.

     Em resumo, este mandamento consiste, portanto, em que amemos o próximo de tal modo que nenhuma cobiça contrária à lei do amor nos afague, e que estejamos dispostos a dar de bom grau a cada um o que lhe pertence. Agora bem, devemos considerar como pertencente a cada um o que pelo mesmo dever de nosso cargo estamos obrigados a dá-lhe. 

2. O RESUMO DA LEI
     Nosso Senhor Jesus Cristo nos declarou suficientemente para onde tendem todos os mandamentos da Lei, ao ensinar-nos que toda a Lei re compreendida em dois artigos.
     O primeiro, que amemos o Senhor, nosso Deus, com todo nosso coração, com toda nossa alma e com todas nossas forças.

      O segundo, que amemos nosso próximo cristianismo a nós mesmos.
   E esta interpretação a tomou da própria Lei, pois a primeira parte está no capítulo 6 do Deuteronômio e a segunda a achamos no capítulo 19 do Levítico.

3. O QUE NOS VEM UNICAMENTE DA LEI
     Eis aqui o modelo de uma vida santa e justa, e incluso uma imagem perfeitíssima da justiça, de modo que se alguém cumprir em sua vida a lei de Deus, a esse nada do que se requer para a perfeição lhe faltará perante o Senhor.

      Para confirmar isso, Deus promete aos que tenham cumprido sua Lei, não só aquelas grandes bênçãos da vida presente de que se fala no capítulo 26 do Levítico e no capítulo 28 de Deuteronômio, senão também  a recompensa da vida eterna.

     Por outra parte, Deus anuncia a vingança de uma morte eterna contra todos os que não tenham cumprido com suas ações tudo o que foi mandado nesta Lei. Inclusive Moisés, tendo proclamado a Lei, toma por testemunha o céu e a terra de que acaba de propor ao povo o bem e o mal, a vida e a morte.

      Mas, embora a Lei indica o caminho da vida, contudo devemos ver de que modo pode aproveitar-nos. Se nossa vontade estiver conformada e submetida à obediência da vontade de Deus, certamente que o mero conhecimento da Lei bastaria para nossa salvação. Mas, como a nossa natureza carnal e corrompida luta em tudo e sempre contra a Lei espiritual de Deus, e não se corrigiu no mais mínimo com a doutrina desta Lei, resulta que esta mesma Lei que tinha sido dada, caso ter achado ouvintes bons e capazes, para a salvação, se converte em orações de pecado e de morte. Pois, como estamos todos convencidos de sermos transgressores da Lei, quanto mais claramente esta Lei nos manifesta a justiça de Deus, com tanta maior clareza nos descobre, por outra parte, nossa injustiça.

      Portanto, quanto maior seja a transgressão em que nos surpreenda, tanto mais severo será o juízo de Deus diante do qual ela nos declara culpados; e, uma vez suprimida a promessa de vida eterna, não nos sobra senão a maldição que  todos nos corresponde pela Lei.

4. A LEI É UMA ETAPA PARA CHEGAR ATÉ CRISTO
     Se a injustiça e a transgressão de todos nós estão demonstradas pelo testemunho da Lei, não é assim com o fim que caiamos no desespero e de que, perdida toda esperança, afundemos na ruína.

      O apóstolo nos diz que todos estamos condenados pelo juízo da Lei, para que toda boca se feche que todo o mundo fique sob o juízo de Deus. porém, ele mesmo ensina em outra parte que Deus encerrou a todos na incredulidade, não para perdê-los ou para deixá-los perecer, senão para ter misericórdia de todos.

      Assim sendo, o Senhor, depois de ter-nos prevenido, por meio da Lei, de nossa debilidade e de nossa impureza, nos consola com a confiança em seu poder e em sua misericórdia, e isso em Cristo, seu Filho, pelo qual Ele se nos revela a nós como benévolo e propício.

      Pois embora na Lei Deus não aparece mais que como o remunerador de uma perfeita justiça —da qual estamos totalmente privados—, e por outra parte como o Juiz íntegro e severo dos pecados, em Cristo, ao contrário, seu rosto resplandece cheio de graça e de doçura; e isto para com os miseráveis e indignos pecadores, pois nos deu este exemplo admirável de seu amor infinito, entregando por nós seu próprio Filho, e nos abriu, nEle, todos os tesouros de sua clemência e bondade. 

__________________________________________________
Fonte: BREVE INSTRUÇÃO CRISTÃ.  PUBLICADA EM 1537. Por JOÃO CALVINO
Apenas a segunda parte.
Tradução do espanhol realizada por Daniela Raffoo, Terminada em sexta-feira, 21 de março de 2008

Reforma Radical

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