Herman Hoeksema
Perseverança dos Santos Definida

A perseverança dos santos é um ato da graça de Deus pelo qual ele preserva os crentes e santos em Cristo Jesus, em seu poder e por meio da fé, até o fim para a salvação e glória, de forma que eles lutam o bom combate da fé, e de forma que nunca possam cair da graça que uma vez receberam. A Escritura e as confissões Reformadas ensinam a perseverança dos santos por causa da infalível preservação de Deus.

Prova Escriturística para a Perseverança

A perseverança dos santos é de fato o ensino da palavra de Deus:

Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai, que me enviou, é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último Dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último Dia (João 6:37-40).

Aos judeus incrédulos Jesus disse:

Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las das mãos de meu Pai. Eu e o Pai somos um (João 10:26-30).

Filipenses 1:6 assegura os santos: "Tendo por certo isto mesmo: que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo." Nascemos de novo para "uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e que se não pode murchar, guardada nos céus para vós que, mediante a fé, estais guardados na virtude de Deus, para a salvação já prestes para se revelar no último tempo" (I Pe. 1:3-5).

A perseverança certa dos santos é fundamentada na eleição eterna de Deus. Ela é garantida pela obra do Espírito Santo e os dons da graça, que são sem arrependimento. Ela é garantida pela própria intercessão de Cristo pelos seus, pois sua oração certamente será ouvida. Finalmente, ela está na própria natureza da vida espiritual dos santos, pois a vida deles é eterna. Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, e, portanto nunca pode perecer. Deus, que implantou essa vida eterna em seu coração, a preservará para a glória final.

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Fonte: Reformed Dogmatics, Herman Hoeksema, Reformed 
Free Publishing Association, vol. 2, pp. 175-176.

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

Rev. Ronald Hanko
Por que precisamos da Palavra de Deus na forma escrita? Não tinha Deus em outros tempos e lugares se revelado de diferentes formas, e se feito conhecido ao seu povo? Ele não deu sua Palavra muito antes dela ser escrita? Não é uma forma de idolatria, portanto, sugerir que a Palavra de Deus escrita é a única palavra a qual devemos prestar atenção, a única regra para a nossa fé e vida?

A razão fundamental de não termos e não desejarmos a Palavra de Deus em qualquer outra forma diferente daquela escrita na qual ele nos deu, é que "todos os homens são mentirosos e mais vãos que a própria vaidade." A Palavra escrita de Deus permanece como um testemunho contra todos os esforços dos homens de negar, distorcer ou corromper o que ele lhes disse.

Isso não é dizer que os homens não mais negligenciam, distorcem, desobedecem e rejeitam ouvir a Palavra, como nos foi escrita infalivelmente nas Escrituras, mas sim que o registro escrito deixa-os sem escusa.

No final, eles não podem negar que a criação como relatada em Gênesis 1 e confirmada por toda a Escritura é a história da criação divina em seis dias. Nem podem negar que a Escritura ensina que a mulher deveria ficar em silêncio na igreja. Eles podem chamar esse ensino de antiquado e culturalmente condicionado, mas o que a Palavra diz é claro. Negando isso, eles perdem não somente a Palavra de Deus, mas também a vida eterna (Ap. 22:18-19).

Além do fato que todos os homens são mentirosos e corrompem a Palavra de Deus para os seus próprios fins, somos por natureza tão corruptos e depravados que não tomaríamos a mensagem de Deus de maneira honesta, se ele tivesse nos deixado apenas sua Palavra falada, quer através de anjos, profetas ou diretamente. Sem dúvida entenderíamos errado ou corromperíamos a Palavra falada.

Nem mesmo lembraríamos o que Deus teria dito, se ele não tivesse nos dado suas palavras na forma escrita. Quem de nós lembra perfeitamente o sermão que ouviu no último domingo? Ou quem pode estar absolutamente certo que ouviu e lembra corretamente? Peça que duas testemunhas digam o que outro alguém disse, e quase sempre você receberá duas versões diferentes do que foi dito.

Também, há muitas coisas que Deus disse que não nos agrada – coisas que não gostamos de considerar ou ouvir. Há sempre a possibilidade de tirá-las da mente e esquecê-las, como fazemos tão frequentemente, ou de ouvirmos de forma diferente, colorindo e interpretando-as por nossa fraqueza e pecado. Que os homens fazem isso mesmo com a Palavra escrita é prova que eles e nós certamente faríamos isso com a Palavra falada.

Em sua sabedoria e misericórdia, Deus nos deu sua Palavra escrita, para que não possamos alegar que nunca ouvimo-la ou que a ouvimos incorretamente. Devemos, portanto, ter a mais alta consideração pela Palavra escrita e não buscar em outro lugar o conhecimento de Deus e da sua vontade.
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Fonte (original): Doctrine According to Godliness, Ronald Hanko, Reformed Free Publishing Association, pp. 11-12.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

João Calvino
1. OS DEZ MANDAMENTOS 
      Na Lei de Deus se nos deu uma perfeitíssima regra de toda justiça, que podemos chamar com toda razão "a vontade eterna do Senhor", pois tem resumido plenamente e com clareza em duas Tábuas tudo quanto exige de nós.
     Na primeira Tábua nos prescreveu, em poucos mandamentos, quando é o serviço que lhe é agradável a sua Majestade.  Na segunda, quais são as obrigações de caridade que temos com o próximo.

PRIMEIRA TÁBUA
• Primeiro Mandamento 
"Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:2-3, ACF).

       A primeira parte deste mandamento é como uma introdução a toda a Lei. Pois ao afirmar que Ele é "Jeová, nosso Deus", Deus se declara como quem tem o direito de mandar e a cujo mandado se deve obediência, segundo o diz por seu profeta: "Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor?" (Malaquias 1:6, ACF).
   De igual modo lembra seus benefícios, colocando em evidência nossa ingratidão se não obedecemos a sua voz. Pois por esta mesma bondade com a qual antes "tirou" o povo judeu "da servidão do Egito", libera também a todos seus serviços do eterno Egito, quer dizer, do poder do pecado.
       Sua proibição de ter "outros deuses" significa que não devemos atribuir a ninguém nada do que pertence a Deus. Agrega "diante de mim", declarando deste modo que quer ser reconhecido como Deus não só numa confissão externa, senão com toda verdade, do íntimo do coração.
      Pois bem, estas coisas pertencem unicamente a Deus, e não podem transferir-se a nenhum outro sem arrebatá-las dEle; estas coisas são: que o adoremos a Ele sozinho, que nos apoiemos em Ele com toda nossa confiança e com toda nossa esperança, que reconheçamos que tudo o bom e santo provém dEle, e que lhe tributemos o louvor por toda bondade e santidade.

• Segundo Mandamento
"Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás" (Êxodo 20:4-5, ACF).

      Do mesmo modo que pelo mandamento anterior declarou que era o único Deus, assim agora diz quem é que como deve ser honrado e servido. 
       Proíbe, pois, que lhe atribuamos "alguma semelhança", e a razão disto nos dá no capítulo 4 do Deuteronômio e no capítulo 40 de Isaias, a saber: que o Espírito não tem nenhum parecido com o corpo.
       Do resto, proíbe que demos culto a nenhuma imagem. Aprendamos, pois, deste mandamento que o serviço e a honra de Deus são espirituais: pois, como é Espírito, quer ser honrado e servido em espírito e em verdade. Imediatamente agrega uma terrível ameaça, com a que declara quão gravemente resulta ofendido quebrantando este mandamento: "porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos" (Êx 20:5-6, ACF).
     Que e como se disser que Ele é o único em quem devemos descansar, que não suporta que coloquemos a ninguém a seu lado. E inclusive que vingará sua Majestade e sua Glória se alguns a transferirem às imagens ou a qualquer outra coisa; e não de uma vez para sempre, senão nos pais, filhos e descendentes, quer dizer, em todos, enquanto imitem a impiedade de seus pais; do mesmo modo que manifesta sua misericórdia e doçura aos que o amam e guardam sua Lei. Em todo o qual nos declara a grandeza de sua misericórdia que a estende até mil gerações, enquanto que só assina quatro gerações para sua vingança.

• Terceiro Mandamento
"Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão" (Êx 20:7, ACF).

       Nos proíbe aqui abusar de seu santo e sagrado Nome nos juramentos para confirmar coisas vãs ou mentiras, pois os juramentos não devem servir-nos para prazer ou deleite, senão para uma justa necessidade quando se trata de manter a glória do Senhor ou quando é necessário afirmar algo que serve para edificação.
      E proíbe terminantemente que maculemos no mínimo seu santo e sagrado Nome; ao contrário, devemos tomar este Nome com reverência e com toda dignidade, segundo o exige sua santidade, trate-se de um juramento que nós pronunciemos, ou de qualquer coisa que nos propomos perante Ele.
        E já que o principal uso que devemos realizar deste Nome é invocá-lo, aprendemos que classe de invocação  é a que aqui nos ordena.
       Finalmente,  anuncia neste mandamento um castigo, com o fim que aqueles que profanem com injúrias e outras blasfêmias a santidade de seu Nome, não acreditem que poderão escapar de sua vingança.

• Quarto Mandamento
"Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou" (Êx 20:8-11, ACF).

     Vemos que promulgou este mandamento por três motivos: Primeiro, porque o Senhor quis, por meio do repouso do sétimo dia, dar a entender ao povo de Israel o repouso espiritual no qual devem os fiéis abandonar suas próprias obras para que o Senhor opere neles.
      Em segundo lugar, quis que existisse um dia ordenado para reunir-se, para escutar sua Lei e tomar parte em seu culto. Em terceiro lugar, quis que aos servos e a os que vivem sob o domínio de outro lhes fosse concedido um dia de repouso para poder descansar de seu trabalho. Mas isto é uma conseqüência, antes que uma razão principal.
       Em quanto ao primeiro motivo, não há dúvida alguma de que cessou com Cristo: pois Ele é a Verdade com cuja presença desaparecem todas as figuras, e é o Corpo com cuja vinda se esvaecem todas as sombras. Pelo qual são Paulo afirma que o sábado era "a sombra do porvir". Do resto, declara a mesma verdade quando, no capítulo 6 da carta aos Romanos, nos ensina que fomos sepultados com Cristo, a fim de que por sua morte morramos à corrupção de nossa carne. E isso não se efetua num só dia, senão ao longo de toda nossa vida até que, mortos inteiramente a nós mesmos, sejamos transbordados da vida de Deus. portanto deve estar muito longe do cristão a observação supersticiosa dos dias.
      Mas como os dois últimos motivos não podem contar-se entre as sombras antigas senão que se referem por igual a todas as épocas, apesar de ter sido ab-rogado o sábado, ainda tem vigência entre nós o que escolhamos alguns dias para escutar a Palavra de Deus, para romper o pão místico na Ceia e para orar publicamente. Pois somos tão fracos que é impossível reunir tais assembleias todos os dias. Também é necessário que os servos e os operários possam repor-se de seu trabalho.
      Por isso foi abolido o dia observado pelos judeus —o qual era útil para desarraigar a superstição—, e se destinou a esta prática um outro dia —o qual era necessário para manter e conservar a ordem e a paz na Igreja.
       Se, pois, aos judeus se deu a verdade em figura, a nós se nos revela esta mesma verdade sem nenhuma sombra: Primeiramente, para que consideremos toda nossa vida um "sábado", quer dizer, repouso contínuo de nossas obras, para que o Senhor opere em nós por meio de seu Espírito.
      Em segundo lugar, para que mantenhamos a ordem legítima da Igreja, com o fim de escutar a Palavra de Deus, receber os Sacramentos e orar publicamente.
      Em terceiro lugar, para que não oprimamos desumanamente com o trabalho aos que nos estão sujeitos.

SEGUNDA TÁBUA
• Quinto Mandamento
"Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá" (Êx 20:12, ACF).

     Neste mandamento se nos ordena respeitar a nosso pai e mãe, e aos que de modo parecido exercem autoridade sobre nós, como os príncipes e magistrados. A saber, que lhes tributemos reverência, reconhecimento e obediência, e todos os serviços que nos sejam possíveis, pois é a vontade de Deus que correspondamos com todas estas coisas aos que nos trouxeram a esta vida. E pouco importa que sejam dignos ou indignos de receber esta honra, pois, sejam o que for, o Senhor nos os deu por pai e mãe e quis que os honremos.
      Mas devemos indicar de passagem que somente se nos manda obedecê-lhes em Deus. pelo qual não devemos, para agradá-los, quebrantar a Lei do Senhor; pois se nos ordenam algo, seja o que for, contra Deus, então não devemos considerá-los, neste ponto, como pai e mãe, senão como estranhos que querem afastar-nos da obediência a nosso verdadeiro Pai.
      Este quinto mandamento é o primeiro que contém uma promessa, como o indica são Paulo no capítulo 6 da carta aos Efésios. Pelo fato de prometer o Senhor uma bênção na vida presente aos filhos que tenham servido e honrado a seu pai e mãe, observando este mandamento tão conveniente, declara que tem preparada uma certíssima maldição  para os que são rebeldes e desobedientes.

• Sexto Mandamento
"Não matarás" (Êx 20:13, ACF).

     Aqui nos é proibido qualquer tipo de violência e ultraje, e em geral toda ofensa que posa ferir o corpo do próximo. Pois se lembrarmos que o homem foi feito a imagem de Deus, devemos considerá-lo como santo e sagrado, de sorte que não pode ser violentado sem violentar também, nele, a imagem de Deus.

 • Sétimo Mandamento
"Não adulterarás" (Êx 20:14, ACF).

     O Senhor nos proíbe aqui qualquer classe de luxúria e de impureza. Pois o Senhor uniu o homem e a mulher somente pela lei do matrimônio, e como esta união está selada com sua autoridade, a santifica também com sua bênção; portanto, qualquer união que não seja a do matrimônio é maldita ante Ele. É, portanto, nosso que aqueles que não têm o dom da continência —pois é um dom particular que não está na capacidade de todos— coloquem um freio à intemperança de sua carne com o honesto remédio do matrimônio, pois o matrimônio é honroso em todos; porém Deus condenará os fornicarios e os adúlteros.

 • Oitavo Mandamento 
"Não furtarás" (Êx 20:15, ACF).

     Se nos proíbe aqui, de um modo geral, que nos apropriemos dos bens alheios. Pois o Senhor quer que estejam longe de seu povo todo tipo de rapinas por meio das quais são abrumados e oprimidos os fracos, e também toda sorte de enganos com os que se vê surpreendida a inocência dos humildes.
      Se, pois, quisermos conservar nossas mãos puras e limpas de furtos, é necessário que nos abstenhamos tanto de rapinas violentas como de enganos e sutilezas.

 • Nono Mandamento
"Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êx 20:16, ACF).

     O Senhor condena aqui todas as maldições e injúrias com as que se ultraja a boa fama de nosso irmão, e todas as mentiras com as quais, de qualquer forma que seja, se fere o próximo.
    Pois se a boa fama é mais preciosa que qualquer outro tesouro, não recebemos menos dano ao sermos despojados da integridade de nossa boa fama que ao sê-lo de nossos bens. Com freqüência se consegue tirar os bens a um irmão com falsos testemunhos, tão perfeitamente como com a cobiça das mãos. Por isso fica amarrada nossa língua por este mandamento, como o estão nossas mãos pelo anterior.

• Décimo Mandamento
"Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" (Êx 20:17, ACF).

     Por este mandamento o Senhor coloca como um freio a todos os desejos que ultrapassam os limites da caridade. Pois todo o que os outros mandamentos proíbem cometer em forma de atos contra a regra do amor, este proíbe concebê-lo no coração.
     Assim, este mandamento condena o ódio, a inveja, a malevolência, do mesmo modo que antes estava condenado o homicídio. Tão proibidos estão os afetos impuros e as máculas internas do coração como a libertinagem. Onde já estavam proibidos o engano e a cobiça, aqui o está a avareza; onde já se proibia a murmuração, aqui se reprime inclusive a malevolência.
     Vemos, pois, quão geral é a intenção deste mandamento, e como se estende ao longo e ao largo. Pois o Senhor exige que amemos nossos irmãos com um afeto maravilhoso e sumamente ardoroso, e quer que não se veja turvado pela mais mínima cobiça contra o bem e proveito do próximo.
     Em resumo, este mandamento consiste, portanto, em que amemos o próximo de tal modo que nenhuma cobiça contrária à lei do amor nos afague, e que estejamos dispostos a dar de bom grau a cada um o que lhe pertence. Agora bem, devemos considerar como pertencente a cada um o que pelo mesmo dever de nosso cargo estamos obrigados a dá-lhe. 

2. O RESUMO DA LEI
     Nosso Senhor Jesus Cristo nos declarou suficientemente para onde tendem todos os mandamentos da Lei, ao ensinar-nos que toda a Lei re compreendida em dois artigos.
      O primeiro, que amemos o Senhor, nosso Deus, com todo nosso coração, com toda nossa alma e com todas nossas forças.
      O segundo, que amemos nosso próximo cristianismo a nós mesmos.
    E esta interpretação a tomou da própria Lei, pois a primeira parte está no capítulo 6 do Deuteronômio e a segunda a achamos no capítulo 19 do Levítico.

3. O QUE NOS VEM UNICAMENTE DA LEI
     Eis aqui o modelo de uma vida santa e justa, e incluso uma imagem perfeitíssima da justiça, de modo que se alguém cumprir em sua vida a lei de Deus, a esse nada do que se requer para a perfeição lhe faltará perante o Senhor.
      Para confirmar isso, Deus promete aos que tenham cumprido sua Lei, não só aquelas grandes bênçãos da vida presente de que se fala no capítulo 26 do Levítico e no capítulo 28 de Deuteronômio, senão também  a recompensa da vida eterna.
     Por outra parte, Deus anuncia a vingança de uma morte eterna contra todos os que não tenham cumprido com suas ações tudo o que foi mandado nesta Lei. Inclusive Moisés, tendo proclamado a Lei, toma por testemunha o céu e a terra de que acaba de propor ao povo o bem e o mal, a vida e a morte.
      Mas, embora a Lei indica o caminho da vida, contudo devemos ver de que modo pode aproveitar-nos. Se nossa vontade estiver conformada e submetida à obediência da vontade de Deus, certamente que o mero conhecimento da Lei bastaria para nossa salvação. Mas, como a nossa natureza carnal e corrompida luta em tudo e sempre contra a Lei espiritual de Deus, e não se corrigiu no mais mínimo com a doutrina desta Lei, resulta que esta mesma Lei que tinha sido dada, caso ter achado ouvintes bons e capazes, para a salvação, se converte em orações de pecado e de morte. Pois, como estamos todos convencidos de sermos transgressores da Lei, quanto mais claramente esta Lei nos manifesta a justiça de Deus, com tanta maior clareza nos descobre, por outra parte, nossa injustiça.
      Portanto, quanto maior seja a transgressão em que nos surpreenda, tanto mais severo será o juízo de Deus diante do qual ela nos declara culpados; e, uma vez suprimida a promessa de vida eterna, não nos sobra senão a maldição que  todos nos corresponde pela Lei.

4. A LEI É UMA ETAPA PARA CHEGAR ATÉ CRISTO
     Se a injustiça e a transgressão de todos nós estão demonstradas pelo testemunho da Lei, não é assim com o fim que caiamos no desespero e de que, perdida toda esperança, afundemos na ruína.
      O apóstolo nos diz que todos estamos condenados pelo juízo da Lei, para que toda boca se feche que todo o mundo fique sob o juízo de Deus. porém, ele mesmo ensina em outra parte que Deus encerrou a todos na incredulidade, não para perdê-los ou para deixá-los perecer, senão para ter misericórdia de todos.
      Assim sendo, o Senhor, depois de ter-nos prevenido, por meio da Lei, de nossa debilidade e de nossa impureza, nos consola com a confiança em seu poder e em sua misericórdia, e isso em Cristo, seu Filho, pelo qual Ele se nos revela a nós como benévolo e propício.
      Pois embora na Lei Deus não aparece mais que como o remunerador de uma perfeita justiça —da qual estamos totalmente privados—, e por outra parte como o Juiz íntegro e severo dos pecados, em Cristo, ao contrário, seu rosto resplandece cheio de graça e de doçura; e isto para com os miseráveis e indignos pecadores, pois nos deu este exemplo admirável de seu amor infinito, entregando por nós seu próprio Filho, e nos abriu, nEle, todos os tesouros de sua clemência e bondade. 

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Fonte: BREVE INSTRUÇÃO CRISTÃ.  PUBLICADA EM 1537. Por JOÃO CALVINO
Apenas a segunda parte.
Tradução do espanhol realizada por Daniela Raffoo, Terminada em sexta-feira, 21 de março de 2008

João Calvino
1. TODOS OS HOMENS VIVEM PARA CONHECER A DEUS 
Nem sequer entre os bárbaros e completamente selvagens é possível encontrar um homem que careca de certo sentido religioso; e isso é devido a que todos nós temos sido criados para este fim: conhecer a Majestade de nosso Criador e, uma vez conhecida, tê-lo em grande estima por acima de tudo, e honrá-lo com todo temor, amor e reverência.

Deixando de lado os infiéis, que só tratam de apagar de sua memória este sentido de Deus, implantando em seus corações, nós, os que fazemos confissão de piedade, devemos ter presente que esta vida caduca e que pronto acabará, não deveria ser outra coisa senão uma meditação da imortalidade. Agora bem, em nenhuma parte podemos achar a vida eterna e imortal, se não for em Deus. Portanto, o principal cuidado e preocupação de nossa vida deve consistir em buscar a Deus e aspirar a Ele com todo o afeto de nosso coração e encontrar o único repouso somente nEle.

2. DIFERENÇA ENTRE A VERDADEIRA E A FALSA RELIGIÃO
Ninguém desejará ser considerado como absolutamente indiferente à piedade e ao conhecimento de Deus, já que está demonstrado, por consentimento geral, que se levarmos uma vida sem religião, vivemos miseravelmente e não nos distinguimos em nada das bestas.

Mas existem maneiras muito diversas de manifestar a religião de cada um; pois a maioria dos homens não operam precisamente movidos pelo temor de Deus. E já que, gostem ou não, sentem-se como ofuscados por esta ideia que continuamente lhes vem à mente: "que existe alguma outra divindade cujo poder os mantêm em pé ou os faz cair"; impressionados, de um ou de outro modo, pelo pensamento de um poder tão grande, lhe professam certa veneração por medo que se ire contra eles mesmos se o desprezam demasiado. Contudo, o viver fora de Sua lei e rejeitar toda honestidade, demonstram uma grande despreocupação, pois estão menosprezando o juízo de Deus. Do resto, como não concebem a Deus segundo sua infinita Majestade, senão segundo a louca e irrefletida vaidade de sua mente, de fato se afastam do verdadeiro Deus. Eis aqui o por quê, ainda quando realizem um esforço cuidadoso por servir a Deus, isso não lhes vale de nada, já que em vez de adorar o Deus eterno, adoram, em seu lugar, os sonhos e imaginações de seu coração.

Agora bem, a verdadeira piedade não consiste no temor, o qual muito gostosamente evitaria o juízo de Deus, pois tem tanto mais horror quanto que não pode fugir dele; senão antes bem um puro e autêntico zelo que ama a Deus como a um verdadeiro Pai e o reverencia como a verdadeiro Senhor, abraça sua justiça e tem mas horror de ofendê-lO que de morrer. E quantos possuem este zelo não tentam forjar-se um deus de acordo com seus desejos e segundo sua temeridade, senão que buscam o conhecimento do verdadeiro Deus em Deus mesmo, e não o concebem senão tal e como se manifesta e se dá a conhecer a eles.

3. O QUE DEVEMOS CONHECER DE DEUS
Como a Majestade de Deus ultrapassa em si a capacidade do entendimento humano e inclusive é incompreensível para este, devemos adorar sua grandeza antes que examiná-la para não sermos completamente abrumados com tão grande claridade.

Por isso devemos buscar e considerar a Deus em suas obras, às quais a Escritura chama, por esta razão, "manifestações das coisas invisíveis", pois nos manifestam o que, de outro modo, não podemos conhecer do Senhor.

Não se trata agora de especulações vãs e frívolas para manter nosso espírito em suspense, senão de algo que necessitamos saber, que é alimento e que confirma em nós uma autêntica e sólida piedade, quer dizer, a fé unida ao temor. Contemplemos, pois, neste universo a imortalidade de nosso Deus, de quem procede o princípio e origem de tudo o que existe; seu poder que criou num tão grande conjunto e agora o sustenta; sua sabedoria que compôs e governa uma variedade tão grande e tão diversa segundo uma ordem deliciosa; sua bondade que tem sido em si mesma causa de que tenham sido criadas todas estas coisas e de que agora subsistam; sua justiça que se manifesta de um modo maravilhoso na proteção dos bons e no castigo dos maus; sua misericórdia que, para mover-nos ao arrependimento, suporta nossas iniquidades com grande doçura.

Certamente que este universo nos ensinaria, na medida que o necessitamos, e com abundantes testemunhos, como é Deus; mas somos tão rudes que estamos cegos ante uma luz tão brilhante. e nisto não pecamos só pela nossa cegueira, senão que nossa perversidade é tão grande que, ao considerar as obras de Deus, tudo o entende mal e erradamente , tergiversando por completo toda a sabedoria celestial que, muito pelo contrário, resplandece nelas com grande clareza.

Temos, pois, que deter-nos na Palavra de Deus que nos descreve a Deus de um modo perfeito pelas suas obras. Nela se julgam suas obras não segundo a perversidade de nosso juízo, senão segundo a regra da eterna verdade. Ali aprendemos que nosso único e eterno Deus é a origem e fonte de toda vida, justiça, sabedoria, poder, bondade e clemência; que dEle procede, sem exceção alguma, todo bem; e que, portanto, a Ele se deve com justiça todo louvor.

E embora todas estas coisas aparecem claramente em qualquer parte do céu e da terra, em definitiva só a Palavra de Deus nos fará compreender sempre e com toda verdade o fim principal para o qual tendem, qual é seu valor, e em que sentido devemos interpretá-las. Então aprofundaremos em nós mesmos e aprenderemos como manifesta o Senhor em nós sua vida, sua sabedoria, seu poder; e como operam em nós sua justiça, sua clemência e sua bondade.

4. O QUE DEVEMOS CONHECER DO HOMEM
O homem foi, no princípio, formado a imagem e semelhança de Deus para que, pela dignidade que tão nobremente tinha-lhe Deus investido, admirasse a seu Autor e o honrasse com o agradecimento que se devia.

Mas o homem, confiando na excelência tão grande de sua natureza, esqueceu de onde procedia e quem o fazia subsistir, e pretendeu alçar-se contra seu Senhor. Foi, pois, necessário que se despojasse de todos os dons de Deus, dos quais se orgulhava loucamente, para que assim, privado e desprovido de toda glória, conhecesse o Deus que o havia enriquecido com generosidade e a quem tinha-se atrevido a desprezar.

Pelo qual, todos nós, que procedemos de Adão, uma vez que esta semelhança de Deus tem desaparecido de nós, nascemos carne da carne. Pois, ainda que estejamos compostos de alma e corpo, sentimos sempre e unicamente a carne, de modo que seja qual for a parte do homem sobre a qual fizemos nossos olhos, só podemos ver coisas impuras, profanas e abomináveis para Deus. pois a sabedoria do homem, cegada e assediada por inúmeros erros, se opõe continuamente à sabedoria de Deus; a vontade perversa e cheia de afetos corrompidos a nada professa mais ódio que a sua justiça; as forças humanas, incapazes de qualquer obra boa, se inclinam furiosamente para a iniquidade.

5. DO LIVRE ARBÍTRIO
A Escritura testemunha com freqüência que o homem é escravo do pecado; o que quer dizer que seu espírito  é tão estranho à justiça de Deus que não concebe, deseja ou empreende coisa alguma que não seja má, perversa, iníqua e suja; pois o coração, completamente cheio do veneno do pecado, não pode produzir senão os frutos do pecado.

 Não pensemos, porém, que o homem peca como impelido por uma necessidade iniludível, pois peca com o consentimento de sua própria vontade, continuamente e segundo sua inclinação. Mas como a causa da corrupção de seu coração odeia profundamente a justiça de Deus, e por outro lado lhe atrai toda sorte de maldade, por isso se diz que não tem o livre poder de escolher o bem e o mal —que é o que chamamos de livre arbítrio.

6. DO PECADO E DA MORTE
O pecado, segundo a Escritura, é tanto esta perversidade da natureza humana que é a fonte de todo vício, como os maus desejos que nascem dela, e os injustos crimes que estes originam: homicídios, furtos, adúlteros e outros parecidos. Assim, pois, todos nós, pecadores desde o ventre materno, nascemos submetidos à cólera e à vingança de Deus.

E quando somos já adultos, acumulamos sobre nós, cada vez mais pesadamente, o juízo de Deus.
Por último, durante toda nossa vida, avançamos mais e mais rumo a morte.

Pois se não há dúvida alguma de que qualquer iniquidade é odiosa para a justiça de Deus, que podemos esperar perante Ele, nós que somos miseráveis e estamos abrumados pelo peso de tanto pecado e manchados com inúmeras impurezas, senão uma confusão certa, segundo sua justa indignação?

Este conhecimento, embora aterra o homem e o enche de desespero, é contudo necessário para que, despidos de nossa própria desprovidos de qualquer esperança de vida, aprendamos, compreendendo nossa pobreza, miséria e ignomínia, a prostrar-nos ante o Senhor, reconhecendo nossa iniquidade, impotência e perdição, e possamos atribuí-lhe toda a glória pela santidade, o poder e a salvação.

7. COMO SOMOS ENCAMINHADOS À SALVAÇÃO E À VIDA
Se este conhecimento de nós mesmos, que nos demonstra nossa nada, tem penetrado verdadeiramente em nossos corações, então nos será fácil o acesso ao verdadeiro conhecimento de Deus. Este Deus já nos abriu uma espécie de primeira porta em seu Reino, ao destruir estas duas nefandas verdades: a certeza de que não nos alcançará sua vingança, e a falsa confiança em nós mesmos. Então começamos a elevar para o céu aqueles olhos até agora fixos e cravados no chão, e suspiramos pelo Senhor, os que só descansávamos em nós mesmos.

E por outra parte, este Pai misericordioso, ainda quando nossa iniquidade merece um tratamento bem diferente, se revela então voluntariamente a nós segundo sua bondade incrível, quando precisamente estamos tão aflitos e aterrorizados. E pelos meios que Ele sabe resultam úteis a nossa debilidade, nos chama do erro ao reto caminho, da morte à vida, da ruína à salvação, do reino do diabo a Seu próprio reino. Para todos aqueles aos quais se digna conceder de novo a herança da vida celestial, estabelece o Senhor, como primeira etapa, que se sintam contristados em suas consciências, carregados pelo peso de seus pecados e estimulados a permanecer em seu temor; e por isso nos propõe, para começar, sua Lei, a qual nos exercita neste conhecimento.
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Fonte: BREVE INSTRUÇÃO CRISTÃ.  PUBLICADA EM 1537. Por JOÃO CALVINO
Apenas a primeira parte.
Tradução do espanhol realizada por Daniela Raffoo, Terminada em sexta-feira, 21 de março de 2008

C. H. Spurgeon
Sermão pregado no Domingo de 18 de Abril de 1886.  Por Charles Haddon Spurgeon. 
No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres


“E desde a hora sexta houve trevas sobre toda a terra, até à hora nona. ” (Mateus 27:45).


Desde as nove da manhã até ao meio-dia, a luz do Sol iluminou com toda sua intensidade usual; de tal forma que os adversários de nosso Senhor tiveram tempo suficiente para contemplar e insultar Seus sofrimentos. Não poderia haver nenhum equivoco a respeito do fato de que Ele estava realmente cravado na cruz. Pois, Ele foi crucificado em plena luz do dia. Estamos plenamente convencidos que foi Jesus de Nazaré, já que tanto seus amigos como seus inimigos foram testemunhas oculares de Sua agonia: durante três longas horas os judeus estiveram sentados ali o contemplando na cruz, zombando de Suas misérias.

Dou graças por essas três horas de luz. Do contrário, os inimigos de nossa fé teriam questionado se verdadeiramente o corpo bendito de nosso Senhor foi cravado na cruz, e haveriam dado motivo a inumeráveis fantasias, tão abundantes como os morcegos e as corujas que rondam na escuridão. Onde estariam as testemunhas dessa solene cena se o sol estivesse oculto desde manhã até de noite? Posto que três horas de luz proporcionaram a oportunidade de que se verificasse e de que se pudesse dar testemunho do fato, vemos nisso a sabedoria que não permitiu que a luz se dissipará tão rapidamente.

Nunca percam de vista que esse milagre de fechar os olhos do dia, exatamente ao meio-dia, foi realizado por nosso Senhor em Sua debilidade. Ele havia caminhado sobre o mar, ressuscitado mortos, e sarado aos enfermos nos dias de Sua força; porem, agora, decaiu baixíssimo, tem febre, sem forças e sedento. Ele se movimenta nos limites da dissolução; no entanto, possui o poder de escurecer o sol exatamente ao meio-dia. Ele é ainda verdadeiro Deus de verdadeiro Deus.[1]

"Olhem, uma torrente púrpura derrama-se
Desde  Suas mãos e de Sua cabeça,
A maré vermelha apaga o sol;
Seus gemidos despertam os mortos."

Se Ele pode fazer isso em Sua debilidade, o que não poderá fazer em Seu poder? Não esqueçam que esse poder foi desdobrado em uma área na que Ele usualmente não manifestou Sua força. A área de Cristo é de bondade e benevolência, e conseguintemente, de luz. Quando Ele adentra nas áreas de convocar à escuridão ou de chamar à juízo, Ele ocupa-se daquilo que Ele nomeia Sua estranha obra. As obras de Sua mão esquerda são maravilhas de terror. Somente de vez em quando que Ele faz com que o sol se oculte ao meio-dia, ou escurece a terra em dia claro (Amós 8:9).

Se nosso Senhor pôde trazer a escuridão ao morrer, que glória não poderíamos esperar agora que Ele vive para ser luz da cidade de Deus para sempre? O Cordeiro é a luz, e que luz! Os céus mostram as pistas de Seu poder agonizante, e perdem seu brilho. Por acaso os novos céus e a nova terra não darão testemunho do poder do Senhor ressuscitado? As densas trevas que rodeiam ao Cristo moribundo são as vestes do Onipotente: Ele vive outra vez, e tem todo o poder em Suas mãos, e todo esse poder o empregará para abençoar Seus eleitos.

Que chamado deve ter sido para os despreocupados filhos dos homens, esse meio-dia convertido em meia-noite! Eles não sabiam que o Filho de Deus estava em meio deles; nem que Ele estava cumprindo a redenção humana. A hora mais grandiosa de toda a história humana dava a impressão que passaria sem que se a notasse, quando, subitamente, a noite saiu apressadamente de suas habitações e usurpou o dia. Todo mundo perguntou a seu companheiro: “o que essa escuridão significa?” Os negócios foram paralisados: o arado ficou no meio do sulco e o machado não pode ser alçado. Era meio-dia, justo quando os homens encontram-se mais ocupados; porem, todos eles fizeram uma pausa geral. Não só no Calvário, mas também em todas as colinas, e em cada vale, as trevas baixaram. Houve um hiato na caravana da vida. Ninguém podia se mover exceto buscando seu caminho as apalpadas, tal como os cegos o fazem. O dono da casa pediu que a luz fosse acesa ao meio-dia, e o servente, tremendo, obedeceu essa ordem inusitada. Outras luzes também brilhavam, e Jerusalém era uma cidade submersa na noite, mas os homens não estavam em suas camas. Como a humanidade estava surpreendida! Em volta desse grandioso leito de morte conseguiu-se uma quietude apropriada. Não duvido que um gélido terror apoderou-se das massas das pessoas, e que os homens prudentes anteciparam coisas terríveis. Os que tinham permanecido ao redor da cruz, e se atreveram a insultar a majestade de Jesus, estavam paralisados de terror. Eles cessaram com sua obscenidade e deixaram de cruelmente se alegrarem. Até mesmo os mais vis deles estavam atemorizados, ainda que não convencidos – os demais “se golpeavam nos peitos.” Os que puderam, sem dúvida, foram tremulantes para suas casas trataram de se esconder, por medo dos terríveis juízos que, temiam, teriam que encarar.

Não me surpreende que existam tradições de coisas estranhas que foram ditas no silêncio dessas trevas. Esses sussurros do passado podem ou não ser verdadeiros; foram tema de controvérsia dos estudiosos, porem o esforço da disputa foi energia mal gasta. No entanto, não nos surpreenderia que alguém tenha dito, como afirmam alguns repórteres: “Deus está sofrendo ou o mundo está perecendo.” Nem irei eliminar de minhas crenças a lenda poética que afirma que o piloto egípcio de um barco, navegando rio abaixo entre seus bancos cheios de juncos, escutou uma voz que saia da sussurrante flora, dizendo: “O grandioso Pão morreu.” Em verdade, o Deus da natureza estava expirando, e coisas ainda mais ternas que os juncos da ribanceira tremeriam diante desse som.

Somos informados que essas trevas cobriram toda a terra; e Lucas diz: “sobre toda a terra.” Essa parte de nosso globo na que correspondia à noite natural, não foi afetada; porem, para todos os homens que estavam despertos, e que se encontravam em seus trabalhos, era o aviso de um grandioso e solene evento. Era estranho além de toda experiência, e todos os homens se maravilharam; pois, quando a luz devia de ter tido maior brilho, todas as coisas foram escurecidas pelo espaço de três horas.

Deve existir um grande ensino nessas trevas; pois quando nos aproximamos da cruz, que é o centro da história, cada evento está repleto de significado. Luz saltará dessas trevas. Amo sentir a solenidade das três horas de sombras de morte, assentar-me ali e meditar, sem nenhuma companhia, exceto ao Augusto Sofredor, em cujo redor desceram as trevas. Irei apresentar quatro pontos, segundo o Espírito Santo me guie. Primeiro, inclinemos nossos espíritos na presença de um milagre que nos assombra; em segundo, consideremos essas trevas como um véu que esconde; em terceiro, como um símbolo que instrui; e em quarto lugar, como um demonstração de simpatia, que nos serve de advertência pelas profecias que implica.

I. Em primeiro lugar, contemplemos essas trevas como UM MILAGRE QUE NOS ASSOMBRA. Poderia parecer uma observação de rotina o fato de que essas trevas estavam completamente fora do curso natural das coisas. Desde que o mundo começou, nunca se ouviu que em pleno meio dia, houvera tido trevas sobre toda a terra. Isso estava completamente fora da ordem da natureza. Algumas pessoas negam os milagres; e se também negam a Deus, de pronto não irei me dirigir a elas. Mas seria muito estranho que alguém que cresse em Deus, duvidasse da possibilidade dos milagres. Parece-me que, aceitando a existência de Deus, os milagres devem ser esperados como uma declaração ocasional de Sua independência e de Sua vontade ativa. Ele pode estabelecer certas regras para Suas ações, e em Sua sabedoria apegar-se a elas; mas certamente deve reservar para Si mesmo a liberdade de apartar-se de Suas próprias leis, ou do contrário, em certa medida, haveria abandonado Sua Deidade pessoal, teria deificado a lei, colocando-a acima de Si mesmo.

Não acrescentaria em nada nossa ideia da glória de Sua Deidade, se pudesse nos assegurar que Ele se fez a Si mesmo o sujeito da regra, atando Suas mãos para não atuar jamais exceto de certa maneira específica. Da auto-existência e completa liberdade da vontade que entram em nossa mesma concepção de Deus, somos levados a esperar que algumas vezes Ele não deva se apegar aos métodos que segue como Sua regra geral. Isso levou à convicção universal que os milagres são uma prova da Deidade. As obras gerais da criação e da providência são as melhores provas segundo entendo: porem, o coração geral de nossa raça, por uma razão ou outra, olha os milagres como uma evidência mais segura; demonstrando dessa forma que de Deus se espera os milagres.

Ainda que o Senhor estabeleça em Sua ordem que haja dia e noite, Ele, nesse caso, com abundante razão interpõe três horas de noite no meio do dia. Observem a razão. O inusitado na natureza inferior é levado a harmonizar-se com o inusitado nos tratos do Senhor da natureza. Certamente esse milagre era sumamente congruente com esse milagre ainda maior que estava tendo lugar na morte de Cristo. Por acaso não estava o próprio Senhor apartando-se de todas as formas normais? Não estava fazendo isso que jamais havia feito desse o principio, e que jamais seria feito novamente? Que os homens morram é algo tão comum, que é considerado inevitável. Não nos surpreende o som dos sinos dobrando nos campanários em um funeral: familiarizamo-nos com a tumba.

Conforme os companheiros de nossa juventude morrem ao nosso lado, já não somos tomados pela surpresa; pois a morte está em todo nosso derredor e dentro de nós. Porem, que o Filho de Deus morra, isso está mais alem de toda expectativa, e não só por acima da natureza, mas até mesmo contrário a ela. O que é igual a Deus, suspende numa cruz e morre. Não sei que outra coisa poderia parecer mais fora de toda regra e mais além de toda expectativa que isso. Que o sol se tenha escurecido ao meio dia é um acompanhamento adequado à morte de Jesus. Por acaso não é assim?

Mais ainda, esse milagre não somente estava fora da ordem natural, mas também é um milagre que se teria considerado impossível. Não é possível que se tenha um eclipse de sol quando há lua cheia. Quando a lua está cheia, não está em uma posição na que possa projetar sua sombra sobre a terra. A Páscoa dos judeus ocorria na lua cheia, e, portanto não era possível que houvera um eclipse solar. Esse escurecimento do sol não foi estritamente um eclipse astronômico; sem dúvida a escuridão se fez de outra forma: no entanto, para aqueles que estavam ali presentes, certamente pareceu ser um eclipse total do sol: algo impossível.

Ah irmãos! Quando tratamos com o homem, com a queda, com o pecado, com Deus, com Cristo, e com a expiação, encontramos que as impossibilidades habitam juntas como em uma casa. Temos chegado agora a uma região onde os prodígios, as maravilhas, as surpresas, são a ordem rotineira do dia: o sublime volta-se em lugar comum quando entramos no círculo do amor eterno. Sim, mas ainda; agora abandonamos a sólida terra do possível, e nos adentramos no mar, onde vemos as obras do Senhor, e Suas maravilhas nas profundezas. Quando pensamos no impossível em outras áreas, começamos a retroceder: porem, o caminho arde nas chamas do divino, e logo percebemos que “para Deus tudo é possível.” Vejam, então, na morte de Jesus, a possibilidade do impossível! Vejam como o Filho de Deus pode morrer.

Algumas vezes nos vemos obrigados a fazer uma pausa quando encontramos com uma expressão em algum hino, que implica que Deus pode sofrer ou morrer; consideramos que o poeta usou uma licença poética demasiadamente grande: no entanto, é conveniente que nos refreamos de ser hipercríticos, já que nas Santas Escrituras há palavras como essas. Inclusive lemos (Atos 20:28) sobre a “igreja do Senhor, a qual ele resgatou por seu próprio sangue.” O sangue de Deus! Ah! Não me preocupa defender a linguagem do Espírito Santo; porem, em sua presença tomo a liberdade de justificar as palavras que cantamos a poucos instantes:

“Bem faz o sol ao esconder-se nas trevas,
E ocultar todas as glórias,
Quando Deus, o poderoso Criador, morreu
Pelo homem, pelo pecado da criatura”

Não me atreverei a explicar a morte do Deus encarnado. Basta-me crer nela, e depositar minha esperança nela.

Como pode o Santo carregar com o pecado? Tampouco sei. Um homem sábio nos disse, como se fosse um axioma, que a imputação ou a não imputação do pecado é uma impossibilidade. Que pense o que quiser: já nos familiarizamos com tais coisas desde que olhamos para a cruz. Para nós, as coisas que os homens qualificam de absurdas se converteram em verdades fundamentais. A doutrina da cruz é loucura aos que se perdem. Sabemos certamente que em nosso Senhor não houve pecado, no entanto, Ele levou nossos pecados sobre Seu próprio corpo, no madeiro. Não sabemos como o inocente Filho de Deus pode sofrer por pecados que não eram seus; surpreende-nos que a justiça permita que Alguém tão perfeitamente santo seja desamparado por Seu Deus e seja levado a clamar “Eloi, Eloi, Lama Sabactani?” Porem, assim aconteceu, e tal por decreto da mais excelsa justiça; e nos alegramos por isso.  Como aconteceu com o eclipse do sol, assim Jesus fez coisas por nós, nas agonias de Sua morte, que no juízo comum dos homens, devem ser consideradas como completamente impossíveis.

Nossa fé se sente em casa na terra das maravilhas, onde os pensamentos do Senhor encontram-se tão altos sobre nossos pensamentos, assim como os céus são mais altos que a terra. Em relação a esse milagre, tenho que assinalar também que esse escurecimento do sol sobrepassou todos os eclipses ordinários e naturais. Esse durou muito mais que um eclipse ordinário, e se apresentou de uma forma diferente. Segundo Lucas, veio primeiro a escuridão sobre toda a terra, e o sol escureceu depois: as trevas não começaram com o sol, antes, se sobrepuseram ao sol. Foi único e sobrenatural. Agora, entre todas as dores, nenhuma dor é comparável a dor de Jesus: de todas as aflições, nenhuma corre paralela às aflições de nosso grandioso Substituto.

Da mesma maneira que a luz mais poderosa projeta a sombra mais profunda, assim o surpreendente amor de Jesus custou-lhe uma morte que não é a sorte comum dos homens. Outros morrem, porem esse homem é “obediente até a morte.” Outros bebem o gole fatal, no entanto, não precisam tomar nem de seu amargo nem de seu fel; Todavia, Ele “experimentou a morte.” Cada parte de Seu ser foi escurecida com essa extraordinária sombra de morte; e a escuridão natural externa foi somente para cobrir uma morte especial que eram inteiramente única.

E agora, quando penso nela, essas trevas parecem ter sido perfeitamente naturais e adequadas. Se tivéssemos que escrever a história da morte de nosso Senhor, não poderíamos omitir as trevas sem deixar de lado um elemento muito importante. As trevas parecem ser uma parte dos componentes naturais dessa grandiosa transação. Leiam toda a história e não estarão surpresos por essas trevas; depois que a mente de vocês se familiarize com o pensamento que esse é o Filho de Deus, e que Ele estende Suas mãos à cruel morte de cruz, não estarão maravilhados quando o véu do templo se rasgue; nem surpreendidos pelo terremoto ou pela ressurreição de alguns mortos. Essas coisas são coadjuvantes adequadas da paixão de nosso Senhor; as trevas também são. Desempenham seu próprio papel, e aparenta que não teriam possibilidade de ser de maneira diferente:

“Esse sacrifício! A morte Dele,
O Altíssimo e por sempre Santo!
Que os céus se apagam está muito certo,
E que se torne negro o brilho do sol.”

Reflitam por um momento. Não lhes pareceu como se a morte que essas trevas envolviam eram também uma parte natural do grandioso todo? Por fim chegamos a sentir como se a morte do Cristo de Deus fosse uma parte integral da história humana. Não se pode eliminá-la da crônica do homem; ou será que pode? Introduza a Queda, e olhe o Paraíso Perdido, e não pode completar o poema até que tenham introduzido esse Homem mais grande ainda que nos redimiu, e que por meio de Sua morte nos deu o Paraíso Restaurado.[2] É uma característica singular de todos os verdadeiros milagres, que ainda que sua surpresa não termine nunca, jamais se percebem como anti-naturais: são maravilhosos, porem, jamais monstruosos.

Os milagres de Cristo se encaixam no curso natural da história humana: não podemos ver como o Senhor poderia estar na terra, e que Lázaro não houvesse sido ressuscitado dos mortos quando a dor de Marta e Maria fora expressa de maneira tão comovedora. Não podemos perceber como os discípulos poderiam ter sido sacudidos pela tormenta no Mar da Galiléia e que o Cristo não caminhasse sobre as águas para libertá-los. Maravilhas de poder são elementos esperados em seu lugar com as circunstâncias que as rodeiam. Um milagre segundo a Igreja Católica é sempre monstruoso e desprovido de harmonia com aquilo que está em seu redor. O que me importa que a cabeça de Santa Vinfreda [3] tenha surgido do poço e falado de lá com o camponês surpreendido que se aproximava para tirar água? Não me importa se saiu do poço ou não; isso não altera a História em nada, nem dá a ela tom; é algo agregado que não forma parte do registro histórico.

Porem, os milagres de Jesus, e esse das trevas entre eles, são essenciais para a história humana; e esse é de forma especial, no caso de Sua morte e essas grandes trevas que a envolveram. Todas as coisas na história humana convergem na cruz, que não parece ser para nada uma ocorrência ou um recurso posterior, mas sim o canal adequado e ordenado desde o princípio pelo qual correria o amor até alcançar o homem culpado.

Não posso dizer mais porque me falta a voz, ainda que tivesse muitas outras coisas mais a dizer. Sentem-se e permitam que as densas trevas os cubram até o ponto que nem sequer possam ver a cruz, sabendo que fora do alcance do olho mortal o Senhor fez a redenção de Seu povo. Ele fez em silêncio um milagre de paciência e amor, por meio do qual a luz veio aos que habitam nas trevas e no vale das sombras da morte.

II. Em segundo lugar, desejo que considerem essas trevas como UM VÉU QUE ESCONDE. O Cristo pendido naquele madeiro. Vejo a terrível cruz. Vejo aos dois ladrões, um de cada lado. Vejo a meu redor, e observo cheio de tristeza a esse variado grupo de cidadãos de Jerusalém, escribas, sacerdotes, estrangeiros provindos de diferentes países, conjuntamente com os soldados romanos. Todos voltam seus olhares até Ele, e em sua maioria contemplam com cruel desprezo ao Santo que está no centro da cena. Verdadeiramente, é um espetáculo horrível.

Vejam esses cães comuns e esses touros de Basã que são de uma classe mais notável, todos unidos para desonrar ao Manso e Humilde. Devo confessar que nunca li a história da morte de meu Senhor, sabendo o que sei da dor da crucificação, sem sentir uma profunda angústia: a crucificação era uma morte digna de ter sido inventada pelos demônios. A dor que envolvia era sem medida; não os torturarei descrevendo-a nesse momento. Conheço muitos queridos corações que não podem ler sobre ela sem derramar lágrimas e sem dormir depois durante várias noites.

Porem, havia algo mais que angústia no Calvário: o ridículo e desprezo amargavam tudo. As zombarias, essas cruéis piadas, os escárnios, sinais que eles fizeram com a língua, que diremos disso tudo? Algumas vezes senti uma pequena simpatia por esse príncipe francês que falava: “Se eu tivesse estado lá com meus guardas, teria varrido todos esses desgraçados.”[4] Era um espetáculo demasiadamente terrível: a dor da vítima era extrema, porem, quem poderia suportar a abominável iniquidade dos zombadores.

Demos graças a Deus porque em meio do crime desceram as trevas que fizeram com que fosse impossível que os escarnecedores continuassem com suas burlas. Jesus devia morrer; para Sua dor não podia existir alívio, e não podia ser liberto da morte; porem, os burladores deviam se calar. Da maneira mais efetiva suas bocas foram fechadas pelas densas trevas que os envolveram.

O que vejo nesse véu é, primeiro que tudo, que era UMA OCULTAÇÃO DESSES INIMIGOS CULPADOS. Já pensaram nisso alguma vez? É como se Ele mesmo tivera dito: “Não posso suportá-lo. Não irei seguir observando essa infâmia! Desça, ó véu!” e as densas sombras desceram:

“Pergunte aos céus: ‘qual inimigo de Deus fez
Essa ação sem par?’ Os céus exclamam:
‘Foi o homem; e nós arrebatamos o sol
De tal espetáculo de culpa e vergonha’”

Graças a Deus, a cruz é um esconderijo. Ministra aos homens culpados um albergue para se protegerem do olho Daquele que tudo enxerga, de tal forma que a justiça não precise vê-los e golpeá-los. Quando Deus levanta Seu Filho, e o faz visível, esconde o pecado dos homens. Ele diz que “Deus, tendo passado por alto os tempos dessa ignorância.” Ainda mesmo a grandeza de seus pecados Ele dá as costas, de tal forma que não precisa mais vê-los, mas pode exercer Sua paciência, e permitir que Sua piedade suporte as provações dos homens. O coração do Eterno Deus deve ter lastimado ver tal crueldade sem freio dirigida até Ele, que só fez o bem a Seu redor, curando todo tipo de enfermidades. Foi terrível ver os mestres do povo rejeitarem Cristo com desdém, a semente de Israel, que devia aceitá-lo como seu Messias, lançá-lo fora como uma coisa desprezada e aborrecedora. Por conseguinte, sinto gratidão para com Deus por convocar essas trevas para que cobrissem toda a terra, e colocassem fim a essa cena vergonhosa.

Quero dizer a qualquer um que seja culpável aqui: Graças a Deus que o Senhor Jesus fez possível que seus pecados sejam escondidos mais que completamente por espessas trevas. Graças a Deus que em Cristo Ele não o vê com esse severo olho de justiça que implicaria vossa destruição. Se Jesus não tivesse se interposto, cuja morte você há desprezado, você teria alcançado em sua própria morte o resultado de seu próprio pecado já a muito tempo – porem, por causa de seu Senhor se lhe é permitido viver como se Deus não o percebera. Essa paciência está destinada a trazer arrependimento a ti: Não viras?

Mas, continuando, essas trevas foram um sagrado esconderijo para a bendita Pessoa de nosso divino Senhor. Por assim dizer, os anjos encontraram para seu Rei um pavilhão de densas nuvens, na que Sua Majestade poderia se abrigar em sua hora de miséria. Era muito que o olho ímpio contemplasse tão toscamente essa imaculada Pessoa. Por acaso Seus inimigos não o tinha desnudado, e lançado sortes sobre Suas vestes? Portanto, era conveniente que a santa humanidade encontrasse por fim um esconderijo adequado. Não era bom que olhos brutais vissem as linhas gravadas pelo cinzel da aflição sobre essa bendita figura. Não era bom que os zombadores vissem as contorções desse corpo sagrado, habitado pela Divindade, enquanto Ele era quebrantado sob a vara de ferro da ira divina por causa nossa. Era conveniente que Deus o cobrisse, para que ninguém olhasse tudo o que fazia e tudo o que carregava quando foi feito pecado por nós. Eu bendigo devotamente a Deus por esconder dessa forma a meu Senhor: assim, Ele foi coberto dos olhos que não eram dignos de ver o Sol e muito menos de ver ao Sol da Justiça.

Essa escuridão também nos adverte, até mesmo para nós que somos muito reverentes. Essa escuridão nos diz que a Paixão é um grande mistério, que não podemos escrudrinhar. Eu trato de explicá-lo como substituição, e penso que ai onde a linguagem da Escritura é explicita, eu posso e devo ser explicito também. Porem, ainda penso que a ideia de substituição não abrange completamente o tema, e que nenhuma concepção humana pode captar de maneira plena todo esse terrível mistério.

Foi efetivado na escuridão, porque o significado pleno de vastos alcances e o resultado do mesmo não podem ser contemplados pela mente finita. Podem me dizer que a morte do Senhor Jesus foi um grande exemplo de auto-negação: eu posso ver isso e muito mais. Podem falar-me que foi uma obediência maravilhosa à vontade de Deus: eu posso ver isso e muito mais. Podem-me dizer que consistiu em carregar aquilo que devia ser levado por milhares de milhares de pecadores da raça humana, como castigo por seus pecados: posso ver isso, e encontrei minha melhor esperança nisso. Porem, não me digam que isso é tudo o que está na cruz. Não, mesmo grandioso como isso pode ser, há muito mais na morte de nosso Redentor.

Só Deus conhece o amor de Deus: só Cristo conhece tudo o que logrou quando inclinou Sua cabeça e entregou Seu espírito. Existem mistérios comuns na natureza nos que seria uma irreverência querer se intrometer; porem, esse é um mistério divino, diante do qual tiramos nossos sapatos, pois o lugar chamado Calvário, terra santa é.

Deus colocou um véu na cruz, cobrindo-a de trevas, e muito de seu significado mais profundo permanece na escuridão; não porque Deus não queira revelá-lo, mas sim porque não temos a suficiente capacidade para discernir tudo. Deus se manifestou na carne, e nesse corpo humano quitou o pecado por meio do auto-sacrifício: todos nós sabemos isso; porem “Indiscutivelmente, grande é o mistério da piedade.”

Novamente, esse véu de escuridão também figura para mim a maneira como que os poderes das trevas sempre se esforçam por esconder a cruz de Cristo. Combatemos contra as trevas quanto tratamos de pregar a cruz. “Esta é a vossa hora e o poder das trevas.” (Lucas 22:53), disse Cristo; e não duvido que as nessa hora, hostes infernais desferiram um feroz assalto contra o espírito de nosso Senhor. Também sabemos que, se o príncipe das trevas vai estar em algum lugar lutando, certamente será onde Cristo é posto mais alto. Encobrir a cruz é o objetivo do inimigo das almas. Alguma vez você se deu conta disso?

Essas pessoas que odeiam o Evangelho deixarão correr qualquer outra doutrina sem apresentar combate; mas, se a expiação e as verdades que derivam dela são pregadas, de imediato elas são abaladas. Nada provoca tanto ao diabo como a cruz. A teologia moderna possui como seu principal objetivo o obscurecimento da doutrina da expiação. Esses modernos polvos tingem de negro a água da vida. Fazem do pecado algo sem importância, e seu castigo só um assunto temporal: e assim degradam o remédio ao retirar a importância da enfermidade.

Não somos ignorantes de seus truques. Espero, meus irmãos, que as nuvens da escuridão se reunirão em redor da cruz bem no seu centro, para conseguir assim ocultá-la da vista do pecador. Porem, também podem esperar isso, que ali as trevas chegarão a seu fim. A luz surge da escuridão: a eterna luz do Filho de Deus que não morre, que tendo ressuscitado dos mortos, vive para sempre para dispersar as trevas do mal.

III. Agora passaremos a falar dessas trevas como UM SÍMBOLO QUE INSTRUE.

O véu cobre e oculta; porem, por sua vez, como um emblema, também revela. Parece dizer: “não trate de buscar dentro, mas aprenda do véu mesmo: tem trabalho de querubim sobre ele.” Essa escuridão nos ensina o que Jesus sofreu: ajuda-nos a adivinhar as aflições que talvez não possamos ver de outra forma.

A escuridão simboliza a ira de Deus que caiu sobre os que tiraram a vida de Seu Filho unigênito. Deus estava irado e Sua carranca eliminou a luz do dia. Ele estava justamente enojado, quando o pecado estava matando Seu unigênito Filho; quando os lavradores judeus diziam: “Esse é o herdeiro; vinde, matemos-lhe e nos apossamos de sua herança.” Essa é a ira de Deus para toda a humanidade, pois praticamente todos os homens participaram na morte de Jesus. Essa ira levou os homens às trevas; são ignorantes, cegos, aturdidos. Chegaram a amar as trevas mais que a luz porque suas obras são más. Nessas trevas eles não se arrependem, mas sim seguem rejeitando ao Cristo de Deus. Em meio dessas trevas Deus não os pode olhar com complacência – os vê como filhos das trevas, e herdeiros da ira, para os quais está reservada a escuridão eterna.

O símbolo também nos fala do que nosso Senhor Jesus teve que suportar. As trevas exteriores eram uma figura da escuridão que tinha dentro Dele. No Getsemani, uma densa escuridão caiu sobre o espírito de nosso Senhor, ele disse: “Minha alma está muito triste, até a morte.” Sua alegria era a comunhão com Deus: esse gozo o tinha abandonado, e Ele estava no escuro. Seu dia era a luz da face de Seu Pai: esse rosto estava escondido e uma noite terrível havia depositado-se a seu redor. Meus irmãos, eu pecaria contra esse véu se pretendera que eu lhes pudesse dizer em que consistia essa tristeza que oprimia a alma do Salvador: nada mais posso compartilhar com vocês do que me foi dado na medida em que tive comunhão com Ele em Seus sofrimentos.

Você sentiu alguma vez um horror profundo e pesado para com o pecado; o pecado próprio e o pecado dos demais? Alguma vez já viram o pecado à luz do amor de Deus? Alguma vez o pecado pairou sobre sua consciência sensível? Deslizou-se internamente em vocês um sentindo de ira como a escuridão da meia-noite; e esteve muito próximo de vocês, ao redor de vocês, sobre vocês e dentro de vocês? Vocês se sentiram presos em sua debilidade, e por sua vez perceberam que a porta até Deus está fechada? Olharam a sua volta sem encontrar ajuda, sem consolo ainda mesmo em deus: sem esperança, sem paz? Em tudo isso, vocês deram um pequeno gole desse mar salgado no que nosso Senhor foi lançado.

Sim, como Abraão, vocês sentiram o temor de uma grande escuridão que cai sobre vocês, então lhes foi dado provar algo do que seu divino Senhor sofreu, quando o Pai quis quebrantá-lo, sujeitando-o a padecimento. Isso é o que levou a suar grossas gotas de sangue que caíram no chão; e isso foi o que levou Cristo a clamar na cruz com um grito aterrador: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Não foi a coroa de espinhas, nem o látego, nem a cruz que o motivaram a clamar, mas sim a escuridão, a terrível escuridão do abandono que oprimia Sua mente e o fazia sentir um completo atordoamento.

Foi-lhe retirado tudo o que podia o consolar, e tudo o que podia o angustiar foi acumulado sobre Ele. “O espírito do homem susterá a sua enfermidade, mas ao espírito abatido, quem o suportará? (Provérbios 18:14)?” O Espírito de nosso Salvador estava ferido, e ele clamou: “meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas. (Salmos 22:14)” Ele foi privado de todo consolo natural e espiritual, e Sua angustia foi completa e total. As trevas do Calvário não permitiram o brilho das estrelas, como noutra noite qualquer, mas escureceram cada uma das luminárias do céu. Seu forte clamor e Suas lágrimas evidenciaram a profunda aflição de Sua alma. Se ele carregou com tudo, foi possível porque Sua mente foi capaz de sobrecarregar tudo, ainda que, certamente, foi vigorizada e engrandecida pela união com a Deidade. Ele suportou o equivalente ao inferno; mais ainda, não somente isso, mas suportou o equivalente a dez mil infernos no que concerne a restituição da Lei.

Nosso Senhor rendeu em Sua agonia de morte uma homenagem à justiça muito maior do que se um mundo houvera sido condenado à destruição. Tendo dito isso, que mais posso falar? Bem poderia lhe falar que essa inefável escuridão, esse esconderijo para a face Divina, diz muito mais das aflições de Jesus do que qualquer outra palavra poderia expressar.

Adicionalmente, penso que vejo também nessa escuridão aquilo com o que Jesus estava combatendo; porque jamais devemos esquecer que a cruz era um campo de batalha para Ele, onde triunfou de maneira gloriosa. Nesse momento, estava combatendo com as trevas; com os poderes da escuridão dos quais Satanás é o cabeça – com as trevas da ignorância humana, com a depravação e com a falsidade. A batalha que foi tão evidente no Gólgota foi da mesma intensidade desde sempre. Nesse momento o conflito chegou a seu clímax – pois os caudilhos dos grandes exércitos enfrentaram-se em um conflito pessoal. A batalha desse momento na que você e eu participamos de uma ou outra forma é como nada comparada com essa batalha na que todos os poderes das trevas com seus compactos batalhões lançaram-se contra o Todo Poderoso Filho de Deus. Ele resistiu sua investida inicial, suportou o tremendo golpe de seu assalto, e ao fim, com gritos de vitória, levou cativo o cativeiro.

Ele, por Seu poder e Divindade, converteu a meia-noite em dia novamente, e trouxe de novo para esse mundo um reino de luz que, bendito seja Deus, jamais terá fim. Voltem à batalha, exércitos das trevas, se é que vocês se atrevem!  A cruz os derrotou: a cruz os derrotará. Aleluia! A cruz é o estandarte da vitória; sua luz é a morte das trevas. A cruz é o farol que guia a pobre humanidade agitada pelo mal tempo ao porto da paz. Essa é a lâmpada que brilha sobre a porta da casa do grandioso Pai para conduzir ao filho pródigo para casa.

Não tenhamos medo de toda escuridão que nos ronda a caminho de casa, já que Jesus é a luz que conquista tudo.

As trevas não chegaram a um fim até que o Senhor Jesus rompeu o silêncio. Tudo havia estado quieto, e as trevas aumentaram de maneira terrível. Ao fim, Ele falou, e Sua voz pronunciou um salmo. Tratava-se do Salmo 22: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste.” Cada “Eli” que repetia desdobrava a manhã na cena. Quando Cristo pronunciou a pergunta “… porque me desamparaste?”, os homens já tinha voltado a enxergar novamente, e alguns se atreveram em mal interpretar Suas palavras, mais por conta do terror do que por ignorância. Eles disseram: “A Elias chama...” Talvez eles pretendessem que fosse uma zombaria, porem, eu não creio assim. De toda maneira, não foi uma expressão que tenham percebido, como tampouco a resposta de seus companheiros.

No entanto, já havia um pouco mais de luz, o lhes permitiu tomar uma esponja e encharcar ela em vinagre. Meus irmãos, nenhuma luz virá aos corações submersos na escuridão a menos que Jesus fale; e a luz não será clara a menos que ouçamos a voz de Suas aflições por nossa causa, conforme exclama: “porque me desamparaste?” Sua voz de dor deve ser o fim de nossas dores: Seu grito nas trevas deve alegrar nossas tristezas, e deve trazer a manhã celestial para nossas mentes.

Vocês podem ver quanto há no meu texto. É uma verdadeira alegria falar sobre um tema quando se tem boa saúde, e se está repleto de vigor; então somos como Naftali, cerva solta; podemos dar boas palavras: porem, hoje me acho em meio de dores quanto a meu corpo, e minha mente parece estar congelada. No entanto, o Senhor pode abençoar minhas débeis palavras, fazendo-lhes ver que nessas trevas existe um profundo e amplo significado que ninguém dentre nós deve esquecer. Se Deus os ajuda em suas meditações, essas trevas serão luz em volta de vocês.

IV. Passo agora a meu quarto ponto, e para concluir, minhas palavras tratarão sobre A SIMPATIA QUE PROFETIZA. Vocês podem ver a simpatia da natureza com seu Senhor: a simpatia do sol nos céus com respeito ao Sol da Justiça? Não era possível que Aquele quem fez todas as coisas estivesse na escuridão, e enquanto isso a natureza estivesse na luz.

A primeira evidência de simpatia que vejo é essa: todas as luzes são frágeis quando Cristo não brilha. Tudo é escuridão quando Ele não brilha. Na igreja, se Jesus não está lá, o que é que há lá? O próprio sol não poderia brindar-nos de luz se Jesus fosse quitado. As sete lâmpadas de ouro estão prestes a extinguir-se, a menos que Ele caminhe em meio delas, e as limpe e avive com azeite santo.

Meus irmãos, vocês logo perdem suas energias, seus espíritos desmaiam, e suas mãos se cansam se o Cristo não está com vocês. Se Jesus Cristo não é pregado de maneira íntegra, se Ele não está conosco por Seu Espírito, então tudo está envolto em trevas. Escureçam a cruz, e terão escurecido todo o ensino espiritual. Não podem dizer: “Seremos claros em qualquer outro ponto, e lúcidos em matéria de qualquer outra doutrina, porem vamos evitar a expiação, pois tantas pessoas pensam preocupadamente a respeito.”

Não, senhores, se uma luz é posta debaixo de um alqueire, toda a casa estará em trevas. Toda a teologia simpatiza com a cruz, e recebe sua cor e seus matizes dela. Seu piedoso serviço, seus livros, sua adoração pública, tudo estará em harmonia com a cruz de uma forma ou outra. Se a cruz está em trevas, em trevas também estará todo o trabalho de vocês-

“Que pensas tu de Cristo? Essa é a prova
Para medir tanto teu trabalho como teu esquema;
Não podes estar correto em nada,
A menos que penses corretamente Nele.”

Tire suas duvidas; fabrique filosofias, e elabore suas teorias: não haverá nada de luz nisso se a cruz fica de fora. Vãs são as fagulhas que você se fabricou, irá estar absorvido em dor. Todo nosso trabalho e esforço terminarão em vaidade a menos que o trabalho e esforço de Cristo sejam nossa primeira e única esperança. Se você está na escuridão sobre esse ponto, única luz, qual grande é sua escuridão!

Continuando, vejam a dependência de toda criação em Cristo, como se manifesta por meio das trevas, quando Ele se retira. Não era conveniente que Aquele que fez todos os mundos morrera, e que, no entanto, todos os mundos continuassem como haviam sido criados até esse momento. Se Ele sofre um eclipse, eles devem sofrer um eclipse também; se o Sol da Justiça se oculta em sangue, o sol natural deve manter-se em contato com Ele.

Creio, meus amigos, que existe uma simpatia mais maravilhosa entre Cristo e o mundo da natureza, do que nós podemos imaginar. Toda a criação geme em uníssono, e uma está em dores de parto. Cristo em Seu corpo místico está em trabalhos, e assim a criação inteira deve esperar a manifestação do Filho de Deus. Estamos esperando a vinda do Senhor desde os céus, e não há monte nem vale, montanha nem mar, que não estejam em perfeita harmonia com a igreja que espera. Não se surpreendam que haja terremotos em diversos lugares, erupções vulcânicas, terríveis tempestades, e proliferação de enfermidades mortais. Não se maravilhem quando ouçam de portentos terríveis, e coisas que fazem o coração gemer, pois essas coisas existirão até que venha o fim. Até que o grandioso Pastor converta Seu cajado em cetro, e comece Seu reino que não conhece sofrimento, essa pobre terra deve sangrar por cada uma de suas veias. As trevas existirão até que esses dias de espera cheguem a seu fim. Os que esperam uma história plácida até que Cristo venha, não sabem o que esperam.

Vocês que pensam que a política generosa ira criar ordem e contentamento, e que o crescimento do livre comércio produzirá paz universal nas nações, buscam aos vivos em meio dos mortos. Até que o Senhor venha, a mensagem saiu: “A ruína, ruína, ruína,” e tudo será reduzido em ruínas, não só em outros reinos, mas também nesse, até que venha Jesus. Tudo o que possas ser abalado, será abalado, e só Seu trono irremovível e Sua verdade permanecerão. Agora é o tempo da batalha do Senhor contra as trevas, e não podemos esperar ainda a luz permanente.

Queridos amigos, o pecado que ocultou Cristo em trevas e o fez morrer em trevas, escurece o mundo todo. O pecado que ocultou a Cristo em trevas e o fez pender da cruz, está escurecendo aos que não creem Nele, e viverão na escuridão e morrerão na escuridão a menos que se aproximem Dele, que é a única luz do mundo, e o que lhes pode proporcionar a luz. Não há luz para ninguém exceto em Cristo; e até tanto não creiam Nele, uma densa escuridão os cegará, tropeçarão e perecerão. Essa é a lição que quero que aprendam.

Outra lição prática é: se nos encontramos em trevas nesse momento, se nossos espíritos estão imersos na escuridão, não desesperemos, pois o próprio Senhor Cristo esteve lá. Caso eu tenha caído na miséria por causa do pecado, não devo abandonar toda esperança, pois o Amado do Pai passou por uma escuridão mais densa que a minha.

Oh, alma crente, se você está na escuridão está próximo das bodegas do Rei, e existe vinhos bem refinados descansando ai. Foi introduziu no pavilhão do Senhor, e agora pode falar com Ele. Não irá encontrar a Cristo nas lúcidas lojas do orgulho, nem nas sujas guaridas da impiedade: não o acharão onde o violino, a dança e o licor que fluem incendeiam as luxúrias dos homens, mas sim nas casas do luto encontrarão ao Homem de Dores. Ele não está onde Heródias baila, nem onde Berenice lança seus encantos; porem, Ele está onde a mulher de espírito contristado move seus lábios em oração. Ele nunca está ausente do lugar onde a penitência se senta nas trevas e lamenta suas faltas –

“Sim, Senhor, em horas de tristeza,
Quando as sombras invadem minha habitação,
Quando a dor exala seus gemidos,
E a tristeza seus suspiro e lamentos,
Então Tu está próximo.”

Se vocês estão debaixo de uma nuvem, busquem seu Senhor, se de alguma maneira O puderem achar. Fique quieto em sua negra aflição, e digam: “Oh, Senhor, o pregador me diz que Tua cruz uma vez esteve em tal negridão como essa. Oh Jesus, ouve-me!” Ele te responderá: O Senhor irá vigiar desde o pilar das nuvens e derramará uma luz sobre você. “Pois conheci suas angústias,” Ele disse. O quebrantamento do coração não é algo estranho para Ele. Cristo também sofreu uma vez pelo pecado. Confia Nele e Ele fará que Sua luz brilhe sobre você. Descanse Nele, e Ele o sacará desse deserto tenebroso, e o levará à terra do descanso. Que Deus os ajude a fazer isso!

Sábado passado tive uma alegria além do que posso descrever-lhes, por uma carta de um irmão que tinha sido restaurado à vida, luz e liberdade pelo sermão pregado no domingo anterior pela manhã. Não conheço uma alegria maior do que ser útil para as almas. Por essa razão, tratei de pregar essa manhã, ainda que não me sinto bem fisicamente para pregar. Oh, rogo para que possa ouvir mais notícias dos que foram salvos! Oh, que algum espírito que se extraviou no escuro pântano possa ver a vela que há em minha janela, e encontre o caminho de casa! Se você encontrou ao Senhor, o exorto a que jamais o deixe ir, una-se a Ele até que o dia venha e as sombras fujam. Que Deus o ajude a fazer isso por Jesus! Amém.


[1] Verdadeiro Deus de verdadeiro Deus: expressão usada no credo Atanásiano (n.T)

[2] Paraíso Perdido, Paraíso Restaurado: referência aos celebres poemas de John Milton, (1608- 1674) que foi um escritor inglês e autor do célebre livro O Paraíso Perdido, um dos mais importantes poemas épicos da literatura universal. Foi político, dramaturgo e estudioso de religião. Apoiou Oliver Cromwell durante o período republicano inglês, porém foi preso e acabou por ficar cego; na prisão, ditou o Paraíso Perdido, sua obra-prima, que conta a história da queda de Lúcifer, e foi publicado em 1667. Quatro anos mais tarde, lança o livro Paraíso Recuperado, uma espécie de seqüência do primeiro poema, onde trata da vinda de Cristo à Terra reconquistar o que Adão teria perdido.

[3] Provavelmente esse “milagre” citado é algum relativo à galesa Vinfedra (chamada no Pais de Gales de Gwenffrewi ; em Inglês moderno Winifred e inúmeras variações) , segundo contos e histórias, foi uma religiosa do século VII, filha de um  soldado proprietário de terra e sobrinha do religioso São Beuno, que a educou na fé: conta-se que ela, sendo várias vezes assediada por um jovem guerreiro chamado Caradog, esse, em um ataque de fúria , ao descobrir que ela seria freira, a decapitou nas escadas de uma capela ao dia 22 de junho, e que onde a cabeça dela caiu, jorrou uma fonte milagrosa, um poço considerado ainda hoje como ponto de peregrinação em Gales. Depois, seu tio Beuno amaldiçoou o guerreio, orou pela vida de Vinfreda, e ao recolocar a cabeça de sua sobrinha de volta ao pescoço, ela milagrosamente ressuscitou (morrendo 15 anos depois, depois de tornar-se monja e abadessa): é considerada padroeira do País de Gales. (Wikipédia e fontes católicas)

[4] Não achamos a quem Spurgeon se refere: porem, pela data do sermão e pelo termo da citação, 1886, poderia ser uma referência ou a Guerra Franca Prussiana, ou a Comuna de Paris (eventos próximos) ou anterior (N.Tradutor)
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FONTE: Traduzido de http://www.spurgeon.com.mx/sermon1896.html  
Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público  
Sermão nº 1896— THE THREE HOURS OF DARKNESS -  do volume 32 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,   
Tradução e revisão: Armando Marcos Pinto  

J. C. Ryle
Alguns adoram a Deus de forma pífia, outros O fazem em espírito e em verdade. Alguns dão seu coração a Deus, outros o dão ao mundo. Alguns acreditam na Bíblia e vivem conforme suas ordenanças, outros, não. Alguns pecam e condoem-se por isso, outros, não. Alguns amam o Cristo, confiam nEle e servem-nO, outros, não. Resumindo, como pregam as Escrituras, alguns andam pelo caminho estreito, outros, pelo largo; alguns são os bons peixes da rede do Evangelho, outros, os ruins; alguns são o trigo no campo de Cristo, outros, o joio.

Acredito que homem algum, estando ele com os olhos bem abertos, deixará de enxergar isso, tanto na Bíblia quanto no mundo que o rodeia.  Seja lá o que ele pense sobre o assunto que escrevo, ele não pode simplesmente negar que existe uma diferença.

Agora, qual é a explicação dessa diferença? Respondo sem hesitar: regeneração ou nascer de novo. Respondo que verdadeiros cristãos são como são porque foram regenerados, e cristãos formais são como são porque não são regenerados.  O coração do cristão foi verdadeiramente mudado.  Já o coração do cristão apenas no nome, não sofreu alterações. A mudança no coração faz toda a diferença.

Tal mudança no coração é continuamente relatada na Bíblia, sob vários emblemas e figuras.

Ezequiel identifica-a por "tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne” e "dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo." (Ezequiel 11:19; 36:26.).

O apóstolo João algumas vezes a chama por “nascido de Deus”, outras vezes por “nascido de novo" e, ainda, por "nascido pelo Espírito" (Jo 1:13, 3:3,6.).

O apóstolo Pedro, em Atos, chama de “arrependei-vos e convertei-vos.” (At 3:19.).

A epístola aos Romanos fala sobre ela como sendo “ressurretos dentre os mortos." (Rm 6: 13.).

A segunda epístola aos Coríntios chama de “nova criatura:  as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2 Co 5: 17.).

A epístola dos Efésios fala sobre ela como a ressurreição juntamente com Cristo:  “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2: 1); como “despojeis do velho homem, que se corrompe, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef. 4: 22, 24.).

A epístola dos Colossenses chama por “uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos; e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3: 9, 10.).

A epístola de Tito chama de “o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo.” (Tt 3: 5.).

A primeira epístola de Pedro fala sobre isso como “daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz.” (I Pe 2: 9.).

E a segunda epístola, como “coparticipantes da natureza divina” (II Pe 1: 4.).

A primeira epístola de João chama por “passamos da morte para a vida.” (I Jo 3: 14.).

Todas essas expressões, no final, significam a mesma coisa. Elas todas são a mesma verdade, apenas vistas de lados diferentes. E todas têm o mesmo e único significado. Elas descrevem a mudança radical do coração e da natureza humana – uma perfeita mudança e transformação do interior humano - uma participação na ressurreta vida de Cristo; ou, tomando emprestadas as palavras do Catecismo da Igreja da Inglaterra, "Uma morte para o pecado e um novo nascimento para a retidão."

Essa mudança no coração do verdadeiro cristão é perfeita e completa, tão completa que nenhuma outra palavra se encaixaria tão perfeitamente do que "regeneração” ou “novo nascimento”. Sem dúvida alguma não é nenhuma alteração corporal, externa, mas, indubitavelmente, uma alteração por completo no interior humano. Ela não adiciona nenhuma outra faculdade mental ao homem, mas certamente dá uma nova disposição e inclinação às capacidades que ele já possui. Seu querer é tão novo, seu gosto é novo, suas opiniões são novas, sua forma de ver o pecado, o mundo, a Bíblia, o Cristo é tão nova, que ele se torna um novo homem em todas as suas intenções e propósitos. Tal mudança faz surgir um novo ser. Pode muito bem ser chamado de “nascido de novo”.

Essa mudança não é sempre dada aos cristãos ao mesmo tempo em que se convertem. Alguns nascem de novo ainda crianças e parecem, assim como Jeremias e João Batista, preenchidos com o Espírito Santo já desde o ventre de suas mães. Alguns nascem de novo numa idade mais avançada. A maior parte dos Cristãos provavelmente nasce de novo depois que crescem. Já a vasta multidão de pessoas, e isso é de recear, chega à cova sem nem mesmo ter nascido de novo.

Essa mudança no coração nem sempre começa da mesma forma naqueles que passam pelo novo nascimento depois que crescem. Com alguns, como o apóstolo Paulo e o carcereiro em Filipo, foi uma mudança súbita e violenta, ocorrida com grande aflição de espírito.

Com outros, como Lídia e Tiatira, foi mais suave e gradual: seus invernos tonaram-se primavera de forma quase imperceptível por elas. Com alguns a mudança é trazida pelo Espírito trabalhando através de aflições e visitas providenciais. Com outros, e provavelmente aqui se encontra o grande número de verdadeiros cristãos, a Palavra de Deus, pregada ou escrita, é o meio pelo qual são influenciados.

Essa mudança só pode ser conhecida e discernida pelos seus frutos. Seus começos são algo escondido e secreto. Não podemos vê-los. Nosso Senhor Jesus Cristo nos diz da forma mais clara: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (João 3: 8.) Saberíamos se estivéssemos regenerados? Devemos tentar responder à questão examinando o que sabemos sobre os efeitos da regeneração. Esses efeitos são sempre os mesmos. Os caminhos pelos quais verdadeiros cristãos são levados, passando por grandes mudanças, certamente são vários. Mas o estado do coração e da alma para o qual eles são levados é sempre o mesmo. Pergunte-os o que eles acham sobre o pecado, Cristo, santidade, o mundo, a Bíblia e a oração e você os verá como uma única mente.

Essa mudança nenhum homem pode dar a si mesmo ou a outro. Isso seria tão razoável quanto esperar que os mortos se levantassem ou pedir para que um artista desse vida a uma estátua de mármore. Os filhos de Deus "não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1:13). Algumas vezes a mudança é designada por Deus, o Pai: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança." (I Pe 1:3). Algumas vezes atribuída a Deus, o Filho: “O Filho vivifica aqueles que (Ele) quer.” (Jo 5: 21.) “Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dEle.” (I Jo 2: 29.) Algumas vezes é atribuída ao Espírito Santo, e Ele é, verdadeiramente, o grande agente pelo qual ela é sempre efetuada: “O que é nascido do Espírito, é espírito.” (Jo : 6.) Mas o homem não tem poder algum para trabalhar na mudança. Algumas vezes ela está longe, muito longe de seu alcance. “A condição do homem depois da queda de Adão,” diz o décimo artigo da Igreja da Inglaterra, "é tamanha que ele não pode mudar-se a si mesmo pela sua própria força e trabalho, mas pela fé e clamando por Deus”.

Nenhum ministro na terra pode dar graça a alguém de sua congregação pelo seu próprio juízo. Ele pode pregar tão verdadeiramente e fielmente quanto Paulo e Apolo, mas de Deus “veio o crescimento" (I Co 3: 6.) Ele pode batizar com água no nome da Trindade, mas a não ser que o Santo Espírito acompanhe e abençoe a ordenação, não haverá morte para o pecado, tampouco nascimento para a retidão. Apenas Jesus, a Cabeça da Igreja, pode batizar com o Espírito Santo. Abençoados e felizes são aqueles que têm tanto o batismo interno quanto o externo.
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Fonte: Extraído do livro/ebook (A REGENERAÇÃO), por J. C. Ryle.

Reforma Radical

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