Abnegação ou renúncia com vistas a Deus - João Calvino


Tratemos agora da outra parte da abnegação ou renúncia de nós mesmos, agora com relação a Deus. Já tratamos disso aqui e ali; seria supérfluo repetir tudo o que já foi dito. Será suficiente mostrar como essa disposição nos leva à paciência e à mansidão. Consideremos: primeiramente, enquanto procuramos meios de viver ou gozar paz e comodidade, a Escritura sempre nos faz voltar a ver a necessidade de entregar a Deus todo o nosso ser e tudo quanto temos, sujeitando a ele os nossos afetos e os sentimentos do nosso coração, para que ele os domine e os dirija soberanamente. Há em nós uma intemperança furiosa e uma cobiça desenfreada que nos levam a desejar crédito e honras, a buscar posições de poder, a acumular riquezas e a juntar tudo quanto nos parece conveniente para uma vida de pompa e de magnificência. Por outro lado, tememos e detestamos pavorosamente a pobreza, a pequenez e a ignomínia; por isso fugimos delas o mais que podemos. Por essa causa se vê quanta inquietude de espírito padecem todos aqueles que procuram dirigir a sua vida conforme o seu próprio conselho, quantos meios tentam e de quantas maneiras se atormentam, para chegar a uma situação para a qual os levam a sua ambição e a sua avareza, a fim de evitarem a pobreza e uma condição inferior.

Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã