Todavia, não enxergaríamos a grande necessidade de prestar-lhe esta obediência, se não considerássemos quão grande é a intemperança da nossa carne, predisposta a arrojar de nós o jugo do Senhor, tão logo se vê tratada com brandura. Acontece com ela o que se dá com cavalos fogosos que, depois de serem deixados por algum tempo ociosos e descansados no estábulo, tornam-se indomáveis e desconhecem o seu dono, a quem antes se sujeitavam. Em resumo, o que o Senhor lamentava haver acontecido com o povo de Israel vê-se costumeiramente em todos os homens – que, engordando muito pelo trato generoso, voltam-se contra aquele que os tratou.

Certo é que convinha que a generosidade de Deus nos levasse a considerar e amar a sua bondade. Ma, visto que a nossa ingratidão é tão grande que, ao sermos beneficiados pela indulgência de Deus, somos mais corrompidos do que estimulados à prática do bem, é mais que necessário que ele nos freie com rédeas firmes e sempre nos mantenha sob algum tipo de disciplina, para que não deixemos atravessar a nossa petulância. Por essa causa, para que não fiquemos orgulhosos por uma grande abundância de bens, para que as honras não nos tornem arrogantes, e para que os ornamentos do corpo e da alma não gerem em nós alguma forma de atrevimento insolente, o Senhor intervém e impõe ordem, refreando e dominando, com o remédio da cruz, a loucura da nossa carne. E isso ocorre de diversas maneiras, conforme Deus considere benéfico e salutar em cada caso. Porque nem todos estamos tão enfermos como outros, nem padecemos o mesmo tipo de enfermidade. Portanto, não é necessário aplicar o mesmo tipo de cura a todos. Esse é o motivo pelo qual Deus faz uso de diferentes tipos de cruz, a uns e a outros. Todavia, como ele quer prover à saúde de todos, aplica remédios mais suaves a uns, e mais ásperos e rigorosos a outros, sem abrir nenhuma exceção, visto que sabe que todos estão enfermos.

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Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã
Reforma Radical

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