A cruz produz em nós perseverança e experiência


É o que o apóstolo quer dizer quando declara que “a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência”. Como o Senhor prometeu aos que nele crêem assisti-los nas tribulações, eles experimentam a realidade dessa promessa quando perseveram com paciência, sustentados por sua mão, cientes de que não o poderiam fazer por suas forças. A perseverança é, pois, uma prova de que Deus verdadeiramente presta o socorro que lhes prometeu, sempre que se faz necessário. Com isso é confirmada e fortalecida a sua esperança, considerando que seria uma grande ingratidão não confiar na veracidade futura de Deus, tendo já sido comprovada a sua firmeza e imutabilidade.



Já vemos aí, então, quantos benefícios nos provêm da cruz, como numa corrente ininterrupta. Destruindo a falsa opinião que naturalmente concebemos sobre a nossa própria virtude e capacidade, e desmascarando a nossa hipocrisia, que nos seduz e nos engana com suas lisonjas, a cruz elimina a confiança em nossa carne, confiança assaz perniciosa. Depois, havendo-nos humilhado dessa forma, ensina-nos a descansar em Deus que, sendo como é o nosso real fundamento, não nos deixa sucumbir nem desanimar. Dessa vitória segue-se a esperança. Pois visto está que o Senhor, tendo cumprido o prometido, estabelece como certa e segura a sua veracidade quanto ao futuro.

Com certeza, ainda que só houvesse essas razões, vê-se quão necessário é o exercício da cruz. Porquanto não é pequena bênção que o nosso amor a nós mesmos, amor que nos cega, seja extirpado, para que reconheçamos adequadamente a nossa debilidade; que tenhamos bom discernimento dela para aprendermos a desconfiar de nós mesmos; que, desconfiando de nós mesmos, ponhamos a nossa confiança em Deus; que nos apoiemos em Deus com segura e firme confiança, de coração, para que, mediante seu auxilio, perseveremos vitoriosos até o fim; que permaneçamos firmes em sua graça, e assim saibamos e reconheçamos que ele é verdadeiro e fiel em suas promessas; e que tenhamos como certas e manifestas as suas promessas, para que dessa forma a nossa esperança seja confirmada e fortalecida.

Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã