Reconhecendo limitações, o cristão deve aspirar a perfeição requerida por Deus

Não exijo que a vida do cristão seja um evangelho puro e perfeito, embora o devamos desejar e esforçar-nos por esse ideal. Não exijo, pois, uma perfeição cristã de tal maneira estrita e rigorosa que me leve a não reconhecer como cristão a quem não tenham alcançado. Porque, se fosse assim, todos os homens do mundo seriam excluídos da igreja, visto que não se encontra nem um só que não esteja bem longe dela, por mais que tenha progredido. E a maioria ainda não avançou nada ou quase nada. Todavia, nem por isso os devemos rejeitar. Que fazer então?



Certamente devemos ter diante dos nossos olhos como nossa meta a perfeição que Deus ordena, para a qual todas as nossas ações devem ser canalizadas e à qual devemos visar. Repito: temos que nos esforçar para chegar à meta. Sim, pois não é lícito que compartilhemos com Deus apenas aceitando uma parte do que nos é ordenado em sua Palavra e deixando o restante a cargo da nossa fantasia. Porque Deus sempre nos recomenda, em primeiro lugar, integridade [Gn 17.1]. Com essa palavra ele se refere a uma pura singeleza e sinceridade de alma, destituída e limpa de toda fantasia ou ficção e contrária à dobrez do coração. Como, porém, enquanto estamos nesta prisão terrena, nenhum de nós tem a presteza necessária, e, na verdade a maior parte de nós é tão fraca e débil que vacila e coxeia pouco podendo avançar, prossigamos avante, cada um segundo a sua pequena capacidade, e não deixemos de seguir o caminho no qual começamos. Ninguém caminhará tão pobremente que não avance ao menos um pouco por dia, ganhando terreno.


Portanto, não cessamos de buscar a meta proposta, aproveitando constantemente os benefícios da vereda do Senhor. E não nos desanimemos, ainda que o nosso proveito seja diminuto. Mesmo que o nosso progresso não corresponda ao que imaginávamos, o esforço não foi totalmente perdido quando se vê que o dia de hoje supera o de ontem. Somente fixemos os nossos olhos na meta com pura e sincera simplicidade, e façamos todos os esforços possíveis para alcançá-la, sem acariciar o nosso ego com vã adulação nem desculpar os nossos erros morais. Esforcemos-nos sem cessar, empenhado em que cada dia sejamos melhores do que somos, até alcançarmos a bondade suprema, que devemos buscar durante toda a nossa vida. Perfeição que obteremos quando, despojados da fraqueza da nossa carne, seremos feitos plenamente partícipes dela, isto é, quando Deus nos acolher para vivermos para sempre em sua companhia.


Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã
Reforma Radical

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