O Conhecimento de Deus - Stephen Charnock

O Conhecimento de Deus - 
Stephen Charnock - (1628–1680)
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Nada é mais gratificante para uma alma agraciada como a oportunidade de louvar as perfeições e a bondade de Deus. Ele tanto merece quanto exige a nossa adoração. Isso é um privilégio e um dever nosso. Salmo 147: 5 diz: Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; o seu entendimento é infinito.

Note que este verso une o poder ao conhecimento de Deus. Todas estas perfeições são infinitas. No capítulo anterior nós tratamos do tema da Sua presença, que está intimamente ligado com o Seu conhecimento, o qual iremos considerar a seguir.

Este atributo não necessita ser provado. Todo homem instintivamente sabe alguma coisa sobre isso. Até os pagãos demonstram ter consciência quanto ao conhecimento de Deus ao oferecerem suas suplicas e sacrifícios vãos a deuses que eles assumem estarem atentos a isso.

I. O tipo de conhecimento existente em Deus.

Esta qualidade é conhecida por vários nomes, tais como a lembrança, a visão, a presciência (ou pré-conhecimento neste caso), onisciência, conhecimento, sabedoria, e prudência. A despeito do nome que damos a isso, devemos lembrar que não podemos medir o entendimento de Deus por nós mesmos. Do mesmo modo os céus são mais altos do que a terra, assim também os pensamentos de Deus são mais altos do que os nossos pensamentos (Isaías 55: 9).

Há várias maneiras de dividir este conhecimento. Por exemplo: podemos fazer distinção entre conhecimento de visão e conhecimento de inteligência. No primeiro, Deus conhece tudo aquilo que foi, que é, e que será, pois Ele ordenou tudo isso. Já no último, Deus conhece todas as possibilidades, mesmo que Ele não tenha decretado fazê-las. Afinal de contas, Ele poderia ter feito mais mundos e mais pessoas se assim o desejasse. Ou nós podemos dividir o conhecimento em especulativo, o qual é conhecido sem qualquer trabalho ou operação, e o prático, que envolve trabalho a fim de se demonstrar o conhecimento. Novamente, há o conhecimento de aprovação e o de apreensão. Esta distinção é claramente feita nas Escrituras. O amor e aprovação de Deus são expostos em termos de conhecimento. Ele disse a Israel, De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido (Amós 3: 2). No dia do julgamento Ele fará a seguinte declaração aos perdidos: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade (Mateus 7: 23). Embora Deus conheça os perdidos, de modo a compreendê-los, Ele não os conhece no que diz respeito a amá-los com a graça salvadora.

II. O QUE DEUS CONHECE.

Ele conhece a si mesmo. Somente Ele tem este conhecimento. Nenhum ser criado compreende completamente a si mesmo. Mas o Criador, que é infinito em perfeição, possui um conhecimento infinito, através do qual tem um perfeito e compreensivo autoconhecimento. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus (I Coríntios 2: 11). Até mesmo os anjos, que o cercam e servem, não possuem um conhecimento completo dEle. Se o autoconhecimento de Deus fosse imperfeito, então Ele seria ignorante a respeito dos assuntos mais excelentes. Ele não seria capaz de governar, pois desconheceria o Seu próprio poder. Nem poderia castigar, pois desconheceria aquilo que constituiu um ataque contra a Sua pessoa. Na verdade, Ele não poderia conhecer outras coisas se não conhecesse a Si mesmo.

Ele conhece todas as coisas que devem ser conhecidas. Seu conhecimento não tem fronteiras. Se houvesse alguma coisa que Ele não soubesse, então Ele não seria Deus.

Primeiro, Ele conhece tudo aquilo que nunca será. Isto é, Ele conhece aquilo que só existe na esfera da possibilidade. Por exemplo: Ele sabia que os habitantes de Queila iriam entregar Davi nas mãos de Saul, se ele permanecesse na cidade (I Samuel 23: 11). Cristo sabia quais eram os meios pelos quais as cidades de Tiro e Sidom seriam trazidas ao arrependimento, se os seus habitantes tivessem tido acesso a esses meios (Mateus 11: 21). Em certa medida, até os homens possuem algum conhecimento na esfera da possibilidade. Nós pesamos várias alternativas e resultados quando precisamos tomar certas decisões, quanto mais o Deus onisciente, que conhece todas as possibilidades! Ele não esgotou Seus conhecimentos na criação. Todas as coisas lhe são possíveis. A partir deste infinito reino de possibilidades, Ele determinou, por ato de Sua vontade, tudo o que iria ocorrer. Quão absurdo seria imaginar que Ele reuniu informações de suas criaturas enquanto desenhava o Seu plano. Conhecimento perfeito está à Sua disposição. Sendo assim, há possibilidades ilimitadas conhecidas em Seu poder, embora ainda não conhecidas em Sua vontade. Esta é uma profunda e humilde consideração, e deve ser motivo de admiração do Deus onisciente.

Segundo, Deus também conhece tudo o que é passado para nós. Ele se deleita em Seu perfeito conhecimento das coisas passadas, em oposição à ignorância dos falsos deuses: Apresentai a vossa demanda, diz o SENHOR; trazei as vossas firmes razões, diz o Rei de Jacó.

Tragam e anunciem-nos as coisas que hão de acontecer; anunciai-nos as coisas passadas, para que atentemos para elas, e saibamos o fim delas; ou fazei-nos ouvir as coisas futuras.

Anunciai-nos as coisas que ainda hão de vir, para que saibamos que sois deuses; ou fazei bem, ou fazei mal, para que nos assombremos, e juntamente o vejamos.

Eis que sois menos do que nada e a vossa obra é menos do que nada; abominação é quem vos escolhe (Isaías 41: 22). A capacidade que temos de nos lembrar de certas coisas, é apenas um pequeno reflexo do conhecimento perfeito de Deus. Para Ele, é como se o passado fosse ainda o presente. Quando lemos nas Escrituras a respeito de Deus lembrando-se dos nossos pecados, entendemos isso como um esquecimento de ordem judicial, ou seja, eles não serão mais tratados no tribunal de Deus. Por outro lado, quando lemos a respeito de Deus lembrando-se da Sua Palavra ou Aliança, isso nos indica o cumprimento de Sua promessa.

Terceiro, Deus conhece todas as coisas do presente. Se não fosse assim, os homens, e até mesmo as bestas, poderiam se vangloriar de possuir um conhecimento maior do que Deus. E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar (Hebreus 4: 13). Ele conhece todas as estrelas e todos os pardais, cada nuvem e cada floco de neve. Se a existência de apenas uma mosca lhe fosse desconhecida, então Ele não seria Deus. Ele conhece todas as ações de cada criatura. As palavras que o rei da Síria proferiu em sua cama, Deus as fez conhecidas a Eliseu (II Reis 6: 12). Deus conhece todos os pensamentos das criaturas racionais, quer sejam bons ou ruins. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento (Salmo 139: 2). Se não fosse assim, o décimo mandamento, Não cobiçarás, seria impossível de se fazer cumprir, assim como o primeiro e grande mandamento e, portanto, Deus poderia ser enganado. Mas, no dia do juízo, Deus manifestará os desígnios dos corações (I Coríntios 4: 5). De fato, somente Deus é capaz de conhecer os corações. Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?

Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações (Jeremias 17: 9-10).

Deus não adquire novos conhecimentos dos corações dos homens por observar suas ações, pois isso faria com que Ele ficasse dependente de Suas criaturas. Deus não aprendeu nada de novo quando disse a Abraão no Monte Sinai: Porquanto agora sei que temes a Deus. Antes, o temor de Abrão foi publicamente manifesto. Deus havia dito anteriormente: Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR (Gênesis 22: 12; 18: 19). Finalmente, Deus conhece todos os pecados de Suas criaturas. Se Ele não conhecesse o mal, como poderia permiti-lo, ordená-lo, puni-lo, ou perdoá-lo? Ao conhecer a si mesmo, Ele conhece tudo o que lhe é contrário, ainda que não possa ser afetado por isso.

Quarto, Deus conhece todas as coisas futuras. Se Ele não possuísse este conhecimento, não haveria providência alguma. Se as futuras inclinações de Potifar e Faraó não lhe fossem conhecidas de Deus, então o envio de José para o Egito poderia ter sido um terrível engano da Sua parte. Além disso, em nossa perspectiva, houve um ponto em que tudo no tempo nos era futuro em relação a Deus. Ousaríamos então dizer que Ele não conhece as coisas futuras? Ele nos deu abundantes provas do Seu conhecimento do futuro através das profecias das Escrituras, no cumprimento de cada uma delas. Em Isaías 41: 23 Deus faz o seguinte desafio aos homens: Anunciai-nos as coisas que ainda hão de vir, para que saibamos que sois deuses; ou fazei bem, ou fazei mal, para que nos assombremos, e juntamente o vejamos.

É claro que os homens possuem um pequeno conhecimento a respeito de futuros eventos. Por exemplo: através de um cuidadoso estudo ele pode prever um eclipse solar. Isso é apenas um pequeno reflexo do conhecimento perfeito que há em Deus. As únicas coisas que estão no futuro são aquelas que Ele já decretou que estejam no futuro, e ele conhece os seus próprios decretos. Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras (Atos 15: 18). O conhecimento de Deus não surge por causa da existência das coisas, mas porque Ele deseja que elas existam. De outro modo, as criaturas teriam uma causa à parte dEle, e Ele ficaria em débito com elas quanto ao Seu conhecimento. Ele conhece tudo o que há de ser, porque nada pode vir a existir sem o exercício de Sua vontade. O conhecimento de Deus é imutável, não sujeito a mudanças por causa de novas informações, pessoas, ou circunstâncias acrescentadas com o passar do tempo. O conhecimento de Deus das coisas possíveis corre paralelamente com o Seu poder, e o Seu conhecimento das coisas futuras, corre paralelamente com a Sua vontade. Muitas vezes os eventos futuros são relatados nas Escrituras em termos de passado ou presente: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu (Isaías 9: 6). Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si (Isaías 53: 4). Somente Deus pode falar com exatidão do futuro como se fosse presente, ou já passado. Satanás fingia saber do futuro quando disse a respeito de Jó: Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face (Jó 1: 11). Tudo o que temos por certo acerca do futuro, é somente aquilo que Deus no revelou quanto a isso. Embora não entendamos como Deus conhece todas as coisas futuras, devemos, contudo, crer que assim se fará. Nosso conhecimento não é medido pelo conhecimento temos de Deus. Como seria tolo da nossa parte admitir somente aquilo que podemos compreender perfeitamente sobre Ele!

Quinto, Deus conhece todas as contingências futuras, muitas vezes chamadas de acidentes ou mudanças. A flecha que atingiu Acabe parecia uma mera obra do acaso e do livre arbítrio de um soldado. Entretanto, isso não foi surpresa alguma para Deus. Os homens arrogantes gostam de pensar que Deus é tão ignorante acerca das contingências quanto eles mesmos, eles preferem crer em um Deus que pode ser enganado pela repentina e inesperada mudança da vontade humana, ou seja, um Deus que depende do homem para obter informações. Um Deus assim não poderia governar o mundo. Ele seria um Deus desorientado, que aguarda para ver qual será a vontade do homem para que Ele possa então agir. Mas a verdade é: Deus conhece antecipadamente todos os atos livres e voluntários dos homens. Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho do SENHOR permanecerá (Provérbios 19: 21). Nada é mais voluntário do que pais dando nomes aos seus filhos, contudo, Deus profetizou a vinda de Ciro centenas de anos antes do seu nascimento. Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado. (Isaías 44: 28). Portanto, seu nome não poderia ser outro além de Ciro! Poderíamos citar muitos outros exemplos similares nas Escrituras. Talvez o maior deles seja o da crucificação de Cristo. Os líderes dos Judeus foram impetuosos em sua realização. Era a vontade deles. Porém, as suas ações foram todas determinadas de antemão e pregadas por Pedro. A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos (Atos 2: 23). Este foi o propósito eterno de Deus (Efésios 3: 11). Era necessária a queda de Adão e a ocasião apropriada para a redenção. Deus sabia exatamente como satanás tentaria, e também qual seria a fraqueza de Adão. Deus retirou as restrições que capacitariam Adão a resistir à tentação. Em todas as ações da humanidade, Deus sabe qual a medida da graça que irá demonstrar, ou mesmo reter, e quais as ações de bem ou de mal que eventualmente irão se desencadear. Além disso, Ele não depende da vontade do homem para saber quais serão as suas ações voluntárias. Isso é um assunto profundo, mais isso tudo precisa ser dito.

Agora, vamos considerar resumidamente seis princípios a respeito do conhecimento de Deus e a vontade do homem.

1. O fato de alguma coisa necessariamente tenha que ocorrer, não tira a liberdade do executor. Podemos agir livremente, mesmo que Deus determine nossas ações de antemão.

2. A vontade não pode ser compelida, pois então deixaria de ser vontade. Quando fazemos o que desejamos, não podemos honestamente dizer que fomos forçados a isso. Adão não ousou acusar a Deus por forçá-lo a pecar. Judas, que ouviu Cristo profetizar sobre a sua traição, não ousou acusar a Cristo pelo seu pecado, pois agiu livremente, ficando cheio de um insuportável sentimento de culpa.

3. Considerada em si mesma, a presciência de Deus não é a causa de nada. Até o homem, com seu pré-conhecimento limitado das coisas, não pode determinar o futuro delas. Eu posso até saber que se um bêbado entrar em um bar, ele ficará embriagado, mas o meu conhecimento deste fato não é o causador disso. O pré-conhecimento de Deus não tira a liberdade da vontade do homem.

4. Deus conhece de antemão todas as coisas porque elas irão ocorrer, mas elas não irão ocorrer porque Ele as conhece de antemão. Algumas coisas Deus determinou fazer por si mesmo, enquanto outras, Ele permitiu que Suas criaturas fizessem, retirando assim o seu poder restritor sobre elas. (Isso elimina Deus de qualquer cumplicidade ou autoria com relação ao pecado).

5. Deus não somente previu as ações dos homens, mas também a vontade dos homens. O conhecimento de Deus do homem não faz com que o homem seja menos homem. Embora Deus conheça os agentes livres, eles permanecem na posição de liberdade, não de compulsão. Em outras palavras, o conhecimento de Deus estabelece a liberdade do homem ao invés de destruí-la.

6. A fim de defender a liberdade da vontade do homem, não devemos negar a perfeição do conhecimento de Deus. Devemos esperar até aquele último dia para que possamos conciliar melhor estas duas verdades. Na verdade, Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos (Romanos 11: 33)! Devemos evitar o fatalismo por um lado, e o ateísmo do outro.

III. COMO DEUS CONHECE TODAS AS COISAS.

Mais uma vez, nos deparamos com nossas limitações, pois só Deus sabe como Ele sabe tudo o que sabe. Mas vamos fazer uma tentativa.

1. Deus conhece todas as coisas por Sua própria essência. Ele não precisa olhar para as coisas, mas antes para Si mesmo, pois Ele é a primeira causa de todas as coisas. Ele não depende das coisas para o Seu conhecimento. Ele conhece tudo em Si mesmo.

2. Deus conhece todas as coisas por um ato de intuição. Ele não deduz uma coisa através de outra, como nós fazemos, e então tira as suas conclusões. Ele conhece tudo imediatamente. Não há uma sucessão de pensamentos nEle, e nem um acumulo de conhecimento. O tempo é um só para Ele. Ele possui um ponto de vista perfeito para observar todas as coisas.

3. Deus conhece todas as coisas independentemente. Ele não precisa de um instrutor para ensiná-Lo. Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro (Romanos 11: 34)? Assim como nada do que Ele queira seja a causa da Sua vontade, assim também nada do que Ele conhece é a causa do Seu conhecimento. Aquilo que causa o conhecimento deve existir antes do conhecimento. E já que o conhecimento de Deus é eterno, não há nada que tenha existido antes do que Ele para lhe conceder o seu conhecimento.

4. Deus conhece todas as coisas distintamente. E não há nele trevas nenhumas (I João 1: 5). Ele enxerga o âmago de tudo. Ele conhece o número de cabelos da nossa cabeça. Ele nunca fica confuso. Ele nunca se distrai.

5. Deus conhece todas as coisas infalivelmente. Não há erros em Seu conhecimento. Ele nunca se engana. O Seu conhecimento não se trata de uma mera opinião, a qual é incerta, mas a mais sublime verdade.

6. O conhecimento de Deus é imutável. Ele não pode mudar Sua essência, e o conhecimento é uma das facetas da Sua essência. Portanto, Seu conhecimento não pode mudar. Ele não aprende nada de novo, também não se esquece de nada. Seu conhecimento é eternamente constante e não admite variação.

7. Deus conhece todas as coisas perpetuamente, isto é, em um único ato. Ele não conhece mais em algumas ocasiões do que em outras. Não há nenhum lapso de conhecimento com Ele.

IV. PROVAS DE QUE DEUS CONHECE TODAS AS COISAS.

1. Ele tem que conhecer tudo o que conhecemos e muito mais. Ele não pode ser superado por nenhuma criatura ou por todas elas juntas. Sua perfeição requer todo conhecimento. É em termos de perfeito conhecimento que Ele é chamado de Único Deus Sábio (Romanos 16: 27). Ninguém pode desfrutar daquilo que não entende, pois a felicidade é inconsistente com a ignorância. Assim como Deus tem o gozo mais sublime e elevado, Ele também conhece todas as coisas. Qualquer grau de ignorância faria dEle um ser finito.

2. Todo o nosso conhecimento vem dEle. Nenhum conhecimento do homem é inato, pois é derivado do Criador. O Salmo 94: 10 pergunta: o que ensina ao homem o conhecimento, não saberá? Todo o nosso conhecimento reunido não pode se igualar ao dEle, que é infinito.

3. As acusações provenientes da consciência provam que Deus conhece todas nossas ações. Mesmo quando ninguém na terra conhece os nossos pecados, a nossa consciência nos condena. Por que temeríamos alguma coisa a não ser que soubéssemos que há um Deus registrando todas elas? Sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas (I João 3: 20).

4. Deus é a primeira causa de todas as coisas. Sendo um agente voluntário, Ele é necessariamente um agente inteligente. A faculdade da vontade não pode existir sem faculdade do entendimento. O Seu conhecimento tem que caminhar lado a lado com Suas operações. É inconcebível que Ele não conheça totalmente tudo aquilo que criou.

5. Se Deus não tivesse conhecimento de tudo o que criou, então Ele não poderia governar mais do que criar o mundo. Conhecimento é a base da providência. A providência depende do conhecimento de Deus, e o exercício da providência depende da bondade de Deus. Sem um conhecimento perfeito, a Sua justiça poderia falhar. Aquele que com conhecimento perfeito aprova o caminho dos justos, também com o mesmo conhecimento desaprova o caminho do injusto (Salmo 1: 6).

Agora vamos observar como aplicamos esta verdade.

I. INFORMAÇÃO.

O Senhor Jesus Cristo não é uma mera criatura. Dois dos seus nomes, Maravilhoso Conselheiro e Deus Forte (Isaías 9: 6), indicam a Sua perfeita divindade. Ele possui um supremo conhecimento do Pai, peculiar e essencial à Sua natureza, acima do que qualquer criatura é capaz. E ninguém conhece o Pai, senão o Filho (Mateus 11: 27). Além disso, o Espírito Santo conhece todas as coisas, porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus (I Coríntios 2: 10). E o Espírito Santo recebe o seu conhecimento de Cristo, Jesus disse: Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso vos disse que [o Espírito Santo] há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar (João 16: 15). Portanto, o conhecimento de Cristo tem que ser completo. Ele conhece completamente todas as criaturas. Colossenses 2: 3 declara: Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência. Ele conhece perfeitamente o coração do homem. Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia; E não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem (João 2: 24-25). Ele conhece de antemão todas as inclinações e ações dos homens. Mas há alguns de vós que não creem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar (João 6: 64). Ele sabia que Judas o trairia e que Pedro o negaria.

As providências de Deus estão sobre todas as coisas porque Ele conhece todas elas. Não há um coração que Ele não conheça, portanto, não há um coração que Ele não governe. Nada no universo é tão pequeno que escape de Sua providência, e nada é tão sublime que esteja acima do Seu entendimento.

O julgamento de Deus é certo e justo por causa do Seu conhecimento. A fim de retribuir a cada homem as suas obras, Ele precisa conhecer todas as obras. Ele diz: e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda os rins e os corações (Apocalipse 2: 23). Ele coloca todos os nossos pecados secretos à luz do Seu rosto (Salmo 90: 8). A onisciência é a uma qualidade que enxergamos muito pouco agora, mas no grande dia do julgamento, ela se manifestará completamente.

Este atributo é o alicerce da ressurreição final. Se nossos corpos serão comidos pelos vermes ou mesmo por canibais, não importa, pois Deus sabe onde se encontra cada parte, e irá ressuscitá-lo no último dia. Ele conhece cada partícula da matéria e cada lugar onde se encontram.

Este atributo desaprova qualquer idéia tola da justificação pelas obras. Se nós mesmos examinarmos bem de perto as nossas obras, encontraremos uma falha de cada uma delas, quanto mais Deus! Bem que poderíamos orar como Davi: E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente (Salmo 143: 2). Somente um tolo ousaria se colocar diante de Deus para defender suas próprias virtudes.

Este atributo nos dá muitos motivos para adorarmos a Deus. Não podemos deixar de admirar alguém que saiba mais do que nós, ou que tenha conhecimento acerca do futuro. Como Deus é grande neste sentido! Nós deveríamos honrá-Lo grandemente. Se Deus não conhecesse totalmente as nossas necessidades, então a Sua bondade não poderia nos dar alívio.

Nós deveríamos nos humilhar diante de Deus. O homem é mais apto a ficar orgulhoso do seu conhecimento do que qualquer outra coisa, embora o nosso conhecimento seja insignificante quando comparado ao conhecimento de Deus. O conhecimento de Deus deveria nos levar a honrá-Lo diante dos nossos olhos, enquanto nos consideramos indignos. Se reconhecêssemos que possuímos mais ignorância do que conhecimento, então seríamos mais humildes e menos orgulhosos.

Este atributo é muito negado neste mundo. Adão pensou que poderia escapar do conhecimento de Deus ao esconder-se. Caim fingiu que desconhecia o paradeiro de Abel. Todos os homens gostariam que Deus não fosse onisciente. Sabemos que Deus é onisciente, mas vivemos como se Ele fosse cego. Deus diz: E não dizem no seu coração que eu me lembro de toda a sua maldade; agora, pois, os cercam as suas obras; diante da minha face estão (Oséias 7: 2). Vamos considerar algumas maneiras como este atributo é atacado.

- Quando as pessoas oram para alguém mais, além do Deus verdadeiro, como os Romanistas oram para os santos, eles atacam a onisciência do Deus único. A oração pressupõe total conhecimento da parte daquele a quem ela é dirigida ou oferecida.

- Quando as pessoas tentam bisbilhotar aquilo que Deus não revelou, eles acabam revelando suas ambições ímpias de serem iguais a Deus em conhecimento. Ao mesmo tempo, eles negligenciam o que tem sido revelado ou o que poderia ser aprendido com o mínimo esforço. Jurar falsamente ou jurar por qualquer outra criatura é uma demonstração de desprezo a Deus.

- Quando julgamos os corações dos homens, tomamos para nós mesmos a prerrogativa que pertence somente a Deus, e agimos como se conhecêssemos tudo. Portanto, nada julgueis antes de tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o louvor (I Coríntios 4: 5). Devemos julgar as ações, mas precisamos deixar a avaliação final nas mãos de Deus.

- Alguns atacam este atributo ao abusar dele. Eles dizem: “Por que preciso orar para Deus se Ele já conhece todas as coisas?” Eles pensam que a oração tem como propósito a administração do conhecimento de Deus. Entretanto, a oração é a expressão dos nossos desejos, de modo que podemos honrar corretamente a Deus quando Ele responde nossas petições e nos concede aquilo que necessitamos.

- Toda a vez que um pecado é cometido, a onisciência de Deus é desprezada. Ou, podemos nos abster de pecar em virtude da presença de um parente ou talvez uma criança. Sendo assim, mostramos mais honra ao conhecimento de uma criança do que de Deus. Os pecados cometidos secretamente são duplamente malignos, pois vão contra a lei de Deus e também contra a Sua onisciência.

- Fazer uma confissão parcial do pecado é uma traição e um desprezo ao conhecimento de Deus, como se Ele não soubesse nada além daquilo que lhe informamos. Se você deseja glorificar este atributo, que um dia revelará a sua consciência, então ofereça a Deus uma sincera e completa confissão.

- Uma externa e formal adoração insulta a onisciência de Deus. Quando há uma contradição entre nossos lábios e nosso coração, lisonjeamos a Deus como se Ele fosse um bebê que precisa se pacificado com barulhos e chocalhos. Mas somos nós, e não Ele, que estamos sendo enganados.

- Quando acalentamos pensamentos maus, revelamos uma falta de interesse ou respeito ao conhecimento de Deus.

- Quando negligenciamos a oração, agimos como se Deus não percebesse nosso pecado de omissão.

- Quando damos desculpas hipócritas a Deus a fim de ficarmos isentos da obediência, como Moisés fez na sarça ardente, e assim mostramos que temos uma visão muito curta a respeito da onisciência Divina.

II. CONFORTO.

Deus está plenamente consciente quanto aos inimigos que o Seu povo enfrenta. Podemos dizer, diante de ti estão todos os meus adversários (Salmo 69: 19). Deus viu os capatazes que afligiam o Seu povo no Egito (Êxodo 3: 7). Para o rei Assírio Senaqueribe Deus disse: Porém eu conheço o teu assentar, e o teu sair, e o teu entrar, e o teu furor contra mim (Isaías 37: 28). Ele conhece melhor os nossos inimigos do que nós.

Deus é digno da nossa confiança, pois Ele conhece todas as coisas. Sua compaixão e poder seriam inoperantes sem o conhecimento das nossas necessidades. Podemos depender totalmente dEle por causa da plenitude do Seu conhecimento.

Deus conhece cada um dos Seus filhos tanto pessoalmente quanto intimamente. Não estamos esquecidos e nem perdidos na multidão. Se Ele chama as estrela pelo nome (Salmo 147: 4), muito mais aos seus eleitos. Cristo disse: Eu conheço as minhas ovelhas (João 10: 27). O Senhor conhece os que são Seus (II Timóteo 2: 19). Deus também conhece os lobos vestidos em peles de ovelha que se misturam com o rebanho.

O conhecimento é um conforto para um coração sincero. Que conforto conhecer o que Deus conhece! Feliz é o homem que, como Jó, pode apelar para Aquele que tudo conhece com uma consciência pura. Eis que também agora a minha testemunha está no céu, e nas alturas o meu testemunho está (Jó 16: 19). Ezequias pôde orar assim: Ah, SENHOR! Suplico-te lembrar de que andei diante de ti em verdade, com o coração perfeito, e fiz o que era bom aos teus olhos. E chorou Ezequias muitíssimo (II Reis 20: 3).

Deveríamos ser confortados pelo fato de Deus conhecer nossas orações secretas, anelos, e obras, que outros não conhecem. Ele conhece nosso desejo no íntimo. Senhor, diante de ti está todo o meu desejo, e o meu gemido não te é oculto (Salmo 38: 9). Ele é capaz de ouvir, ao mesmo tempo, todos os clamores de Seus filhos aqui na terra.

Deus conhece todas as nossas aflições. Para a igreja em Esmirna Ele disse: Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás (Apocalipse 2: 9). Ele sabe qual é a melhor ocasião para nos submeter às aflições para o nosso bem, e quando removê-las. Ele viu a Jonas no ventre do peixe e Daniel na cova dos leões. Quando sob as injustiças dos homens, os santos podem se entregar totalmente a Ele com toda esta segurança.

Deus conhece todas as nossas enfermidades. Ele conhece a fraqueza da nossa natureza, e tem compaixão de nós. Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó (Salmo 103: 14). Ele se lembra da nossa natureza mutável quando da criação original. Ele conhece as nossas fraquezas e o nosso estado de pecado. Ele conhece nossa dependência dEle mesmo sendo regenerados.

Ele conhece os nossos pecados, e os revela para nós para que possamos nos arrepender deles. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos (Salmo 139: 23). Podemos não somente apelar a este atributo quando somos questionados a respeito da nossa integridade, mas também quando nós mesmos questionamos a nossa própria integridade. É um conforto para um jovem artista ter a habilidade de criticar o seu próprio trabalho. O conhecimento de Deus nos ajuda a examinarmos a nós mesmos para o nosso próprio bem.

Deus conhece todos os nossos pecados, mesmo aqueles que não vemos. O Seu perdão em Cristo está de acordo com o Seu conhecimento, e não o nosso. Mas, se Ele fosse igual a nós, e conhecesse apenas uma parte dos nossos pecados, nunca poderíamos gozar de pleno perdão. Além disso, somente Deus conhece a plenitude dos méritos de Cristo. Sendo assim, Sua onisciência não incita a Sua justiça contra nós. Ao invés disso, incita a Sua misericórdia. Aqui há um tremendo conforto!

III. AOS PECADORES.

O conhecimento de Deus fala de coisas terríveis para os perdidos. Ele conhece cada obra, sussurro, e pensamento. Porventura seria melhor que nossos pecados fossem conhecidos pelos anjos no céu, pelos homens aqui na terra, e pelos demônios no inferno, ao invés de Deus, o Juiz de toda a terra? Não há lugar algum que possamos nos esconder dEle. Acã pode esconder o ouro de Josué, mas não de Deus. Diante de ti puseste as nossas iniquidades, os nossos pecados ocultos, à luz do teu rosto (Salmo 90: 8). Deus é invisível para nós, mas não devemos imaginar que somos invisíveis para Ele. A mulher junto ao poço de Samaria testemunhou isso. O conhecimento de Deus destrói o refúgio dos hipócritas. Porque o SENHOR não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração (I Samuel 16: 7). Ele pôde ver a intenção de assassinato de Herodes, encoberta sob a pretensão de adoração (Mateus 2: 7-8), a traição de Judas através de um beijo (Lucas 22: 48), e a fraude dos Fariseus sob um largo filactério (Mateus 23: 5). A hipocrisia é um exercício vão e tolo. Além disso, Deus não esquece nenhum pecado, a despeito de quanto tempo este tenha sido cometido. Seu registro permanece no céu, exceto se apagado pelo sangue de Cristo. Deus também não é um mero expectador, mas um diligente observador. Eis que os caminhos do homem estão perante os olhos do SENHOR, e ele pesa todas as suas veredas (Provérbios 5: 21). Ele contou o tempo em que Israel murmurou contra Ele (Números 14: 22). Ele leva em conta o tempo em que o homem rejeita e peca contra a Sua misericórdia. Todas as culpas estão espalhadas diante dEle. Ele fará uso do seu conhecimento contra o ímpio. Tu o viste, porque atentas para o trabalho e enfado, para o retribuir com tuas mãos; a ti o pobre se encomenda; tu és o auxílio do órfão (Salmo 10: 14). Quem pode considerar seriamente todos os pecados de um dia, um ano, ou de uma vida toda, sem um exprimível horror?

IV. EXORTAÇÃO

Devemos ter um profundo senso em nossos corações do fato de Deus estar vendo todas as coisas. Todo pecado começa com uma falha nisso. Deus disse a Ezequiel: Viste, filho do homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, cada um nas suas câmaras pintadas de imagens? Pois dizem: O SENHOR não nos vê; o SENHOR abandonou a terra (8: 12). Quando dizemos a nós mesmos, O SENHOR não nos vê, nós abrimos as comportas do pecado. Quando a sociedade como um todo pensa desta maneira, tal sociedade não pode durar muito tempo.

Vamos lembrar que este atributo nos trás muitos benefícios, ou seja:

- Ele nos previne de cometer muitos pecados, ao nos considerarmos mortos para a tentação. Como podemos nos entregar à tentação, quando sabemos que isso ficará registrado no conhecimento de Deus? Quem ousaria falar em traição na presença do rei?

- Ele faz que vigiemos nossos pensamentos. Nem mesmo um, dos milhares de pensamentos que temos, escapa ao conhecimento de Deus.

- Ele transforma o nosso serviço e adoração. Não podemos enganar a Deus quando somos desleixados com o nosso dever. Deveríamos preparar os nossos corações para orar e ouvir, levando em conta primeiramente, o fato da Sua presença.

- Ele nos conserva mais sinceros e cuidadosos em nossa conduta. Davi admoestou Salomão: E tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai, e serve-o com um coração perfeito e com uma alma voluntária; porque esquadrinha o SENHOR todos os corações, e entende todas as imaginações dos pensamentos; se o buscares, será achado de ti; porém, se o deixares, rejeitar-te-á para sempre (I Crônicas 28: 9). Vamos andar cuidadosamente diante de Deus, para podermos falar como o salmista: Tenho observado os teus preceitos, e os teus testemunhos, porque todos os meus caminhos estão diante de ti (Salmo 119: 168).

- Ele nos torna mais humilde. Considere todas as suas provocações, injúrias, blasfêmias, dúvidas, cobiças, omissões, e vermes, presentes em seus melhores frutos. E, então, considere a paciência e a bondade de Deus a despeito de tamanha impureza. Desfaça-se em humildade perante Ele. Se sabemos o suficiente para nos considerarmos vis aos nossos próprios olhos, quanto mais Deus, que nos conhece muito mais profundamente!

- Ele nos faz confiar em Deus em todas as circunstâncias. Deus sabe o que é melhor para nós. Portanto, vamos nos submeter aos Seus cuidados confiante e alegremente.


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Autor: Stephen Charnock 
Compilado para o seculo 21: Daniel A. Chamberlin
Tradução: Eduardo Cadete 2011 
Fonte: Palavra Prudente