O Estudo da Bíblia - Arthur W. Pink

O Estudo da Bíblia - Arthur W. Pink
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A partir das cartas que recebemos, concluímos que nestes dias difíceis, não são poucos os que lamentam o fato de que já não têm mais o mesmo tempo livre para uma leitura diligente, tempo este que antes eles tinham. As condições de trabalho têm exigido tanto, a competição é tão acirrada e impiedosa, e o ritmo se tornou tão acelerado que a maioria está demasiadamente exausta no final do dia para dedicar-se a qualquer coisa que envolva muito esforço. Nós compreendemos estes exaustos trabalhadores e ofereceremos a eles as seguintes orientações.

Primeiro, Deus não é um capataz egípcio, lançando sobre nós um fardo insuportável.

Segundo, não há nada mais relaxante e que traga mais alívio a uma mente sobrecarregada, do que gastar meia hora a sós com Deus, que sejam cinco minutos na leitura de um salmo ou uma porção dos evangelhos, 15 a 20 minutos diante do Trono da Graça – agradecendo a Deus por suas misericórdias do dia, expondo à Ele nossos problemas, buscando pelo refrigério da graça – e então a leitura de um capítulo das epístolas.

Terceiro, vá descansar meia-hora mais cedo que de costume, e levante-se mais cedo pela manhã, então gaste esse tempo com Deus, preparando-se para as exigências do dia.

Quarto, esteja mais determinado a observar estas sugestões aos domingos, a fim de que você gaste algumas horas lendo a Palavra de Deus e livros edificantes. Pois, não honra ao Senhor correr de uma reunião para outra, deixando para si mesmo pouco tempo para a devoção particular.

No entanto, há ainda uma outra classe de pessoas mais jovens ou aqueles que não são tão pressionados pelas exigências da vida moderna, que nos escrevem e perguntam o que consideramos ser “a melhor maneira de estudar a Bíblia”. Ultimamente nos parece que o termo “estudo”, neste âmbito, soa presunçoso e cheira à carnalidade. Não seria quase que irreverente empregar este tipo de linguagem aqui, desvalorizando a santa e única Palavra de Deus, trazendo-a ao nível de meras produções humanas? É um entendimento claro ou uma consciência sensível, que é a mais essencial para beneficiar-se da revelação Divina? É mais provável que qual destas, seja na prática, chamada de “estudo” adequado? “Qual método você recomenda para o estudo da Bíblia?” Não parece que tal pergunta indica que aquele que faz estas perguntas, supõe que as Sagradas Escrituras são endereçadas sobretudo ao intelecto? Aquele que questiona pode não estar ciente disto – pois o coração é muito enganoso – porém, não é isto que está realmente implícito? Você pode imaginar alguém que tenha recebido uma carta de seu amor, propondo que se sentem e a “estudem“? Esta expressão não seria totalmente absurda em tal relação?

Mas não foi o próprio Deus quem nos exortou que “estudássemos” Sua Palavra? Onde? Em qual passagem? O termo atual para “estudar”, ocorre somente cinco vezes na Bíblia. Duas vezes em Provérbios (v. 15:28; 24:2) onde tem o significado de “meditar” antecipadamente; uma vez em Eclesiastes capítulo 12 verso 12; novamente em 1 Tessalonicenses 4 verso 11 – “Estude para viver tranquilamente”; e finalmente, “estude para apresentar-se a Deus aprovado, um obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja bem a  Palavra de Deus” (v. 2 Tm 2:15), o qual é endereçado a um pregador, e significa que ele deve fazer deste seu interesse primordial, esforçando-se para agradar a Deus em todas as coisas, e para não poupar esforços em equipar-se a fim de ministrar a Palavra em tempo oportuno às almas carentes, de forma que cada uma receba sua porção necessária. Nem o verso, nem o seu próprio contexto, fazem qualquer referência a separação das Escrituras, atribuindo um livro para este determinado fim e outro para aquele determinado fim – o que é uma sutileza do Inimigo para roubar dos filhos de Deus, muitas das porções necessárias de seu alimento espiritual.

Estamos insinuando, então, que o povo de Deus deveria devotar menos tempo às Escrituras, ou que deveriam ser encorajados a examiná-la superficialmente? Não, de maneira nenhuma! Aquilo contra o que estamos protestando aqui é a idéia, que desonra à Deus, de que Sua Palavra é meramente uma peça de literatura, a qual pode ser “dominada” por um mero método de “estudo“. Aquilo contra o que advertiríamos é a atenção indevida aos aspectos técnicos da Bíblia. Sem hesitar, leia e releia toda a Bíblia em sequência, de forma a tornar-se familiarizado com seu conteúdo. Sem hesitar, “examine as Escrituras diariamente” (v. Atos 17:11) com o objetivo de por à prova tudo o que você ouve e lê; “compare” uma parte com outra, a fim de que você obtenha uma visão clara do que está diante de você. Ore sempre para que vocês tenha a direção e a iluminação do Espírito, para que Ele possa lhe dar discernimento dos mistérios divinos; pondere calmamente cada palavra em cada verso. Acima de tudo, rogue a Deus que escreva Sua Palavra mais claramente e de forma plena sobre as tábuas do seu coração.

A bendita Palavra de Deus não é deve ser dissecada pela fria faca do intelectualismo, mas ela deve ser guardada no coração. Ela não nos foi dada para exibirmos sabedoria e “esplendor“, mas para que nos curvemos diante dela em verdadeira humildade. Ela não foi concebida para que se tornasse um passatempo para nossas mentes, mas para governar nossas vidas diárias. Muito, muito mais importante que o “método”, é nossa motivação quando nos achegamos à Palavra. Não para que nos ensoberbeçamos acerca de nós mesmos, mas para que o orgulho seja dominado e sejamos levados a suplicar diante do escabelo da misericórdia; isto é o que deveríamos buscar. Que valor tem o conhecimento dos originais em Hebraico e Grego – ou um conhecimento apurado acerca da história, geografia e cronologia da Bíblia – se o coração permanece frio e duro diante de seu Autor?

Portanto, duvidamos muito que essa palavra, “estudo”, é apropriada para ser aplicada a nossa leitura das páginas inspiradas. O que pensaríamos de uma criança, longe de casa, que dissesse que ela estava indo “estudar” as cartas que recebeu de seus pais? A Bíblia consiste em uma série de cartas dada pelo Pai Celeste a seus amados filhos. Então, vamos tratá-las assim e agir de acordo com isto.

Assim como escrevemos recentemente a dois amigos nos Estados Unidos, “eu me pergunto se vocês ficariam surpresos se eu dissesse que, duvido seriamente que Deus tem pedido ou exigido de vocês que ‘estudem’ sua Palavra – o que vocês tem que fazer é ‘alimentarem-se’ dela. Quantos nutrientes seus corpos iriam obter do estudo das propriedades químicas dos nutrientes das frutas e cereais – ou pela busca da compreensão dos diversos tipos de solos nos quais foram cultivados, ou os diferentes tipos que se derivaram – ou o significado de seus nomes em latim? Absolutamente nenhum! E estou convencido de que grande parte do moderno ‘estudo da Bíblia’, é incapaz de prover alguma espiritualidade. Verdadeiramente, o estudo, como mencionado acima, alimentaria o orgulho – adquiriria um conhecimento que muitos de seus amigos não possuem; mas isto ajudaria na digestão?

Não seria mais prático dar mais atenção ao fato de assegurar uma dieta nutricionalmente  balanceada? Não seria muito mais proveitoso se você desse mais atenção à mastigação de seu alimento? Assim, queridos amigos, é com seu alimento espiritual“. “Desejem sinceramente o leite da Palavra, para que assim cresçais” – v. 1 Pe 2:2. Este é o único alimento realmente nutritivo para nossa alma!

Não se prenda unicamente aos seus livros favoritos da Escritura, de forma que venha a negligenciar outros igualmente necessários, mas varie sua leitura e então você obterá uma dieta balanceada. Memorize um verso ou dois ao dia e medite neles sempre que tiver tempo, mesmo quando estiver a caminho do seu serviço ou nele, e então você mastigará seu alimento. Coloque os preceitos em prática, atente às orientações das Escrituras, e então você absorverá aquilo do que se alimentou.


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FONTE: http://gracegems.org/Pink2/bible_study.htm

Tradução: Geison Pimentel

Revisão: Thiago McHertt