A Bondade de Deus - Stephen Charnock


Ao jovem rico Jesus perguntou: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus (Marcos 10: 18). Somente Deus é essencialmente bom e perfeito. Esta grande declaração nos mostra a futilidade das obras de justiça. Ninguém é naturalmente bom. O que poderíamos fazer para impressionar a Deus? Aqueles que tentam fazer isso gostariam que Deus estivesse em débito com eles. Os homens estão sempre prontos para transformar a fé em obras meritórias, negando assim a declaração feita por Cristo. Até a nossa fé não tem origem em nós mesmos, mas é um dom de Deus. Ele é a fonte de tudo o que é bom.

A noção de bondade é inseparável da noção de Deus. Ele não pode ser Deus se não for bom. VERDADEIRAMENTE bom é Deus para com Israel, para com os limpos de coração (Salmo 73: 1). O SENHOR, o SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade (Êxodo 34: 6).

I.    O QUE ESTA BONDADE É.

Não estamos nos referindo à perfeição essencial de Deus ou a santidade, ou mesmo à Sua própria bem-aventurança ou plenitude. Não estamos nem mesmo nos referindo à Sua misericórdia, pois a bondade se estende além da misericórdia. A misericórdia pressupõe um objeto miserável, mas a bondade não necessita de forma alguma de um objeto. Por exemplo: a criação foi um ato de bondade e não de misericórdia.

Antes, estamos nos referindo à magnificência de Deus, Sua liberalidade e doação na administração de todas as coisas. Deus é benevolente com todas as Suas criaturas como criaturas. Esta é a mais prazerosa das perfeições da natureza de Deus, que faz com que Ele seja amado e desejado por nós. A bondade de Deus alcança todos os Seus atributos. Quando Deus revelou-Se a si mesmo a Moisés, de maneira que um ser humano fosse capaz de suportar, Ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti (Êxodo 33: 19), como se a bondade fosse a fonte de todos os afluentes de Sua glória. Este é o atributo capitão que conduz o restante a agir.

II.    A NATUREZA DA BONDADE DE DEUS.

Deus é bom por Sua própria essência. Ele é mais do que bom em Sua própria essência, pois tudo o que Ele criou é bom neste sentido. Mas Ele é bom em Sua própria essência pelo fato ninguém ser a causa desta bondade. A bondade não é uma qualidade de Deus, mas a Sua própria natureza. Não é um hábito acrescentado à Sua essência, mas a Sua própria essência. A Sua bondade é infinita, ilimitada, eterna, e abundante.

Deus é a primeira e principal causa da bondade. Toda bondade na criatura deriva dEle, Tu és o meu Senhor, a minha bondade não chega à tua presença (Salmo 16: 2). Nossa bondade é mutável, mas Deus é imutável. Ele é o padrão da bondade, nada é realmente bom a não ser que se assemelhe a Ele. Não há uma partícula sequer do mal em Deus. Ele é todo e perfeitamente bom.

A bondade de Deus é comunicativa. Faz parte da própria natureza da bondade ser difusiva, distribuir. Deus não é invejoso de Sua bondade ou mesquinho com ela. Ele é mais propenso a comunicar a Sua bondade do que o sol espalhar os seis raios e calor.

Deus é necessariamente bom. Ele é bom por natureza e não somente por vontade. Não existe a mínima possibilidade de Deus ter escolhido ou escolher ser mau. Ele é bom em si mesmo, e não pode agir contra a Sua própria natureza. Ele não foi obrigado a criar o mundo, mas escolheu fazê-lo. E por isso Ele fez o mundo bom.

Entretanto, Deus é livremente bom. A necessidade de Sua bondade não impede a liberdade de Suas ações. Ele é totalmente livre nas comunicações de Sua bondade. Ele voluntariamente exerce a Sua bondade naquilo em que escolhe qual o bem, ou o grau de bem que fará. Ele não pode ser constrangido com respeito à Sua bondade.

Deus se deleita em comunicar Sua bondade. O Seu prazer em demonstrá-la é maior do que o nosso prazer em recebê-la. Ele não esconde os Seus tesouros como se tivesse inveja deles. Antes, Ele se regozija em compartilhar Suas riquezas. Ele se deleita no clamor dos homens por Sua bondade, mostrando-se desejoso em conceder as coisas que lhe pedem.

A demonstração da bondade foi o motivo e o fim de todas as obras de criação e providência de Deus. A Sua motivação e fim residem nEle mesmo, pois nada é maior do que Ele. Portanto, esta perfeição mais amável reivindica os seus melhores direitos de ser primeiramente demonstrada. Ao criar, Deus não aumentou a Sua excelência, mas manifestou-a. Se Deus não tivesse criado o mundo, Ele permaneceria desconhecido a todos, exceto para si mesmo, mas Ele produziu criaturas a fim de se tornar conhecido.

O reconhecimento de Sua bondade deve ser o motivo maior e o fim de todas as Suas obras.

III.    Deus é bom.

Quanto melhor uma pessoa for, maior será a sua caridade. Deus é o melhor e mais bondoso ser, pois não há ninguém acima dEle. Desde que toda a criatura de Deus é boa (I Timóteo 4: 4), e a bondade das criaturas procede do seu criador, Ele tem que ser o melhor, o supremo bem. Como a causa é mais rica do que o efeito, Ele é infinito em bondade. A fim de que ninguém duvide da bondade de Deus, vamos defender isso de pelo menos dois ataques.

Primeiro, a bondade de Deus não pode ser comprometida por Ele ter permitido a entrada do pecado no mundo. Deus em Sua bondade criou o homem com a capacidade de ser feliz. Mas, será que poderíamos chamá-la de “bondade” se Deus tivesse forçado o homem a ser feliz contra a sua vontade? Deus em Sua bondade não somente deu a Adão o poder de decisão, como também, pela mesma bondade, o deixou livre para usá-lo. Somente com a liberdade de escolha é que a obediência poderia ser considerada realmente como obediência. A bondade de Deus não é menos bondade porque o homem fez mau uso dela. Foi o homem, e não Deus, que caiu. Além disso, Deus em Sua bondade permitiu a queda do homem, para demonstrar a ele as riquezas ainda maiores da Sua glória, na obra da redenção.

Segundo, a bondade de Deus não pode ser comprometida por discriminar quem será o objeto da mesma.

Deus não distribui a Sua bondade de maneira uniforme, pois alguns recebem mais do que outros. Ele não fez todas as coisas igualmente boas, ainda que não tenha feito nada mal. Ele é bom para com todos, mas não na mesma medida ou grau. A bondade de Deus para com Suas criaturas é medida pela utilidade distinta do seu fim comum. Por exemplo: a faculdade da mente é melhor do que a faculdade do discurso, mas o discurso é bom no que diz respeito a comunicar o que está na mente. A desigualdade da bondade de Deus mostra mais a Sua bondade do que a igualdade o faria. Por exemplo: ela cria certos elos na sociedade humana, fazendo com que o pobre e o rico necessitem um do outro. Ela suscita motivos tanto para o louvor quanto para a petição a Deus. Nem todas as criaturas têm a mesma capacidade de bondade em suas naturezas. O homem tem uma capacidade maior do que, digamos, os pássaros; mas isso não implica em uma falha na bondade de Deus. Se Deus mostrasse toda a Sua bondade a qualquer uma de Suas criaturas, esta não seria capaz de suportá-la, pois nenhum homem pode ver a Deus e viver (Êxodo 33: 20). Deus tem o direito de manifestar a Sua bondade de acordo com o Seu soberano prazer. Ele é o Senhor dos Seus dons. Pelo fato de perdoar alguns rebeldes, Deus fica obrigado a perdoar todos? A bondade de Deus é diminuída quando Ele não a distribui para aqueles que o desprezam e não buscam o Seu favor? Ele não é livre para agir de acordo com a Sua sábia vontade, e não de acordo com os caprichos de homens ímpios?

Além disso, o castigo que Deus exerce sobre os malfeitores de maneira alguma viola a Sua bondade. Tudo o que Deus faz é bom, quer isso seja prazeroso ou doloroso às criaturas. O castigo não é uma distorção moral da pessoa que o infringe. Não punir o perverso seria um mal, e não um bem. A justiça de Deus faz parte da Sua bondade. Bondade sem justiça seria indulgência impotente, e encorajaria a rebelião e a confusão. Deus seria considerado bom se tratasse o mal e a justiça da mesma maneira? Fazer e impor leis faz parte da bondade de Deus, na medida em que isso promove a bondade e restringe a maldade. E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom (Romanos 7: 12). A lei nunca seria lei se não houvesse a penalidade. Não se fazer cumprir a lei seria uma perversão da bondade. Isso seria uma fraca indulgência, e não bondade, conviver para sempre com alguém impenitente. O SENHOR é conhecido pelo juízo que fez (Salmo 9: 16). Como poderia parecer bom aos olhos de Deus ver a Sua bondade pisoteada e nunca reivindicar Sua honra? Se o homem fizer da bondade de Deus uma licença para pecar, então Ele transformará a Sua bondade em justiça. Entretanto, o castigo não é a Sua primeira intenção ao nos entregar a Sua lei. De outra maneira, Ele não impediria determinados pecados. O Seu castigo é chamado de a sua estranha obra, o seu estranho ato (Isaías 28: 21). O propósito primário da lei é o de encorajar a bondade no homem. A bondade Divina levanta primeiramente a sua ira sobre o pecado, e não sobre o pecador. O pecador é castigado porque o seu pecado está apegado a ele. Mas, Deus em Sua bondade chama por diversas vezes a atenção do pecador, dando-lhe oportunidade para arrepender-se. Quando o castigo falha, ele ainda assim serve o bom propósito de alertar os seus observadores e também as futuras gerações. Por exemplo, Cristo disse à Sua audiência: Lembrai-vos da mulher de Ló (Lucas 17: 32). O julgamento está muitas vezes misturado com a misericórdia para com os justos. Por exemplo: as águas do dilúvio, que destruíram o mundo, foram as mesmas que sustentaram a arca, salvando Noé e sua família. Alguns dizem que o castigo eterno de Deus é contrario a Sua bondade. Como Deus poderia ser bom sem não punisse os homens ímpios que insistem em continuar com suas naturezas ruins? Será que Deus teria que perverter a Sua justiça a fim de ser bondoso com Seus inimigos? O homem é melhor e mais bondoso do que Deus?

Finalmente, quando Deus aflige os Seus santos não está violando a Sua bondade. As aflições do justo são para o seu bem, para o seu crescimento na graça. Podemos acusar a Deus de maldade quando as aflições que Ele envia para a Sua igreja servem para remover as impurezas, curar os seus descuidos, aumentar os seus membros, fortalecê-la na graça, e provar o seu amor para com o Seu Salvador? As epístolas de Paulo, escritas na prisão, aparentemente possuem uma força maior do que aquelas que foram escritas em liberdade. Não seria uma falta de bondade, ou melhor, uma crueldade da parte de um pai deixar o seu filho sem disciplina alguma?! É um ato de grande bondade que nos torna mais útil aqui ao invés de envergonhados no futuro.

IV.    A MANIFESTAÇÃO DA BONDADE DE DEUS.

Primeiro, vemos a bondade de Deus manifestada na criação. De acordo com o primeiro capítulo de Gênesis, a bondade de Deus era uma característica proeminente na criação, sendo até mais destacada do que Seu poder. A criação é descrita como sendo “bom” pelo menos sete vezes, refletindo assim o caráter do Criador. Se Deus não fosse bom, a criação também não poderia ser. Mais do que qualquer outro atributo, a bondade é a Sua marca registrada sobre todas as coisas. A criação foi o Seu primeiro ato de bondade fora de Si mesmo.

Toda criatura possui alguma bondade em si pela virtude de ter sido criada por um Deus que é bom. O SENHOR é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras (Salmo 145: 9). Que grande demonstração de bondade é dar vida a uma mosca! Mas vamos nos concentrar na bondade do homem em particular.

O nosso corpo, com toda a sua variedade de membros e beleza de proporções, testifica da bondade de Deus. É um vaso de barro que abriga a nobre faculdade da alma, detentora da excelente faculdade do conhecimento e discernimento entre o bem e o mal. Deus criou o homem à Sua própria semelhança e santidade. Se este não tivesse caído em pecado, o homem seria eternamente feliz, assim como os anjos. Deus, em sua bondade, fez com que o homem fosse uma espécie de ligação entre o mundo superior e o inferior, entre o céu e a terra. Deus demonstrou livremente toda esta bondade para o homem, pois Ele não necessitava de nós para nada. Ele não tinha necessidade de criar absolutamente nada, e certamente não teve necessidade nenhuma de criar o homem, ainda que o tenha feito bom. O que poderia ser melhor do que ser feito à imagem de Deus? Vamos exclamar juntamente com o Salmista: Ó SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra... Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? (Salmo 8: 1, 4).

Vamos considerar um pouco mais as conveniências que Deus livremente proveu para o homem. O mundo foi criado para a própria humanidade, e entregue a ela para sua subsistência e deleite. Deus proveu ricamente o mundo para o homem com coisas como a luz, para que ele pudesse enxergar; o ar, para que pudesse respirar; e a comida, para nutri-lo. Pense na variedade de cores, fragrâncias, e gostos, que Deus, em Sua bondade, criou para que o homem desfrutasse nessa magnífica mansão terreal! Sem dúvida alguma, o jardim do Éden foi um modelo das belezas e prazeres de outro mundo.

A bondade de Deus para com o homem aparece nas leis que lhe foram dadas e na aliança feita com o mesmo. A lei era perfeitamente adaptada à natureza do homem. A obediência não estava fora de seu alcance. Os preceitos eram fáceis e não eram penosos. Eles foram feitos para a felicidade e conforto dos homens. Quando pecou, o homem foi obrigado a ir contra tudo aquilo que lhe era natural. Em alguns textos, Deus parece demonstrar mais desgosto por o homem prejudicar a sua própria felicidade, do que de fato violar a Sua autoridade divina. Ah! se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos, então seria a tua paz como o rio, e a tua justiça como as ondas do mar! (Isaías 48: 18). Deus em Sua bondade encorajou Adão a obediência através da recompensa, e também ao ameaçá-lo pela desobediência. Ele poderia simplesmente agir como um soberano e não lhe dar estes incentivos. Entretanto, Deus parece valorizar o título de Benfeitor acima de Senhor, pois Ele gentilmente solicita a obediência de Adão. Mesmo depois da queda do homem, Deus, em Sua bondade, veio admoestá-lo. Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? .... Por que fizeste isto? (Gênesis 3: 11-13). As promessas e ameaças apelavam para a esperança e o temor, as duas paixões pelas quais a natureza do homem é conduzida neste mundo. Uma vez que a recompensa implicava em algo que Adão não merecia, então se tratava especificamente de um ato de bondade da parte de Deus. Assim como houve a ameaça da morte eterna, assim também houve a promessa da vida eterna. Esta vida eterna foi também um lampejo puro da bondade divina, pois não havia proporção entre a obediência de Adão e esta tão grande recompensa.

Segundo, vemos a bondade de Deus manifestada na redenção. O evangelho, como um todo, nada mais é do que um grande espelho da bondade de Deus. Boa vontade para com os homens, este foi o sumário da pessoa e obra de Cristo dado pelos anjos (Lucas 2: 14). A redenção tem sua origem na bondade de Deus. Quando o homem caiu em pecado, a bondade não foi um mero espectador, mas tratou de resgatar o homem de seu estado deplorável através de métodos extraordinários. O grande objetivo de Deus foi demonstrar a liberalidade da Sua natureza. Ele toma como nome para si mesmo o termo autêntico de amor, declarando em I João 4: 8, Deus é amor. Esta bondade é imerecida. Aquele que não tinha necessidade de nos criar, certamente não tinha a necessidade de nos remir. Longe de merecer a Sua bondade, a humanidade se mostra afoita em colocar um fim na mesma. Contudo, acima do Seu tribunal de justiça, Deus erigiu o tribunal de misericórdia. O pai, o Filho, e o Espírito Santo operam harmoniosamente na realização e na aplicação da obra da redenção. Esta bondade vai muito mais além do que poderíamos imaginar. Sem dúvida alguma que Adão, após cair em pecado, não esperava mais nada da parte de Deus a não ser a maldição, ainda que Deus lhe tivesse também feito uma promessa. O que mais poderíamos pedir do que aquilo que a bondade Deus já nos tem garantido?!

A obra de Deus na criação foi um ato da Sua bondade, mas a obra da redenção nos mostra muito mais bondade ainda. Na redenção, a bondade superou a justiça. A criação custou apenas algum fôlego da parte de Deus, mas a redenção custou o sangue do Seu Filho encarnado. Na redenção, Deus venceu a rebelião e a indignidade do homem, sendo que nenhuma das quais foram obstáculos na criação.

A bondade de Deus para com o homem, na redenção, é maior do que aquela demonstrada aos anjos. O estado de santidade dos anjos eleitos não se fez por intermédio da obra da cruz, mas foi divinamente determinado por Deus. Foi para os homens que Cristo morreu. Quanto aos anjos caídos, eles foram deixados para sempre em seus próprios pecados. Mas ao homem, a bondade Divina estendeu Suas mãos ensanguentadas a fim de resgatá-lo.

A bondade de Deus para com o homem, na redenção, é maior do que a bondade que eventualmente foi manifestada ao próprio Jesus por algum tempo. Na bem conhecida passagem de João 3: 16, a ênfase recai sobre a palavra tal, isto é: sobre a qualidade do amor de Deus para com os pecadores. Ele amou o mundo de tal maneira, que parece não ter amado o Seu próprio Filho em um determinado momento. Ele preferiu nos poupar ao invés de poupar Seu próprio Filho. Ele preferiu ouvir seus gemidos aos nossos. Ele preferiu que Seu Filho morresse ao invés de nós. Tamanha manifestação de amor poderia ser concebida por algum de nós?

Agora vamos frisar algumas maneiras particulares pelas quais a bondade de Deus aparece na redenção.

1.    Ela aparece na determinação de Deus em salvar o homem. Não deveríamos pensar que foi a expiação de Cristo que assegurou o amor de Deus aos pecadores, mas que o amor de Deus foi que assegurou a expiação. O amor foi a primeira engrenagem a se mover na obra da salvação. Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores (Romanos 5: 8). As palavras de Isaías 32: 8 aplicam-se pessoalmente a Deus: Mas o liberal projeta coisas liberais.

2.    A bondade de Deus na redenção aparece no dom de Cristo. Nenhum presente melhor poderia nos ter sido dado, até mesmo por Deus. Aqui temos um presente de valor infinito. Milhões de mundos não poderiam se comparar a este dom. Os milhares de anjos não podem se comparar a ele. Estamos falando do unigênito do Pai, o único em quem Ele focou todo o Seu deleite. Este Filho condescendeu em suportar as fragilidades da vida humana, ser feito maldição, e também sofrer e experimentar o cálice amargo da morte por um mundo degenerado. E mais ainda, pois a bondade divina ressuscitou e exaltou o Filho, não somente para si mesmo como Redentor, mas também a nós como Seus redimidos. Portanto, a bondade divina foi nEle centralizada, tanto em Sua cruz, quanto em Sua coroa. Nós compartilhamos com os méritos da Sua humilhação, assim como nas glórias de Sua coroação. Ao nos dar Seu Filho, Deus se deu a si mesmo. Ele é nosso Deus. Em Cristo, nós herdamos todas as coisas. O que mais a bondade divina poderia fazer por nós? Poderia existir algo de maior valor para Deus nos dar que a si mesmo?

3.    A bondade de Deus na redenção aparece quando consideramos o estado pecaminoso em que o homem se encontra. O homem age de maneira irracional quando fica descontente com Deus, ou ingressando na liga do inferno contra Ele. Não há nada no homem que atraia ou encante o amor de Deus. Um mundo de deméritos e impiedade habita no homem. Todo pecado é infinito, pois é contrário a um Deus infinito. Se aquele que odeia a seu irmão é um homicida (I João 3: 15), então aqueles que odeiam a Deus são assassinos de Deus. Deus tem todo direito de nos abandonar em nossa condição totalmente baixa. Além disso, cada geração continua a multiplicar suas provocações contra Deus, afundando-se em suas idolatrias e superstições, depreciando a glória de Deus, e reduzindo-O ao nível de um mero animal. O homem não tem poder de mudar ou melhorar a si mesmo. Ele está em paz com satanás. Deveríamos esperar que todas as perfeições de Deus se unissem contra criaturas tão rebeldes. Ao invés disso, Deus abre a Sua fonte de bondade, a qual ultrapassa a altura do pecado, nos concedendo um Redentor.

4.    A bondade de Deus na redenção aparece na posição de exaltação na qual Ele nos coloca. Em Cristo, a natureza humana é elevada a um grau maior de dignidade do que aquela que o homem tinha na criação original. Adão foi chamado de filho de Deus, mas os redimidos serão chamados de irmãos de Cristo. Por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos (Hebreus 2: 11). Nós, que fomos feitos um pouco menor que os anjos, somos elevados acima deles. Aquilo que o homem impiamente desejou, Deus mais do que garantiu através da graça. O que mais Deus poderia fazer para manifestar Sua bondade?

5.    A bondade de Deus na redenção aparece no concerto da graça, a qual nos libertou do concerto das obras. Adão foi criado sob o concerto das obras, o qual uma vez quebrado, somente Deus pela graça poderia se condescender em providenciar um novo concerto. Se no primeiro concerto com Adão vemos Deus abrindo mão em parte de Sua soberania, no segundo O vemos despindo-se a si mesmo da Sua majestade, a fim de demonstrar bondade pura. O primeiro concerto estava baseado na obediência do homem, enquanto o segundo, no inexprimível amor e obediência de Cristo. A cabeça do primeiro concerto era um homem mutável, enquanto o do segundo, Deus-homem imutável. O concerto da graça implanta uma nova natureza no interior do homem. Por causa da perfeita obediência de Cristo por nós, Deus aceita a nossa obediência pessoal, se esta for sincera, mesmo não sendo perfeita. O segundo concerto está fundamentado em melhores promessas do que o primeiro (Hebreus 8: 6). Deus se entregou a si mesmo como bênção do concerto da graça. Por isso também Deus não se envergonha deles, de se chamar seu Deus (Hebreus 11: 16), mesmo que isso pudesse depreciar Sua Majestade, ao se dar a si mesmo por um povo tão indigno. Ele preferiu mostrar Sua bondade ao invés de Sua grandeza. Ele desceu ao nível mais baixo que poderia a fim de satisfazer nossas necessidades; Ele confirmou o concerto com um juramento para que não houvesse dúvida alguma de Sua bondade. Além disso, Ele fez com que a fé fosse a condição deste concerto, não a perfeita obediência da nossa parte, nem conhecimento perfeito, mas a condição mais fácil em sua própria natureza, cuja única dificuldade é o orgulho e obstinação do homem. O que poderia ser mais fácil do que levantar os olhos e olhar para a serpente de metal para ser curado de sua mordida fatal? A fé é também a condição mais razoável e necessária, pois é seria impossível que Deus salvasse o pecador e este ainda permanecesse em sua rebelião.

6.    A bondade de Deus na redenção aparece em Seus tratos com todo homem que abraça este concerto. Ele não utiliza Seus exércitos como Maomé, a fim de coagir os homens a uma submissão exterior. Antes, Ele de forma doce e gentil nos persuade com firmes demonstrações de afeto para cumprir os Seus propósitos. Ele apela para nós dizendo: Vinde então, e argui-me, diz o SENHOR (Isaías 1: 18). E Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? (Ezequiel 33: 11). Ele convida afetuosamente os pecadores! Os Seus evangelistas são embaixadores através dos quais Ele convida Seus inimigos a se reconciliarem com Deus (II Coríntios 5: 20). Deus recebe prontamente aqueles homens que se voltam para Ele! Como o pai na parábola do filho pródigo, Ele corre ao encontro do filho que retorna a casa. Porque tem prazer na sua benignidade (Miquéias 7: 18). E quão enternecidamente Ele lamenta a recusa que o homem faz da Sua graça! Oh! se o meu povo me tivesse ouvido! se Israel andasse nos meus caminhos! (Salmo 81: 13). Embora Deus não esteja sujeito as mesmas paixões dos homens, a sinceridade da Sua bondade nos é comunicada em termos que nos são familiares. A natureza de Deus não necessita de bondade.

7.    A bondade de Deus na redenção aparece nas ordenanças que Ele instituiu no novo concerto, especialmente a Ceia do Senhor. A festa com Deus é grande, mas a festa em Deus é maior. A encenação de um corpo moído e quebrado, e do precioso sangue remidor do Cordeiro que por nós foi derramado, nos são relembrados para que desfrutemos de conforto e segurança. A bondade de Deus acode os nossos sentidos e fraquezas, ao nos dar provas visíveis de um Salvador que não podemos contemplar com esses olhos carnais. O sangue de Cristo foi eficaz para confirmação do concerto da graça na expiação realizada pelos pecadores, e vemos assim, na Ceia do senhor, o selo visível deste concerto. O que mais Cristo poderia representar quando ele mesmo diz: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós (Lucas 22: 20)? Deus nos deixou esta ordenança para que recordássemos sempre a Sua bondade e fidelidade. Quando o Espírito Santo acompanha sua observância, ela realmente se torna um instrumento da graça para as nossas almas. Em outras palavras, ela é um memorial, e mais ainda, pois quando os nossos corações estão envolvidos nela, nós desfrutamos de uma comunhão muito especial com Cristo. Assim como os Gentios que ao oferecerem seus sacrifícios tinham comunhão com os demônios (I Coríntios 10: 20), assim também os crentes têm comunhão com Cristo ao participarem da ceia do Senhor. O que diríamos daqueles que desprezam esta ordenança? Eles demonstram um certo desprezo pela bondade do Deus que a ordenou.

Finalmente, nós devemos observar que, na redenção, Deus nos restaura a uma posição mais excelente do que aquela que Adão tinha originalmente. Jesus disse: eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância (João 10: 10). Até os nossos corpos estarão em um estado superior. Uma abundante bondade teria nos restaurado ao estado de Adão, mas uma superabundante bondade nos elevou às alturas, para um novo céu e uma nova terra. A bondade de Deus na redenção se estende até mesmo àquela criação mais inferior. A mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus (Romanos 8: 21). Toda criação terrestre estava sob o domínio de Adão, e, portanto, foi amaldiçoada juntamente com ele. Mas, agora, o Segundo Adão fará a restauração de tudo (Atos 3: 21). Por isso a bondade divina espalha o seu triunfo sobre toda a criação, sendo a única exceção os anjos caídos, por quem não há redenção, nem mesmo para um.

Terceiro, vemos a bondade de Deus manifestada em sua providência. Qualquer homem se alegra em preservar aquilo que criou, quanto mais o grande Deus, que fez todas as coisas boas! Com a mesma bondade com que criou, Deus continua operando na criação com providencial cuidado. Vamos observar algumas maneiras como a bondade de Deus fica bem evidenciada na providência.

1.    Ela é evidente no cuidado que Deus com todas as Suas criaturas. Ele não cuida apenas das criaturas maiores ou mais nobres, mas também das inferiores. O Salmista proclama: cheia está a terra das tuas riquezas (Salmo 104: 24). Nenhum canto e recanto fica excluído da bondade de Deus. Ele preserva homens e animais (Salmo 36: 6). Vemos isso nas palavras de Paulo em Listra: E contudo, não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações (Atos 14: 17). Ele protege Suas criaturas de milhares de perigos que nem sequer imaginamos. Ele cuida dos animais, provendo-lhes alimento e habitação. Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu pó (Salmo 104: 27-29). Ele instruiu Israel acerca do boi, para que os animais descansassem aos sábados e comessem enquanto trabalhavam (Êxodo 20: 10; Deuteronômio 25: 4). Se o boi caísse e ficasse preso em um poço, deveria ser acudido (Lucas 14: 5). Deus até ameaçou encurtar a vida do povo, se eles tratassem com crueldade os passarinhos (Deuteronômio 22: 6-7). Ele também cuida das coisas inanimadas, como as flores e a erva do campo (Mateus 6: 28-29). O Soberano desce ao nível mais baixo para cuidar da Sua criação! Além disso, Ele também cuida daqueles que são menos nobres, pois deu ordens aos senhores para que não abusassem dos seus escravos (Êxodo 21: 26-27). Ao pobre foi permitido colher nos campos após a colheita (Deuteronômio 24: 19-22). O criminoso não deveria ser açoitado com mais do que quarenta chicotadas (Deuteronômio 25: 3). Até mesmo o ímpio e ingrato, que não merece nada além de trevas e fogo, desfruta ainda das bênçãos do sol e da chuva (Mateus 5: 45). Neste sentido, Deus é o salvador ou preservador de todos os homens (I Timóteo 4: 10).

2.    A bondade de Deus na providência fica evidente na preservação da sociedade humana. Em Seu poder Ele é capaz de realizar isso, e em Sua bondade Ele deseja fazê-lo. Ele faz isso através da entrega da Lei moral, os Dez Mandamentos, que se aplica a cada pessoa e a toda forma de relacionamento. Ele ordenou o governo humano, sem o qual o mundo seria um covil de feras a devorar umas as outras. Ele restringe as paixões internas dos homens, as quais o governo humano sozinho não seria capaz de refrear. Ele equipa as pessoas com vários talentos e capacidades, para que sirvam a sociedade como um todo. Ele julga e castiga certos pecados, caso contrário, aniquilariam a sociedade. Não são poucos os governantes cruéis que tiveram um fim amargoso! Deus muitas vezes faz com que certos assassinos sejam pegos e levados a juízo. Em nossos dias parece que Deus é mais paciente com os crimes cometidos contra Ele mesmo do que com a humanidade. Às vezes parece que Deus leva certos homens a agir de forma contrária às suas paixões naturais, e também ajuda Seus inimigos em tempos de necessidade. Em certo sentido, Deus vai tão longe, que parece deixar de lado Seu próprio direito de governar, permitindo o exercício da autoridade humana por questão de ordem, ainda que Ele tenha todo direito de reivindicar Sua autoridade. Por exemplo: o pai ou o marido em Israel tinha o direito de anular qualquer voto feito a Deus por sua esposa ou filha (Números 30: 3-8).

3.    A bondade de Deus na providência fica evidente no fato dEle encorajar qualquer atitude de bondade moral na terra. Muitas vezes Deus fez Acabe se humilhar a si mesmo por algum tempo, para um maior proveito comum, ainda que seus motivos fossem egoístas.

4.    A bondade de Deus na providência fica evidente na disposição de Suas Santas Escrituras. A Bíblia que temos em nossas mãos é a Sua Palavra inspirada, nos servindo de regra de fé e prática. Ele não nos deixou sem uma revelação escrita da Sua mente e vontade. Ele nos forneceu o mapa da nossa jornada. Ele a tem preservado e traduzido em vários idiomas, a despeito dos esforços que os homens maus fizeram e fazem para destruí-la. Alguns homens, muito mais ferozes do que muitas bestas, acabaram sendo domados por ela.

5.    A bondade de Deus na providência fica evidente na conversão dos pecadores. Aqui o Seu poder e bondade se unem. Ele quebranta os corações mais endurecidos, convencendo-os do pecado; revelando a excelência de Cristo, e levando-os a provar da doçura do Seu sangue. Em Sua bondade Ele chamou a Paulo de Tarso, mas passou por seus companheiros de viagem. Ele é bom ao chamar alguém, mas não é obrigado a chamar ninguém. Ele se deleita em salvar o mais vil e pior dos pecadores. Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados (I Coríntios 1: 26). Ele salva muitas vezes aqueles que são seus piores inimigos, como Saulo, que respirava ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor (Atos 9: 1). Ele faz retornar os homens que estavam contentes em caminhar nas estradas da destruição. Deus é tão bondoso que vence a nossa rebelião, nos transformando a despeito de nós mesmos, e triunfando sobre nossa resistência, quando Ele poderia facilmente nos ter abandonado.

6.    A bondade de Deus na providência fica evidente nas orações atendidas. A eficácia da oração não é resultado da maneira como pedimos, nem do temperamento da nossa alma, mas da bondade dAquele à quem nós oramos. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? (Mateus 7: 11). Ele ama a oportunidade de mostrar Sua bondade acima daquela demonstrada pelos nossos pais terrenos. Ele prefere que nossas petições almejem as grandes coisas que os céus podem dispor, ao invés das coisas frívolas deste mundo. Ele é mais liberal em nos abençoar do que nós em desejarmos. Quantas vezes Ele nos dá mais nós tivemos a sabedoria ou confiança de pedirmos!

7.    A bondade de Deus na providência fica evidente no fato dEle suportar as enfermidades do Seu povo e aceitar a nossa obediência imperfeita. Ele não levou em conta a maldade de Jacó. Não viu iniquidade em Israel, nem contemplou maldade em Jacó (Números 23: 21). Quantos reis de Judá foram elogiados por fazer o que era reto, embora leiamos dos pecados cometidos por eles! A onisciência de Deus conhece muito bem os seus pecados, mas a Sua bondade aceita a pessoa deles, em Cristo.

8.    A bondade de Deus na providência fica evidente nas perseguições e aflições. Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos (Salmo 119: 71). Deus, em Sua bondade remove de nós, através das aflições, a nossa falsa segurança e apoio, a nossa impureza misturada ao ouro, e tudo aquilo que poderia impedir a nossa verdadeira felicidade e utilidade. É muito gentil da parte dEle impedir que o homem caia de um penhasco, embora isso possa ser feito através de um vento violento, que o lance por terra e o deixe prostrado. A partir disso, Deus aperfeiçoa a nossa fé, nos conduz a oração, revelando tanto a si mesmo quanto a nós, como nunca ocorrera antes. Ele é tão bom que acompanha Seu povo em suas piores aflições. Ele disse a Jacó: E descerei contigo ao Egito, e certamente te farei tornar a subir (Gênesis 46: 4).

9.    A bondade de Deus na providência fica evidente nas tentações. Ele se faz presente desde o início até ao final de cada uma. Mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar (I Coríntios 10: 13). Ele encurta o tempo das tentações. Quanto mais severa, menor será o tempo que Deus a permitirá. O sofrimento violento de Cristo é repetidamente mencionado nas Escrituras como hora. Ele nos garante forças para suportar as tentações quando passamos por necessidades. Ele nos concede uma armadura para que possamos resistir aos dardos inflamados e vencer o inimigo de nossas almas. Ele nos concede grande conforto durante e após as tentações. Jó desfrutou, após os ataques que sofreu, de um conhecimento mais profundo de Deus e das evidências do Seu amor, como nunca houvera desfrutado antes. Embora Pedro tenha se mostrado fraco quando tentado, o Senhor enviou a ele uma palavra especial através de um anjo: Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro... (Marcos 16: 7). Através das tentações, Deus faz com que a Sua graça avance em nós. Que alegria é provar a bondade de Deus, e descobrir que, ao resistir às tentações, nós recebemos mais graça do que poderíamos imaginar! A bondade de Deus transforma o Diabo em uma politriz, enquanto este pensa ser um martelete destruidor. O espinho na carne de Paulo refreava o seu orgulho. Finalmente, Deus em Sua bondade nos torna mais aptos ao Seu serviço através das tentações que enfrentamos. Ele nos tempera na fornalha para fazer de nós um material muito melhor para a Sua obra. Pedro estava mais bem preparado para fortalecer os irmãos ao ser fortalecido após a sua própria falha. Que o nosso bom Deus possa nos capacitar a aprender deste atributo e aplicá-lo a nós mesmos.

I.    INSTRUÇÃO

1.    É um grande pecado abusar da bondade de Deus ou mesmo desprezá-la. Este pecado é muito comum e frequentemente cometido por todos. Todo pecado é, em última análise, uma negação da bondade de Deus, como se Ele tivesse nos mandado fazer aquilo que não é do nosso melhor interesse. A insistência do homem em pecar, mostra que ele considera a justiça como algo ruim, e o pecado como algo bom. Todo pecado é uma ofensa contra Deus, mas os pecados cometidos contra a Sua bondade são especialmente abomináveis. Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus (Romanos 2: 4-5). Os pecados cometidos contra a bondade de Deus clamam por uma maior indignação de Sua parte. Se deixardes ao SENHOR, e servirdes a deuses estranhos, então ele se tornará, e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito o bem (Josué 24: 20). Jerusalém, que outrora fora a Sua cidade querida, foi transformada em um campo de sangue, por causa do seu desprezo contra a bondade de Deus em Cristo.

Vamos observar algumas maneiras pelas quais o homem demonstra seu desprezo à bondade de Deus:

- Quando se esquecem dos Seus benefícios. Quão rapidamente Adão fez isso! E quão rapidamente nós o fazemos também! O fato de estes benefícios serem tão amáveis e frequentes, deveria nos fazer abundar em ações de graça, mas ao invés disso, a nossa tendência é desprezá-los, fazendo com que nos esqueçamos de quão bom Deus é para conosco.

- Quando são impacientes e murmuradores. Em tempos de dificuldade, o homem acusa Deus de crueldade, falhando em perceber que todos os caminhos de Deus são bons. Após uma grande demonstração de bondade em Êxodo, Israel murmurou repetidamente contra Deus. Eles tolamente falaram como se Deus tivesse dado a eles muito, e queriam voltar a escravidão e aos seus exatores do Egito. O homem pensa ser melhor do que Deus. Adão imaginou que Deus de alguma maneira o invejasse, privando-o de algo que lhe era bom.

- Quando são incrédulos e impenitentes. Por que o homem não viria a Deus, exceto por duvidar da Sua bondade? A vinda do Seu Filho foi um dos maiores atos de bondade que Deus poderia expressar, e a nossa recusa em recebê-Lo é uma das maiores reprovações a tamanha liberalidade.

- Quando duvidam da Sua providência. Confiar nEle é reconhecer Sua bondade, assim como desconfiar dEle é supor que Ele seja mal. Em I Pedro 5: 7 somos ordenados a lançar todos os nossos cuidados sobre Ele, pois Ele cuida de nós. Se não fizermos isso, estaremos negando Seu cuidado e bondade para conosco.

- Quando se omitem de seus deveres. Aquele que se recusa a obedecer a Deus está na verdade dizendo: “Posso fazer isso muito bem sem Deus; não necessito da Sua bondade para sustentar-me”.

- Quando contam com a sua própria ajuda para assegurar o favor de Deus. Por exemplo: Em tempos de grande angústia, o homem faz um voto extraordinário a Deus, esperando em troca que as portas de Sua bondade se abram, como se Deus estivesse retendo-a até que receba algum suborno.

- Quando servem a Deus em troca de algum benefício e não por Ele mesmo. Isso revela um amor egoísta e interesseiro; mais amigos dos deleites do que amigos de Deus (II Timóteo 3: 4). Isso equivale a declarar que Deus não é melhor do que nós somos e nem é o nosso Supremo bem.

- Quando continuam no pecado por causa da bondade de Deus, isto é, ao empregarem as bênçãos de Deus para satisfação de suas concupiscências ou na adoração de algum ídolo. Muitos que são abençoados com riquezas se tornam orgulhosos e pródigos. Muitos abusam do dom de Deus de uma paz e segurança terrena, como uma oportunidade para pecar ainda mais, por desacreditarem de qualquer forma de julgamento. Muitos acumulam seus bens e agarram-se as luxúrias dos seus corações, vivendo somente para si mesmos e desprezando a Deus, que nos dá todas as coisas.

- Quando atribuem seus benefícios a outras causas que não seja a bondade de Deus. Nós proclamamos a nossa própria sabedoria e esforços, descartando a bondade de Deus, como se Ele não tivesse nada a ver com o nosso sucesso. Isso sem dúvida é idolatria.

2.     Se Deus é bom, então o homem certamente é uma criatura caída. O estado atual da humanidade, cheia de pecados e também sofrendo suas consequências, prova que a maldição está em vigor. Deus revelou-se a si mesmo como Juiz, pois o homem violou a Sua lei.

3.    Não haverá nenhuma reclamação justificável contra Deus por Ele punir aqueles que abusam da Sua bondade. Deus desembainha Sua espada somente contra aqueles que primeiramente desdenharam dEle e de Sua bondade. Quem poderá culpar a Deus por não mais demonstrar Sua bondade àqueles que a desprezaram, não lhe sendo agradecidos? Deus não pode ser acusado de injustiça, pois Ele deu a Adão os meios para resistir ao pecado, provendo depois os meios para recuperá-lo do mesmo, sendo tudo isso desprezado por nós. Portanto, a bondade de Deus justifica cada pedra colocada no fundamento do inferno.

4.    A bondade de Deus o capacita a governar o mundo. Ele é incapaz de realizar qualquer coisa que entre em desacordo com a Sua boa natureza. Ele não pode destruir qualquer bondade moral em Suas criaturas. Toda miséria humana vem dos próprios homens. Para a tua perda, ó Israel, te rebelaste contra mim, a saber, contra o teu ajudador (Oséias 13: 9). Deus não somente é apto a governar, mas realmente exerce Sua bondade ao fazer isso. É impensável que a bondade divina criaria o mundo e depois o abandonaria com indiferença. O fato do mundo ainda continuar a existir hoje, é um testemunho da bondade de Deus.

5.    A bondade de Deus é o alicerce da verdadeira religião e adoração. É o esplendor de todos os Seus atributos. Todos os atos de devoção emanam da liberalidade de Deus, quer presente ou prometida. A bondade de Deus nos atrai. A esposa de Jó o tentou quando questionou a bondade de Deus: Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Porém ele lhe disse: Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal?(Jó 2: 9-10). Isto é, a bondade que Jó havia desfrutado o encorajou a adorar a Deus, muito mais do que o mal que ele havia sofrido o desencorajava.

6.    A Bondade de Deus o torna amável e maravilhoso. Porque, quão grande é a sua bondade! E quão grande é a sua formosura! (Zacarias 9: 17). Ele é amável em si mesmo. Somente com Ele o amor próprio é perfeito, pois não há ninguém melhor do que Ele que possa legitimamente reivindicar Suas afeições. Por este mesmo motivo Deus tem que ser bom para conosco, pois não há ninguém que seja bom como Ele. Se as nossas afeições não encontram prazer nEle, então estamos no mesmo nível que os demônios. Os Seus sentimentos de bondade o tornam especialmente amável, mais do que qualquer outro atributo. Portanto, nos encontramos sob forte obrigação, não somente por causa da Sua bondade absoluta, a qual é a excelência de Sua natureza, mas também por Sua bondade relativa, a qual Ele exerce para conosco. Somos beneficiados de muitas e extraordinárias maneiras na criação, providência e redenção. Nós não somos merecedores de Sua bondade, antes, somos cheios de deméritos. Se nós apreciamos a bondade imperfeita das criaturas, não deveríamos estimar muito mais a perfeita e infinita bondade de Deus? A única razão pela qual Deus manifesta a Sua bondade, é para que sejamos objetos do Seu amor, a fim de que obtenhamos retorno desta afeição. Não há absolutamente nada que seja digno do nosso amor além de Deus.

7.    A bondade de Deus o torna digno da nossa fé e confiança. Sua bondade é o alicerce de toda a nossa confiança nEle. O Salmista entrelaça estas duas ideias dizendo: Provai, e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele confia (Salmo 34: 8). Quem é melhor do que Deus? Em quem mais nós podemos confiar além de Deus? A Sua bondade é o motivo principal da nossa confiança? Se o vemos apenas como um juiz, então fugiremos dEle. É a bondade de Deus que nos atraia Ele e nos conduz ao arrependimento (Romanos 2: 4). Embora o Seu poder seja o fundamento da nossa confiança, a Sua bondade é o motivo da mesma. Debaixo do regime da lei, o poder de Deus se sobressaía, mas no evangelho, a Sua bondade é que se destaca. Por isso Oséias profetizou: Depois tornarão os filhos de Israel, e buscarão ao SENHOR seu Deus, e a Davi, seu rei; e temerão ao SENHOR, e à sua bondade, no fim dos dias (Oséias 3: 5). A nossa confiança nEle o glorifica. Nós nunca o agradamos mais do que quando confiamos nEle. Ele nunca irá desapontar a fé daquele que se lança nos braços de Sua bondade.

8.    A bondade de Deus o torna digno da nossa confiança e honra. O entendimento correto da bondade de Deus deveria nos conduzir a uma obediência voluntária e feliz. Tu és bom e fazes bem; ensina-me os teus estatutos (Salmo 119: 68). Os incontáveis benefícios que recebemos de Deus, deveria nos conduzir a uma submissão total a Ele. Estamos em dívida quanto a estas grandes obrigações por causa das grandes vantagens que desfrutamos da parte dEle. E mais ainda, pois o que nos leva a obediência e ao prazer é o fato de sabermos que Suas exigências são boas. Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados (I João 5: 3). Todos eles visam o nosso bem. Um Deus que é bom não poderia exigir de nós aquilo que é mau.

II.    CONFORTO.

Deus, em Sua bondade, deseja perdoar todo aquele que vem a Ele em busca de misericórdia. Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam (Salmo 86: 5). Ele é paciente com as falhas dos Seus filhos. Se nos achegamos a Ele com o mínimo de sinceridade, seremos aceitos.

A bondade de Deus nos conforta em nossas orações. A bondade se deleita em comunicar-se a si mesma. Deus nunca está cansado demais para demonstrar Sua bondade; Ele se deleita em nossas orações. Portanto, devemos orar com confiança e coragem, sabendo que Ele dá boas-vindas aos nossos pedidos. Ele até nos concedeu um Mediador por quem podemos nos aproximar do Seu trono. A Sua bondade nos encoraja a nos aproximarmos dEle.

A bondade de Deus nos conforta em nossas aflições. Por que deveríamos temer quando a Sua bondade infinita nos acompanha? Porque o SENHOR Deus é um sol e escudo; o SENHOR dará graça e glória; não retirará bem algum aos que andam na retidão (Salmo 84: 11). Assim como Elias, muitas vezes tememos morrer pelas mãos de Jezabel, mas nunca deveríamos esquecer que estamos nas mãos de Deus (I Reis 19: 2-4).

A bondade de deus assegura a nossa felicidade. É da própria natureza da bondade o comunicar a si mesma. Deus estaria nos enganando e trabalhando contra si mesmo se não buscasse satisfazer os desejos e anseios do Seu povo, doando-se a si mesmo. A Sua bondade é que primeiramente nos concedeu estes desejos e, sendo assim, ela irá cumpri-los na extensão do que a nossa natureza é capaz, e isso através de toda a eternidade.

A bondade de Deus nos conforta em tempos de perigo. O SENHOR é bom, ele serve de fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele (Naum 1: 7).

III.    EXORTAÇÃO.

Vamos desejar a Deus ardentemente. Nada mais é digno da nossa ardente sede. Seria totalmente irracional não desejá-lo. A vontade do homem só sai em busca daquilo que é bom. Por isso, satanás tenta disfarçar o pecado como algo bom. Somente em Deus é que podemos encontrar a verdadeira e pura bondade, digna dos nossos mais profundos desejos. Não devemos ficar satisfeitos com alguns traços derivados da bondade das criaturas, mas desejarmos ansiosamente mergulhar em sua fonte. Todas as outras fontes são vãs, mas não há nada em Deus que possa nos desapontar. Raquel clamou a Jacó: Dá-me filhos, se não morro (Gênesis 30: 1), e seu último filho lhe custou a vida. Mas se clamarmos: Dá-me Deus, se não morro, nosso desejo será atendido sem que o tiro saia pela culatra.

Vamos meditar constantemente neste atributo. Em que outra atividade nós poderíamos ocupar melhor as nossas mentes? Nisso nós somos superiores às bestas brutas, pois refletimos sobre a bondade da mão que nos alimenta e conhecemos o Autor das nossas bênçãos. A terra está cheia da bondade do SENHOR (Salmo 33: 5). Além disso, quantos pecados Ele tem perdoado?! Quantas cadeias Ele já quebrou?! Ele faz aquilo que ama ver outros fazendo! Porque Deus ama ao que dá com alegria (II Coríntios 9: 7).

Meditar neste atributo fará:

- Que adoremos a Deus em verdade. Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome (Salmo 138: 2). Nada nos motiva a adorar de forma mais correta do que a uma clara compreensão da bondade de Deus.

- Que sejamos mais humildes. Ao sabermos que pecamos contra um Deus tão bondoso, não há mais lugar para o nosso orgulho. E como Ele é gracioso para conosco! Como alguém poderia se orgulhar de um dom que ele sabe não ser merecedor?

- Que fiquemos mais fiéis a Deus. Como ousaríamos desperdiçar a nossa vida em coisas tão insignificantes ao invés de dedicá-la ao nosso grande Benfeitor! Aqueles que são recipientes da bondade de Deus deveriam sentir-se enaltecidos em viver para um fim tão nobre.

- Que sejamos mais pacientes nas tribulações. Nós confiamos que Deus sempre cumpre aquela promessa de ouro que nos foi entregue em Romanos 8: 28, mesmo que não saibamos quais serão os meios que Ele utilizará para isso. Ele pode nos colocar em meio a nuvens, porém, nunca estaremos em trevas.

- Que estejamos acima do mundo. A correta compreensão da bondade de Deus irá inibir o nosso apetite pelas coisas mundanas e aguçar o nosso desejo por Deus.

- Que não sejamos invejosos. Ficaremos felizes ao vermos Deus estendendo a Sua bondade a mais alguém. Ou é mau o teu olho porque eu sou bom? (Mateus 20: 15). Todos sabem que Deus estende a Sua bondade àqueles que são conduzidos ao arrependimento (Romanos 2: 4).

- Que nos tornemos verdadeiramente agradecidos. Se não pensarmos mais profundamente na bondade de Deus, nosso louvor se tornará frio, um mero ritual. Isso nos leva a próxima exortação.

Sejamos agradecidos por esse atributo. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios (Salmo 103: 2). Deus merece o nosso constante louvor por planejar a nossa recuperação enquanto estávamos mergulhados em nossa ruína. O Salmo 148 conclama a natureza inanimada a louvar a Deus, ou seja, o sol e a lua, os céus e águas, o fogo, a neve, o vento, as montanhas, e as árvores. Não deveriam todos os homens remidos adorar a Deus com muito maior gratidão em seus corações?! Não devemos colocar o nosso louvor sobre qualquer instrumento que Deus faça uso, e sim no próprio Deus!

E por fim, vamos imitar este atributo de Deus. Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos (Mateus 5: 44-45). Assim como Deus não seria perfeito sem este atributo de bondade, assim também nenhum Cristão é perfeito sem a bondade e a caridade. As Escrituras enfatizam estes dois deveres nesta conexão. Primeiro, nós devemos atender e socorrer os necessitados. Existe alguém que esteja tão abaixo de Deus que não possa ser objeto do seu cuidado? Assim também ninguém deveria estar fora do nosso interesse. Se Deus cuida das feras do campo, não deveríamos cuidar daqueles que são semelhantes a nós? Que sejamos bons mordomos dos dons de Deus, e não servos negligentes. Que aprendamos que realmente é melhor dar do que receber (Atos 20: 35). Deus se deleita tanto quando o imitamos nisso, que nos promete abençoar por um copo de água que venhamos a dar com o objetivo de glorificá-Lo (Mateus 10: 42).

Segundo, devemos ser bons com os nossos piores inimigos. Como Deus é bom com aqueles que blasfemam dEle e ainda continuam a respirar! E não é um sintoma de fraqueza ou desgraça sermos semelhantes a Deus. Se o coração de Deus está aberto sempre para nós, então não devemos fechar o nosso para ninguém.


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Autor: Stephen Charnock
Compilado para o seculo 21: Daniel A. Chamberlin
Tradução: Eduardo Cadete 2011
Fonte: Palavra Prudente