A SOBERANIA DIVINA - J. I. Packer

A SOBERANIA DIVINA - J. I. Packer

Não pretendo aqui ficar perdendo tempo, tentando provar-lhes a verdade genérica de que Deus é o soberano do mundo criado por ele. Isso é desnecessário, pois eu sei que, se você é cristão, já crê nisso. E como é que eu sei disso? É que eu sei que, se você é cristão, então certamente você ora; e o que sustenta as suas orações é o reconhecimento da soberania de Deus. Pela oração, você intercede por certas coisas e agradece por outras. E por que você age assim? Porque reconhece que Deus é o autor e fonte de todo o bem que já tem experimentado na vida, e de todo o bem que espera para o futuro. Esta é a filosofia essencial da oração cristã. A oração do cristão não é nenhuma tentativa de forçar a mão de Deus, mas um humilde reconhecimento da nossa impotência e dependência. Quando nos colocamos de joelhos, é porque sabemos muito bem que não somos nós que controlamos o mundo; não temos, portanto, o poder de satisfazer as nossas necessidades pela nossa própria força; tudo de bom que desejamos para nós mesmos e para os outros deve ser solicitado das mãos de Deus, quando o obtemos, se é que o obtemos, será como um presente das suas mãos.

Se isso é verdade até mesmo no que se refere ao nosso pão diário (e a oração do Senhor nos ensina que é), muito mais, no que diz respeito aos bens espirituais. Isso tudo é claro e radiante para nós quando oramos de verdade, não importa o quanto possamos contradizer-nos por argumentos posteriores. Consequentemente, portanto, o que fazemos toda vez que oramos, é confessar a soberania de Deus e a nossa própria impotência. O próprio fato do cristão orar é, assim, prova de que ele crê, sim, na soberania do seu Deus. Também não estarei perdendo tempo, repito, provando-lhes a verdade particular de que Deus é soberano na salvação. Pois nisto você também já crê. Há dois fatos que apontam para isso. Em primeiro lugar, você dá graças a Deus por sua conversão. Agora, por que será que você procede assim? É que você sabe muito bem, no fundo de seu coração, que Deus foi inteiramente responsável por ela. Não foi você que se salvou; ele salvou você. As suas ações de graça são, por si só, uma forma de reconhecimento de que a sua conversão não foi sua própria obra, mas obra dele. Você não atribuiu a um mero acaso ou acidente, o fato de ter se deixado influenciar pelo Cristianismo, quando isso aconteceu. Você não atribui a um mero acaso ou acidente o fato que frequentou uma igreja evangélica, ouviu o evangelho cristão, que tinha amigos cristãos e, talvez, até uma família cristã, que a Bíblia chegou às suas mãos, que reconheceu sua própria necessidade de Cristo, e que acabou crendo nele como o seu Salvador. Você não atribui o fato de ter se arrependido e crido à sua própria sabedoria ou prudência, ou a algum juizo salutar ou bom senso. É possível até que, na época em que você estava buscando a Cristo, você tenha labutado e se empenhado ao máximo, tenha lido e ponderado bastante, mas todo este conjunto de esforços não torna a sua conversão resultado da sua obra. O seu ato de fé, quando se comprometeu com Cristo, foi obra sua no sentido de que foi você quem o realizou; mas isso não quer dizer que você tenha salvado a si mesmo. Na verdade, nunca lhe passou pela cabeça a idéia de que você tenha salvo a si mesmo.

Ao olhar para trás, você assume como sua a vergonha de sua cegueira, indiferença, obstinação e atitudes evasivas passadas diante da mensagem do evangelho; mas você não dá nenhum tapinha nas suas costas por ter sido conquistado por este Cristo tão insistente. Você jamais sonharia em repartir entre você e Deus as glórias da sua salvação. Você jamais, por um momento sequer, supôs que a contribuição decisiva para a sua salvação foi sua própria e não de Deus. Você nunca disse a Deus que, apesar de estar muito grato pelos meios e oportunidades da graça que ele lhe deu, você se dá conta de que na verdade não tem que agradecer a ele, mas a si mesmo, pelo fato de ter respondido ao seu chamado. O seu coração se revolta só em pensar em falar com Deus nestes termos. Na verdade, você lhe agradece sinceramente pelo dom da fé e do arrependimento, quanto pela dádiva de ter um Cristo em quem confiar e para quem se voltar. É por aí que seu coração o tem conduzido, desde que você se tornou um cristão. Você atribui a Deus toda a glória por todas as coisas envolvidas em sua salvação, e você tem consciência da blasfêmia que seria, se você se recusasse a agradecer-lhe por tê-lo conduzido à fé. Assim, você reconhece a soberania da graça divina pela forma como você pensa e dá graças por sua conversão. E qualquer cristão no mundo age da mesma maneira.

Neste contexto, seria bastante esclarecedor refletirmos sobre o testemunho de Charles Simeon acerca da sua conversão, através de João Wesley, em 20 de Dezembro 1784 (a data encontra-se especificada no Wesley's Journal): "Meu caro, eu entendo que você é o que chamam de arminiano; e certas pessoas me chamam de calvinista; e por isso mesmo, suponho que as pessoas esperam ver-nos prontos para brigar um contra o outro. Mas, antes de eu consentir em que se dê início ao combate, com sua licença, gostaria de lhe fazer algumas perguntas . . . Diga-me, por favor: você sente que é uma criatura tão depravada, mas tão depravada que nunca teria pensado em voltar para Deus, se Deus já não tivesse posto isto em seu coração antes?" "É verdade, 'diz o veterano', é isso mesmo." "E você também se sentiria totalmente perdido, se tivesse que recomendar-se a Deus, baseado em alguma coisa que você pudesse fazer; e considera a salvação como algo que se deu exclusivamente pelo sangue e justiça de Cristo?" "Sim, exclusivamente por Cristo." "Mas então, meu caro, partindo do pressuposto de que você foi inicialmente salvo por Cristo, será que ainda assim você não teria que subseqüentemente, de uma forma ou de outra, salvar-se a si mesmo por suas próprias obras?" "É claro que não, pois eu devo ser salvo por Cristo do princípio ao fim". " Admitindo, então, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, você, de um modo ou de outro, deve manter-se salvo por seu próprio poder?" "Não." "Quer dizer, então, que você deve ser sustentado a cada hora e momento por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe?" "Sim, absolutamente." "E quer dizer que toda a sua esperança está depositada na graça e misericórdia de Deus para sustentá-lo, até que venha o seu
reino celestial?" "Certamente, eu estaria completamente desesperado, se não fosse ele." "Então, meu caro, com sua permissão vou levantar novamente a minha espada; pois isto não é nada mais nada menos do que o meu Calvinismo; eis aí as minhas teses da eleição, da justificação pela fé, da perseverança final: eis aí, em essência, tudo o que eu defendo, e como o defendo; portanto, se lhe parecer bem, ao invés de ficar tentando descobrir termos ou expressões que sejam bom motivo de briga entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas em que  concordamos."

Mas há uma outra maneira, pela qual reconhecemos a soberania de Deus na salvação. Você ora pela conversão dos outros. Agora, em que termos é que você intercede por eles? Você se limita a pedir que Deus os conduza só até o ponto em que eles sejam capazes de se salvarem a si mesmos, independente dele? Não acho que você pense assim. Acho que o que você deve fazer é orar em termos categóricos para que Deus, simplesmente e muito decisivamente, os salve: que ele abra os olhos de seu entendimento, amoleça seus corações duros, renove suas naturezas e mova suas vontades para que recebam o Salvador. Você roga a Deus que opere neles tudo quanto for necessário para a salvação deles. Jamais lhe passaria pela cabeça considerar, na sua oração, que, na verdade, você não está pedindo que Deus os conduza à fé, porque reconhece que Ele não é capaz de fazê-lo. Nada disso! Quando você ora pelas pessoas não convertidas, você o faz pressupondo que é no poder de Deus que eles são conduzidos à fé. Você roga para que Ele faça precisamente isso sua confiança em pedir repousa sobre a certeza de que ele é capaz de fazer o que você pede. E, de fato, ele é: esta convicção que motiva suas intercessões é a verdade do próprio Deus, escrita em seu coração pelo Espírito Santo. Na oração, portanto (e quando o cristão ora está em seu estado mais são e sábio), você sabe que é Deus quem salva os homens; você sabe que o que faz os homens se voltarem a Deus é a própria obra graciosa dele de atraí-10s para junto de si; e o conteúdo de suas orações é determinado por este conhecimento. Assim, você reconhece e confessa a soberania da graça de Deus através de sua prática de intercessão, da mesma forma que pela ação de graças por sua própria conversão. Assim procedem todos os cristãos, em toda parte.

Há uma controvérsia milenar no meio da Igreja sobre se Deus é realmente o Senhor em relação à conduta humana e à fé salvadora ou não. O que foi dito mostra-nos que tipo de postura que devemos assumir diante desta controvérsia. As coisas não são do jeito que parecem. Pois não é verdade que alguns cristãos crêem na soberania divina, enquanto outros sustentam uma tese contrária. A verdade é que todos cristãos crêem na
soberania divina, acontece que alguns não estão conscientes de que crêem nisso, equivocadamente imaginam e insistem que a rejeitam. Qual a razão para este lastimável estado de coisas? A causa de tudo isso é a mesma que se encontra na maior parte dos casos de equívoco da Igreja - a influência de especulações racionalistas, o desejo apaixonado por manter uma coerência sistemática, a relutância em reconhecer a existência do mistério e em deixar Deus ser mais sábio do que os homens, e a consequente subordinação das Escrituras às supostas exigências da lógica humana. As pessoas até reconhecem que a Bíblia ensina que o homem tem responsabilidade pelas suas ações; mas não vêem (e os homens, na verdade, não podem ver) como isso é coerente com a soberania do Senhorio de Deus sobre essas mesmas ações. Elas não se conformam em deixar as duas verdades conviverem lado a lado, como elas fazem nas Escrituras, mas partem logo para a conclusão precipitada de que, para sustentar a verdade bíblica da responsabilidade humana, são obrigados a rejeitar a doutrina igualmente bíblica e verdadeira da soberania divina, e a inventar uma explicação para o grande número de textos que a ensinam. O desejo de reduzir o conteúdo da Bíblia, eliminando todos os mistérios, é uma tendência natural das nossas mentes corruptas, e não é surpreendente que até homens considerados bons já tenham caído vítimas disso. Daí toda esta insistente e preocupante controvérsia.

A ironia da situação, entretanto, é que quando perguntamos como é que os representantes de ambos os lados praticam a sua oração, torna-se claro que aqueles que professam negar a soberania de Deus, na verdade, crêem tão fortemente nela quanto os que a defendem.

E como é que você ora? Você roga a Deus por seu pão diário? Você agradece a Deus por sua conversão? Você ora pela conversão dos outros? Se a resposta é "não", só posso dizer que acho que você ainda não nasceu de novo. Mas se a resposta é "sim" - bem, então isso prova que, não importa de que lado do debate sobre esta questão você diga que se colocou no passado, o fato é que, em seu coração, você crê na soberania de Deus tão firmemente quanto qualquer outra pessoa. Enquanto estivermos sobre nossos próprios pés, podemos até levantar vários argumentos em torno da questão, mas quando de joelhos, estamos todos de acordo. É este ponto de comum acordo, do qual as nossas orações são prova, que eu tomo como nosso ponto de partida.


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FONTE: Do ebook (apenas um trecho) "A Evangelização e a Soberania De Deus"

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Artigo: A SOBERANIA DIVINA - J. I. Packer . Publicado por: Reforma Radical dia: 29 maio 2014 . Esperemo que este artigo tenha edificado sua vida e que você volte muitas outras vezes. Aproveite para comentar sobre o texto. 1 comentários: na postagem: A SOBERANIA DIVINA - J. I. Packer
 

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