Verdade e Liberdade - Horatius Bonar

 “Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”
(João 8: 31- 32).

“A fé vem pelo ouvir, e ouvir pela palavra de Deus” ; de acordo com o que lemos no verso 30, “Ditas estas palavras, muitos creram nele”. Assim Ele ensinou, e assim eles creram; como o apóstolo colocou, “Assim pregamos e assim crestes”. É sempre em conexão com a palavra da verdade que o Espírito Santo opera em nós. A voz de Cristo e a mão do Espírito Santo andam juntas. Encontramos isso em nosso texto, mas encontramos mais do que isso.

O recebimento da palavra de Cristo dá início ao discipulado. Talvez haja muitos pensamentos ansiosos antes disso, muitas lágrimas, muitos gemidos amargos. Talvez haja susto, inquietação e questionamento. Mas isso não é discipulado. Entretanto, tais coisas são como muitas tentativas de ensinamento; muitas informações segundo uma escola e um professor, os quais irão de encontro aos desejos da alma. O mundo inteiro está, em seu pobre e obscuro caminho, estendendo suas mãos em busca de algo que somente pode ser concretizado em Cristo. Porém isso não é discipulado.

Todos os homens estão perguntando, 'Quem nos mostrará algo bom? ' Porém isso não é discipulado. O discipulado começa por receber a Sua palavra. Não com o fazer algo grande, mas com o receber Sua palavra; recebê-la como o aluno recebe o ensinamento do mestre.

Ele é a Palavra; e Ele anuncia a palavra. Qual é esta palavra que Ele anuncia?

É uma palavra (a) referente ao Pai (b) referente a Ele mesmo. Ele vem como o revelado do Pai, e anunciador de Si mesmo e de Sua obra. No momento em que recebemos aquilo que Ele nos diz referente ao Pai e a Si mesmo, nos tornamos Seus discípulos, Seus alunos. Assim somos ensinados, não por homens, mas por Deus. Este é o verdadeiro, o autêntico início do discipulado.

Permanecer naquela palavra é o teste do verdadeiro discipulado. Nosso Senhor colocou grande ênfase neste ponto; permanecer na Sua palavra. Não é a permanência em adesão geral a Sua causa, mas permanência na Sua palavra naquela palavra, pelo recebimento da qual nos tornamos discípulos. “A palavra de Cristo habite em vós ricamente” (Colossenses 3: 16) diz Paulo; e é esta palavra que contém tudo o que precisamos.

É uma palavra expansiva, sempre ampliando suas dimensões, crescendo em nós. Nunca é velha, nunca é nova; nela fazemos contínuas descobertas. É a mesma árvore, porém sempre produzindo novos ramos e folhas o mesmo rio, mas sempre expandindo e ampliando. É uma palavra vivificadora, produtora da nova. “Tua palavra me vivificou” (Salmos 119: 50). É uma palavra fortalecedora, que nos encoraja e nos revigora; nos levanta quando prostrados; confere saúde, coragem, resolução e persistência.

É uma palavra santificadora. Ela purifica; detecta o mal e o expurga; derrama santidade na alma. Ela opera uma obra interior abençoada. Continuemos nela; não nos cansemos dela; não percamos o gosto por ela, mas habitemos nela.

O conhecimento da verdade é o resultado do discipulado. Temos visto as propriedades e virtudes da palavra em si mesma; notemos a comunicação destas ao discípulo. Todos os que entram nesta escola e que se põem sob o ensinamento desse instrutor são ensinados por Deus; conforme está escrito, “E serão todos ensinados por Deus” (João 6: 45). Ele deve conhecer a verdade; não uma verdade, nem parte dela, mas a verdade, a totalidade dela a verdade e não o engano dEle que é a verdade. Ele deve ser sábio, sábio em Cristo, nEle que é nossa sabedoria. Ele deve conhecê-la, não supô-la, nem especular sobre ela, nem ter uma noção dela; mas conhecê-la, compreendê-la, escolhê-la, apreciá-la. A verdade é Cristo mesmo, o professor da verdade é Cristo, Ele é ambos professor e lição. O conhecimento de Cristo é o conhecimento da verdade; sempre crescente tanto em extensão como em profundidade. A promessa de Cristo para o discípulo é, “Conhecereis a verdade”.

Abençoada promessa num dia de dúvida e engano.

Esta verdade é liberdade. Toda verdade é liberdade, e o engano escravidão; um pouco de verdade é imensa liberdade, e um pouco de engano é imensa escravidão. Abençoadas são estas palavras do Mestre, “A verdade vos libertará”. A escravidão, para muitos, simplesmente está associada à tirania, mau governo, despotismo civil ou eclesiástico. As palavras de Cristo vão além e mais profundo. Elas vão à raiz do mal. A verdadeira cadeia, a verdadeira prisão, a verdadeira escravidão está no interior e não no exterior; assim, a verdadeira liberdade é interior, não exterior. Ela brota daquilo que uma pessoa conhece de Deus e do Seu Cristo. Raramente compreendemos isso. Engano? Escravidão? Como pode ser, dizemos, se o engano for o feito voluntário da própria pessoa? Se for o resultado dos seus próprios esforços intelectuais? Se não está relacionado com muros de prisão ou a opressão do poder? Mas o Mestre é muito explicito. A verdade vos libertará! Não há outra liberdade, digna do título, da qual esta não seja a fonte. 'Ele é o homem livre quem a verdade faz livre; e fora dela todos são escravos'.

Sejam livres! Diz o Filho de Deus aos filhos dos homens. Como? Tornando-se Meus discípulos, conhecendo a verdade que ensino e seguindo-Me. Se o Filho os libertar, verdadeiramente sereis livres!

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Do livro 'Studies in the Gospel of John' (Estudos do Evangelho de João)
Fonte: http://www.reavivamentos.com/