Parte (05) - A Escravidão da Vontade - Martinho Lutero

Esta é uma versão condensada do clássico de Martinho Lutero,
A Escravidão da Vontade. Publicada inicialmente em 1525.

A Escravidão da vontade Parte V.

Argumento 16: A incredulidade universal prova que o “livre-arbítrio” é falso.
Em João 16.8, Jesus afirma que o Espírito Santo viria “para convencer o mundo do pecado...” E no versículo seguinte, Ele explica que o pecado consiste no fato que os homens “não creem em mim”. Ora, esse pecado de incredulidade não se acha na pele ou nos cabelos, mas na mente e na vontade. Todos os homens, sem exceção, são tão ignorantes do fato de sua culpa de incredulidade quanto ignoram o próprio Jesus Cristo. A culpa da incredulidade precisa lhes ser revelada pelo Espírito Santo.

Portanto, tudo quanto existe no homem, incluindo o “livre-arbítrio”, está condenado aos olhos de Deus, contribuindo apenas para aumentar a culpa acerca da qual ele é ignorante, enquanto Deus não a revelar. A totalidade das Escrituras proclama Cristo como o único meio de salvação. Todo aquele que estiver fora de Cristo está debaixo do poder de Satanás, do pecado, da morte e da Ira divina. Somente Cristo pode resgatar os homens do reino de Satanás. Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos existia, mas tão-somente pela graça de Deus.

Argumento 17: O poder da carne, mesmo em verdadeiros crentes, mostra a falsidade do “livre-arbítrio”.
Por alguma razão, Erasmo, você ignorou os meus argumentos baseados em Romanos 7 e em Gálatas 5. Esses dois capítulos mostram-nos que até mesmo nos verdadeiros crentes a força da “carne” é tanta que eles não podem fazer aquilo que sabem que devem e querem fazer. A natureza humana é tão má, que mesmo as pessoas que são dotadas do Espírito de Deus, não somente falham em fazem o que é direito, como até mesmo lutam contra isso.

Portanto, que possibilidade há de que aqueles que são destituídos do novo nascimento venham a praticar o bem? Conforme diz Paulo, em Romanos 8:7: “... o pendor da carne é inimizade contra Deus”. Eu gostaria de conhecer o homem que é capaz de derrubar por terra esse argumento!

Argumento 18: Saber que a salvação não depende do “livre-arbítrio” pode ser muito reconfortante.
Confesso que não gostaria de possuir “livre-arbítrio” ainda que o mesmo me fosse concedido! Se a minha salvação fosse deixada ao meu encargo, eu não conseguiria enfrentar vitoriosamente todos os perigos, dificuldades e demônios contra os quais teria de lutar. Porém, mesmo que não houvesse inimigos a combater, eu jamais poderia ter a certeza do sucesso. Eu jamais poderia ter a certeza de haver agradado a Deus, ou se haveria ainda mais alguma coisa que precisaria fazer. Posso provar isso mediante a minha própria dolorosa experiência de muitos anos. Porém, a minha salvação está nas mãos de Deus, não nas minhas.

Ele será fiel à sua promessa de salvar-me, não com base no que eu faço, mas de conformidade com a sua grande misericórdia. Deus não mente, e não permitirá que meu adversário, o diabo, me arranque de suas mãos. Por meio do “livre-arbítrio”, ninguém poderá ser salvo. Mas por meio da “livre graça”, muitos serão salvos. E não somente isso, mas também alegro-me por saber que, como um cristão, agrado a Deus, não por causa daquilo que faço, mas por causa de sua graça. Se trabalho muito pouco ou errado demais, graciosamente Ele me perdoará e me fará melhorar. Essa é a gloria de todo cristão.

Argumento 19: A honra de Deus não pode ser maculada.
Talvez alguém fique preocupado, pensando que é difícil defender a honra de Deus em meio a tudo isso. E talvez diga: “Afinal de contas, Deus condena aqueles que não podem evitar de serem pecaminosos, e que são forçados a permanecer dessa maneira porque Ele não os escolheu para salvação”. Como Paulo diz: “...éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (Ef2.3). Porém, você poderá ver essas questões por um outro ângulo. Deus deveria ser reverenciado e respeitado por ser misericordioso para todos quantos Ele justifica e salva, embora sejam totalmente indignos. Sabemos que Deus é divino. Ele também é sábio e justo. A sua justiça não é da mesma categoria que a justiça humana. Ela está acima de nosso poder de apreensão plena, conforme Paulo exclama, em Romanos 11.33: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízes e quão inescrutáveis os seus caminhos!” Se concordamos que a natureza, o poder, a sabedoria e o conhecimento de Deus estão muito acima dos nossos, então também deveríamos acreditar que a sua justiça é melhor do que a nossa. Ele nos fez a promessa de que quando chegar a revelar para nós a sua glória, então veremos claramente aquilo no que agora devemos acreditar que Ele é justo, sempre o foi e sempre o será.

Eis um outro exemplo. Se você usar da razão humana para considerar a maneira como Deus governa os acontecimentos do mundo, será forçado a dizer ou que Deus não existe, ou que Deus é injusto. Os ímpios prosperam e os piedosos sofrem (Jó 12.6 e Sl 73.12), e isso parece ser injusto. Por esse motivo, muitos homens negam a existência de Deus e dizem que as coisas acontecem impelidas pelo acaso. A resposta que damos a essa questão é que há uma vida após a vida presente, e que tudo quanto não tiver sido castigado e corrigido nesta vida, será castigado e corrigido na vida futura.

A vida terrena nada mais é que uma preparação para ou o começo da vida que virá. Esse problema tem sido debatido por toda a História, mas a solução não tem sido encontrada, exceto pela crença no Evangelho, conforme ele se acha nas páginas da Bíblia. Três raios de luz brilham sobre essa questão: o raio da natureza, o da graça divina e o da glória celestial. Mediante o raio de luz da natureza, Deus parece ser injusto, porquanto os piedosos sofrem e os ímpios prosperam.

O raio da luz da graça divina ajuda-nos a compreender melhor as coisas, embora ainda não explique como Deus pode condenar alguém que, por suas próprias forças, nada pode fazer senão pecar e ser culpado. Somente o raio de luz da glória celeste explicará isso plenamente, naquele dia vindouro, quando Deus revelar a Si mesmo como inteiramente justo, embora os seus juízos ultrapassem a nossa limitada compreensão de seres humanos. Um homem piedoso crê que Deus conhece de antemão e preordena todas as coisas, e que nada acontece senão pela sua soberana vontade.

Nem um homem, ou anjo, ou qualquer outra criatura, em vista desses fatos, é dotado de “livre-arbítrio”. Satanás é o príncipe deste mundo e conserva cativos a todos os homens, a menos que eles sejam libertos pelo poder do Espírito Santo.


FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO DA OBRA DE LUTERO
A ESCRAVIDÃO DA VONTADE.

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Fonte: http://youtu.be/C9QOkkmWZbI  -  Canal  "Josemar Bessa"
Transcrição: Necilia Paula
Fonte: trovian.blogspot.com.br