A necessidade de regeneração deve-se à total depravação do homem - A. W. Pink

Cada membro da raça de Adão é uma criatura decaída, e cada parte do seu complexo ser foi corrompido pelo pecado. O coração é “Enganoso..., mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr 17.9). A sua mente foi cegada por Satanás (2 Co 4.4) e obscurecida pelo pecado (Ef 4.18), de forma que os seus pensamentos são somente maus continuamente (Gn 6.5). Suas afeições estão prostituídas, de forma que ele ama aquilo a que Deus odeia, e odeia aquilo a que Deus ama. A sua vontade encontra-se escravizada ao pecado (Rm 6.20) e se opõe a Deus (Rm 8.7). Ele se encontra num estado em que ele não é justo diante de Deus (Rm 3.10), está debaixo da maldição da lei (Gl 3.10) e é um cativo do diabo. A sua condição é de fato deplorável, e seu caso é desesperador.

Ele não consegue melhorar-se, porque é “fraco” (Rm 5.6). Ele não pode produzir a sua própria salvação, porque nele não habita bem algum (Rm 7.18). Ele precisa, então, nascer de Deus, “Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gl 6.15).

O homem é uma criatura decaída. Não é que apenas algumas folhas caíram, o fato é que a árvore toda caiu, até as raízes, completamente. Em cada ser humano reside aquilo que é radicalmente errado. A palavra “radical” vem de outra palavra latina que significa “raiz”, de forma que quando dizemos que um homem está radicalmente errado, com isso queremos dizer que encontramos nele, no próprio fundamento e na constituição do seu ser aquilo que é intrinsecamente corrupto e essencialmente mau. Os pecados são meramente os frutos; faz-se necessária uma raiz de onde eles vêm. Segue-se, então, como consequência inevitável, que o homem precisa do auxílio de um Poder Superior que opere uma mudança radical em si. 

Existe somente Um que pode efetuar essa mudança: Deus criou o homem, e somente Deus pode recriá-lo. Portanto, eis a razão da ordem imperativa: “importa-vos nascer de novo” (Jo 3.7). O homem está morto espiritualmente e nada pode fazê-lo reviver a não ser Alguém Todo-poderoso. “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens” (Rm 5.12).

No dia em que Adão comeu do fruto proibido, ele morreu espiritualmente, e uma pessoa espiritualmente morta não consegue gerar um filho que tem vida espiritual. Por essa razão todos, por descendência natural, entram neste mundo “separados da vida de Deus” (Ef 4.18), “mortos nos ... delitos e pecados” (Ef 2.1). Isso não é mera figura de linguagem, mas é um fato solene. Cada criança nasce completamente destituída da mais simples fagulha de vida espiritual, e por isso, se ela for entrar no reino de Deus, que é a esfera da vida espiritual (Rm 14.17), ela terá de ser nascida nesse reino.

Quanto mais claramente formos capazes de discernir a imperativa necessidade da regeneração e as variadas razões por que ela é absolutamente essencial para que uma criatura decaída esteja ajustada para a presença do Deus três vezes santo, menos dificuldade haveremos de encontrar quando procurarmos entender a natureza da regeneração, o que é que acontece no interior de uma pessoa quando o Espírito Santo a renova. Especialmente por essa razão, e também por causa da nuvem de erro que encobre essa verdade vital, sentimos que são necessárias considerações adicionais desse aspecto particular do nosso assunto.

Jesus Cristo veio a este mundo para glorificar a Deus e para glorificar-Se a Si mesmo por meio da redenção de um povo para Si mesmo. Mas qual é a glória que Deus recebe, e qual é a glória que cabe a Cristo, se não existe uma diferença vital e fundamental entre o Seu povo e o mundo? E qual é a diferença que pode existir entre esses dois grupos de pessoas se não for uma mudança de coração, do qual procedem as fontes da vida (Pv 4.23); uma mudança de natureza ou disposição, como a fonte da qual todas as outras diferenças haverão de proceder — ovelhas e bodes diferem em natureza. Toda a obra mediadora de Cristo tem como alvo essa única finalidade. O Seu ofício sacerdotal destina-se a reconciliar e trazer o Seu povo a Deus; o Seu ofício profético tem como objetivo ensinar-lhes o caminho; o Seu ofício real (de rei), operar neles as qualidades e conceder-lhes a beleza necessária para prepará-los para a santa comunhão e convivência com o Deus três vezes santo. Por isso, Ele purifica “para si mesmo, um povo exclusivam ente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14).

“Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis” (1 Co 6.9). Mas há multidões que são enganadas, e enganadas exatamente neste assunto, neste assunto tão importante. Deus advertiu aos homens, dizendo: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr 17.9), mas poucos se dispõem a crer que isso é verdade a seu próprio respeito. Em lugar disso, dezenas de milhares de cristãos nominais enchem-se de vã e presunçosa confiança de que vai tudo bem com eles. Eles se iludem com a esperança de receber misericórdia enquanto continuam vivendo num caminho de teimosia e auto-satisfação. Eles pensam que estão preparados para o céu, quando na verdade cada dia que passa os encontra cada vez mais preparados para o inferno. Está escrito a respeito do Senhor Jesus que “ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21), e não em seus pecados. Ele os salva não apenas da penalidade do pecado, mas também do poder e da contaminação do pecado.

A quantas pessoas da cristandade não se aplicam as seguintes palavras solenes: “Porque em seus olhos se lisonjeia, até que a sua iniqüidade se mostre detestável” (Sl 36.2). A principal artimanha de Satanás é iludir as pessoas para que pensem que podem associar-se com sucesso tanto com o mundo como com Deus, tolerar a carne enquanto aspiram pelo Espírito, e dessa forma “aproveitar o melhor de ambos os mundos”. Mas Cristo declarou enfaticamente que “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6.24). Há muitos que se enganam quanto ao lugar da ênfase dessas penetrantes palavras.

A verdadeira ênfase não está na palavra “dois”, mas sim na palavra “servir” — ninguém pode servir a dois senhores. E Deus requer que o “sirvamos” — que O temamos, que nos submetamos a Ele, que Lhe obedeçamos; que a Sua vontade regule a vida em todos os detalhes. Veja 1 Samuel 12.24,25. “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás” (Mt 4.10).

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Fonte: A Regeneração (O Novo Nascimento) — A. W. Pink
Traduçao: Helio Kirchheim