Martinho Lutero
Tabefe no Focinho!

Um dos episódios da Reforma Protestante de que mais gosto é o encontro de Martinho Lutero com os profetas de Zwickau (1521). Lutero estava recluso no Castelo de Wartburgo depois de ter sido “sequestrado” por seus amigos. Esse sequestro amigável havia ocorrido porque queriam protegê-lo de algum atentado depois das perigosas declarações que ele fizera na Dieta de Worms.


Estando em sua “prisão” cinco estrelas, Lutero ouviu falar de três pregadores que tinham saído da cidade de Zwickau e ido a Wittemberg, quartel general do reformador, onde passaram a disseminar heresias, dizendo que conheciam pessoalmente o Espírito Santo e que Deus lhes falava diretamente, dando-lhes revelações especiais. Um deles afirmava que o anjo Gabriel havia lhe prometido um trono celeste.

Lutero, bastante irritado, não hesitou. Saiu do castelo e foi à Wittemberg, onde confrontou os tais profetas. A certa altura, depois de reprová-los rigorosamente, os hereges começaram a gritar em alta voz, clamando: “Espírito! Espírito!”. Lutero, sentado numa cadeira, ficou a observá-los em silêncio, até que exclamou algo mais ou menos assim: “Esse espírito que vocês invocam, se eu o vir, dar-lhe-ei um tabefe no meio do focinho”.

Eu fico imaginando a reação histérica que aqueles malucos tiveram quando ouviram isso. Se bem que não devem ter tido muito tempo para escândalos. A resistência de Lutero fez com que logo deixassem Wittemberg, ficando a cidade livre daqueles safados de uma vez por todas.

Quando ouvimos essa história algumas perguntas eventualmente surgem na nossa cabeça. Eu as formularia assim: como Lutero sabia que o espírito que movia aqueles homens não era o Espírito Santo?; como ele pôde ser tão ousado ao ponto de zombar do espírito que eles invocavam?; será que Lutero não correu o risco de blasfemar ao dizer o que disse?

Diante dessas questões, muita gente hoje em dia, crendo em todos os mitos que atualmente desfiguram a igreja e o evangelho, não hesitaria em encher Lutero de pedradas. Eu, da minha parte, faço exatamente o contrário. Creio que, nesse episódio, o reformador honrou grandemente o Espírito Santo, impedindo com todo vigor e ousadia (além de certa medida de humor) que aqueles desvairados atribuíssem à Santíssima Terceira Pessoa da Trindade obras tão insanas, gestos tão enlouquecidos e mentiras tão deslavadas.

Digo isso com segurança por uma razão bem simples: é fácil, na verdade muito fácil, saber como é a obra do Espírito Santo na vida de alguém. O crente que estuda a Bíblia vai lembrar que Jesus, por ser o Messias (isto é, o Ungido), viveu todos os seus dias de ministério terreno sob a unção do Espírito Santo (Mt 3.16). De fato, o Espírito o conduzia, o acompanhava, o “dominava” e o habilitava na realização de todo o seu trabalho (Mt 4.1; Lc 4.14).

No fim, qual era o efeito disso? Nosso Senhor gritava, dançava, rodopiava, caía no chão, balbuciava palavras sem sentido, profetizava futilidades? Não. A vida sob a unção do Espírito Santo não provocava nada disso. Os efeitos eram outros. Sob o impulso do Espírito, nosso Senhor pregava a justiça, agia com discrição e ajudava os fracos (Mt 12.18-21). Sob o poder do Espírito ele evangelizava os pobres, curava os quebrantados de coração, libertava os cativos do diabo e dava vista aos cegos (Lc 4.18-20). Aliás, mesmo quando curava enfermos ou expulsava demônios pelo poder do Espírito (Mt 12.28), Jesus jamais transformava isso em espetáculos, mas se retirava discreto, evitando aplausos, aclamações e shows (Mt 12.15,16).

Ora, em ninguém mais na história humana o Espírito Santo esteve tão atuante como na pessoa de Jesus de Nazaré (Jo 3.34), de forma que temos nele um modelo singular, um padrão de como vive e age o homem que está sob o poder do Parácleto prometido.

Tendo agora esse padrão único em mente, voltemos nossos olhos para os evangélicos de hoje que dizem ter a força do Espírito Santo ou que dizem ser tomados por ele em algumas ocasiões. O que vemos nessa gente? Vou dizer o que vemos. Vemos o que Lutero viu naqueles falsos profetas, além de muitas coisas piores. Vemos gente dando gargalhadas ao ponto de rolar no chão; vemos pessoas imitando bêbados (com base em At 2.13!); vemos mulheres com o rosto desfigurado, se contorcendo, gritando e rodopiando durante os cultos; vemos jovens uivando, latindo e rosnando como animais; vemos homens em transe, com o rosto em terra; vemos gente se debatendo, balbuciando frases desconexas e profetizando invenções.

Muitos crentes, observando essas coisas, ficam com medo e com o coração cheio de dúvidas, pensando: “E se isso for mesmo de Deus?”. Senhor! Será que a vida de Jesus não nos ensina nada? Aquele a quem o Pai concedeu o Espírito sem limitações (Jo 3.34) mostra como é o viver sob a força que vem do Alto. Se aprendêssemos com seu exemplo no mesmo grau que Lutero e os demais reformadores, olharíamos para os desatinos evangélicos que nos cercam e diríamos sem temor: “Esse espírito que vocês invocam, se eu o vir, dar-lhe-ei um tabefe no meio do focinho”.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria


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Reforma Radical

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