John MacArthur
Queiramos ou não, como cristãos, estamos em um conflito de vida ou morte contra as forças do mal e suas mentiras. É uma guerra espiritual. Não é um conflito literalmente físico com armas mortais. Não é uma campanha para aumentarmos as riquezas de alguém ou confiscarmos seus bens. Não é uma guerra por território ou por domínio geopolítico. E, sem dúvida alguma, não é um jihad violento pela expansão da influência da cristandade no mundo. Não é algum tipo de guerra mágica com seres invisíveis das esferas inferiores. Não é uma batalha pela ascendência entre indivíduos ou seitas religiosas, e, sem dúvida, não é uma campanha realizada pela igreja para assumir o Estado. Mas é, contudo, uma guerra séria com consequências eternas.

Uma vez que esse conflito espiritual é, em primeiro lugar, um conflito teológico — uma guerra na qual a verdade divina se opõe ao erro demoníaco —, precisamos ter sempre em mente que nosso objetivo é destruir mentiras, não pessoas. Na verdade, se formos fiéis, o resultado será pessoas sendo libertadas de fortalezas de mentiras, de falsas doutrinas e de ideologias malignas que as mantêm cativas. Foi exatamente assim que Paulo descreveu nosso plano de batalha no conflito cósmico em 2 Corintios 10:3-5: “Pois, embora vivamos como homens, não lutamos segundo os padrões humanos. As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo.” Assim, Paulo diz que devemos declarar guerra contra toda ideia que se levanta contra a verdade divina.

A despeito de tanta linguagem de cunho militante, não há nenhuma crueldade na postura que Paulo estava descrevendo (nem quando ele continua no versículo seguinte a dizer aos corintios que, pessoalmente, estava “[pronto] para punir todo ato de desobediência, uma vez estando completa a obediência de vocês”). Ele estava pronto não só para a defesa da verdade, mas também para uma incursão ofensiva contra falsos sistemas de crenças. A estratégia de Paulo, em suas próprias palavras, incluía destruir aquelas falsas ideologias, desmontando sistematicamente suas doutrinas equivocadas, subjugando seus argumentos enganosos e expondo suas mentiras com a verdade.

Em outras palavras, a verdade era a única arma de Paulo. Ele não atacou os falsos mestres em Corinto como eles o haviam ata- cado — com insinuações, distorções de seu ensino, insultos pura- mente pessoais e redes de mentiras. Respondeu ao engano deles com a verdade — desatando o nó górdio de suas mentiras com “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17). Lutou pela verdade e contra o erro com total seriedade. Mas, em todas as vezes que Paulo lidou com falsos mestres, seu objetivo foi aniquilar a falsa doutrina deles, e não os falsos mestres em si. A guerra não era uma disputa meramente pessoal entre Paulo e seus adversários para ver quem conseguiria ganhar a lealdade do rebanho em Corinto; era uma batalha em favor de princípios infinitamente superiores a isso e o que estava em jogo era algo muito mais significativo do que a reputação de uma pessoa.

Paulo nem sempre foi simpático e gentil com quem propagava falsos ensinamentos da mesma forma que foi como um pai para cristãos que simplesmente ficavam perplexos com a confusão de vozes. Na verdade, não consigo imaginar um exemplo nas epístolas em que a interação de Paulo com falsos mestres foi dominada pela mansidão daquele espírito paternal. Muitas vezes, ele mostrou uma raiva justificada contra eles; escreveu com total desprezo por tudo o que representavam e até os amaldiçoou (Gálatas 1:7,8).

Em sua primeira viagem missionária, logo depois de sair de Antioquia com Barnabé, Paulo fez a primeira parada em sua aventura missionária na Selêucia, em Chipre. Chegando à cidade de Pafos, ele teve seu primeiro encontro registrado com um falso mestre religioso, cujo nome era Elimas Barjesus. Foi assim que Paulo se dirigiu a ele: “Filho do Diabo e inimigo de tudo o que é justo! Você está cheio de toda espécie de engano e maldade. Quando é que vai parar de perverter os retos caminhos do Senhor? Saiba agora que a mão do Senhor está contra você, e você ficará cego e incapaz de ver a luz do sol durante algum tempo” (Atos 13:10,11). Deus confirmou a postura agressiva de Paulo por meio de um juízo milagroso contra Elimas. “Imediatamente vieram sobre ele névoa e escuridão, e ele, tateando, procurava quem o guiasse pela mão” (v. 11). O que provocou essa confrontação agressiva? Os riscos eram muito grandes, porque Sergius Paulus estava ouvindo o evangelho e sua alma estava em jogo. Em qualquer caso como esse, a estratégia direta e severa de lidar com um mestre visivelmente falso é, na verdade, preferível a uma demonstração fingida de aprovação e fraternidade (2 João 10,11; cf. Salmo 129:5-8; 2 Timóteo 3:5).

Paulo, sem dúvida, foi justo com seus adversários no sentido de nunca deturpar o que eles ensinavam nem dizer mentiras sobre eles. Mas Paulo claramente reconheceu os erros deles por causa do que eram e deu-lhes nomes apropriados. Ele falou a verdade. Em seu estilo de ensino diário, Paulo falava a verdade com mansidão e com a paciência de um pai amoroso. Mas quando as circunstâncias justificavam um estilo mais forte de franqueza, Paulo conseguia falar de um modo muito direto — às vezes, até com um sarcasmo áspero (1 Corintios 4:8-10). Como Elias (1 Reis 18:27), João Batista (Mateus 3:7-10) e até Jesus (Mateus 23:24), ele também era capaz de fazer uso de escárnios de modo convincente e apropriado para ressaltar o caráter de ridículo do erro sério (Gálatas 5:12). À maneira de Moisés e Neemias, ele apontava coisas que os outros tomavam como vacas sagradas.

Paulo não parecia sofrer da mesma ansiedade excessivamente escrupulosa que leva tantas pessoas, hoje, a encobrir todo erro até onde a linguagem permitir, supor que até o mais repulsivo dos falsos mestres esteja dizendo a verdade e atribuir as melhores intenções possíveis até ao mais grosseiro dos hereges. A ideia de “mansidão” do apóstolo não era o tipo de falsa benevolência e distinção artificial que as pessoas, hoje, às vezes acreditam ser a verdadeira essência dos atos de caridade. Nunca o vimos chamando para o diálogo os falsos mestres ou os que casualmente se metiam a induzir ao erro religioso, nem ele aprovava essa estratégia quando alguém da esta- tura de Pedro sucumbia ao medo do que os outros poderiam pensar e demonstrava uma consideração exagerada pelos falsos mestres (Gálatas 2:11-14). Paulo definiu os limites da amabilidade santa e da hospitalidade cristã de um modo muito parecido com o do apóstolo João.

Quando falsos mestres pedirem refúgio sob o guarda-chuva da comunhão de vocês, João disse, não deem a mínima atenção: “Todo aquele que não permanece no ensino de Cristo, mas vai além dele, não tem Deus; quem permanece no ensino tem o Pai e também o Filho. Se alguém chegar a vocês e não trouxer esse ensino, não o recebam em casa nem o saúdem. Pois quem o saúda torna-se participante das suas obras malignas” (2 João 9-11).

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Extraído de "A Outra Face", por John MacArthur
Reforma Radical

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