Conhecer e ser Conhecido - J. I. Packer

Conhecer e ser Conhecido - J. I. Packer
Para  que  fomos  feitos?  Para  conhecer  a  Deus.  Que  alvo  devemos  estabelecer para nós na vida? Conhecer a Deus.  O que é a "vida eterna" dada por Jesus? O conhecimento  de  Deus.  "Esta  é  a vida  eterna:  que  te  conheçam,  o  único  Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17:3).

Qual é a melhor coisa na vida, que traz alegria, prazer e contentamento acima de  todas  as  outras?  O conhecimento  de  Deus.  "Assim  diz  o  SENHOR:  'Não  se glorie  o  sábio  em  sua  sabedoria  nem o  forte  em  sua  força  nem  o  rico  em  sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o SENHOR" (Jr 9:23, 24a).

Das  situações  em  que  Deus  vê  o  homem,  qual  lhe  dá  mais  prazer?  O conhecimento  dele.  "... quero  [...]  conhecimento  de  Deus,  mais  do  que holocaustos", diz Deus (Os 6:6; RA). Dissemos muitas  coisas  nestas  poucas  sentenças.  O  ponto  que  queremos evidenciar  é  aquele  que  aquece o  coração  de  cada  cristão,  embora  o  adepto  da religião  apenas  formal  não  seja  afetado  por ele.  (Justamente  por  este  fato evidencia  sua  condição  não-regenerada.)  O  que  dissemos proporciona instantaneamente o alicerce, a forma e o alvo de nossa vida, além de um princípio de prioridades e uma escala de valores.

Uma vez que você se convença de que a principal razão de sua estada aqui é conhecer a Deus, muitos dos problemas da vida se enquadrarão  devidamente. O mundo  está  cheio  de  vítimas  do  mal devastador  que  Albert  Camus denominou absurdismo ("a vida é uma piada sem graça") e da doença que chamaremos "febre de Maria Antonieta" ("nada tem gosto"), já que foi ela que encontrou essa frase para descrevê-la.

Essas  enfermidades  prejudicam  toda  uma  vida:  tudo  de  repente  se  torna  um problema e  um aborrecimento, porque nada parece valer a pena. Mas os vermes do absurdismo e a "febre de Maria Antonieta" são doenças às quais, pela própria natureza, o cristão  está imune, exceto por momentos ocasionais de perturbação, quando o poder da tentação deforma-lhe a mente; mas estes, graças a Deus, não duram muito.

O que dá valor à vida é ter um grande objetivo, alguma coisa que prenda nossa imaginação e conserve nossa fidelidade; e isto o cristão tem como ninguém. Pois haverá objetivo mais alto, mais exaltado e mais estimulante que conhecer a Deus? 

De outro ponto de vista, entretanto, ainda não dissemos muita coisa. Quando falamos  sobre conhecer a  Deus,  usamos  uma  fórmula  verbal,  e  as  fórmulas  são como  cheques,  não  têm  nenhum  valor a  menos  que  saibamos  como  sacá-los. Sobre o que falamos ao usar a expressão conhecer a Deus? Sobre certo tipo de emoção? Arrepios na espinha? Um sentimento irreal, como em um sonho? A sensação de entorpecimento e euforia procurada pelos viciados em drogas? Ou conhecer  a  Deus  é um  tipo  de  experiência  intelectual?  Ouvimos  vozes?  Temos visões? Pensamentos estranhos começam a passar pela mente? Ou o quê? Estes assuntos devem ser discutidos especialmente porque, segundo as Escrituras, trata-se de uma área na qual é fácil ser enganado, e às vezes se pensa conhecer a Deus quando isso não é verdade. Perguntamos então: que tipo de atividade, ou acontecimento pode ser propriamente descrito como "conhecer a Deus"?

O QUE O CONHECIMENTO DE DEUS ENVOLVE
Logo de início está claro que  "conhecer" a  Deus é necessariamente um  assunto mais complexo que "conhecer" uma pessoa, assim como "conhecer" meu vizinho é mais complexo que "conhecer" uma casa, um livro ou uma língua. Quanto mais complexo o assunto, mais difícil é obter conhecimento sobre ele. Conhecer algo inanimado,  como  o  Ben  Nevis ou  o  Museu  Britânico,  é  possível mediante  a inspeção e a exploração. Essas atividades, embora exigentes em termos de esforço 

concentrado, são relativamente fáceis de descrever.

Quando  se  trata,  porém,  de  coisas  vivas,  conhecê-las  se  torna  muito  mais complicado. Não se conhece realmente algo vivo enquanto não se souber, além da história  passada,  como  costuma reagir  e  se  comportar  em  certas  circunstâncias. Uma pessoa que diz "Eu conheço  este cavalo" normalmente não  está indicando apenas  que  "já  o  viu  antes"  (embora  possa  ter  só  esse significado).  O  mais provável, entretanto, é que a pessoa queira dizer: "Conheço o comportamento dele e posso dizer-lhe como deve ser conduzido". Tal conhecimento só ocorre depois de algum contato anterior com o cavalo, vendo-o em ação e tentando conduzi-lo.

No  caso  de  seres  humanos,  a  situação  é  mais  complicada  ainda,  porque, diversamente  dos cavalos,  as  pessoas  fazem  segredo  e  não  mostram  aos  outros tudo  o  que  lhes  vai  no  coração. Poucos  dias  são  suficientes  para  conhecer completamente um cavalo, mas você pode passar meses e anos convivendo com outra  pessoa  e  ainda  dizer:  "Eu  realmente  não  a  conheço  bem". Reconhecemos graus de conhecimento acerca de nossos semelhantes; nós os conhecemos "bem", "não muito bem", "só nos cumprimentamos", "intimamente" ou "pelo avesso", de acordo com o grau de abertura deles para conosco.

Assim, a qualidade e a extensão de nosso conhecimento sobre outras pessoas depende mais delas que de nós. Nosso conhecimento é mais o resultado  da  permissão  para  que  as  conheçamos  que  de nosso  esforço  nesse sentido. Quando nos encontramos, devemos dar-lhes nossa atenção e demonstrar interesse, manifestando boa vontade e nos abrindo de maneira amigável. A partir desse ponto,  entretanto,  são  as  outras  pessoas  que  decidem  se  vamos  chegar  a conhecê-las ou não.

Imagine agora que seremos apresentados a alguém que sentimos ser "superior" a  nós,  quer  em posição,  distinção  intelectual,  habilidade  profissional,  santidade pessoal quer de outro modo qualquer. Quanto mais consciência tivermos de nossa inferioridade  maior  será  a  sensação  de  que nosso  papel  é  apenas  ouvir respeitosamente e deixar que a pessoa tome a iniciativa da conversa.

(Pense em um  encontro  com  a  rainha  da  Inglaterra  ou  com  o  presidente  do  Brasil.) 

Gostaríamos  de  conhecer  pessoas  assim  importantes,  mas  sentimos  que  isso depende mais da decisão delas que da nossa. Se elas se restringirem ao protocolo, não  poderemos  reclamar,  ainda que  fiquemos  desapontados,  pois,  afinal,  não tínhamos nenhum direito a sua amizade. Mas  se,  ao contrário,  elas  começarem  a  fazer  confidências  e  a  falar francamente o que pensam sobre assuntos comuns, se nos convidarem para algum programa  particular  que  tenham  planejado e pedir que estejamos permanentemente disponíveis para esse tipo de colaboração sempre que precisarem  de nós, então nos sentiremos tremendamente  privilegiados  e  nossa perspectiva mudará completamente.

Se a vida até então parecia sem importância e monótona, não o será mais,  agora que  essas grandes personagens nos incluíram entre seus assistentes pessoais. Que grande novidade para transmitir à família — e uma boa razão pela qual viver!

Respeitadas  as  diferenças,  esta  é  uma  ilustração  do  que  significa  conhecer a Deus. O poderoso e justo Deus disse por meio de Jeremias: "mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me..." (Jr 9.24a) — pois conhecer a Deus é um relacionamento capaz de fazer vibrar o coração humano.

O  que  acontece é  que  o  Criador  todo-poderoso, o Senhor dos  Exércitos,  o grande  Deus diante de quem  as  nações  são  como  uma  gota  no  oceano,  se aproxima  de  você  e  começa  a  falar-lhe por  meio  das  palavras  e  verdades  das Sagradas  Escrituras.  Talvez  você  já  conheça  a  Bíblia  e as  verdades  cristãs  há muito  tempo, mas não tenham muito significado. Um dia, porém, você desperta para o fato de que Deus está realmente falando com você — você! — por meio da mensagem  bíblica.  Enquanto  você  ouve  as  palavras  de  Deus,  sente-se  cada  vez mais diminuído, pois Deus lhe fala sobre seu pecado, sua culpa e sua fraqueza, sua cegueira e sua insensatez e o leva a considerar-se sem esperança e indefeso, e a implorar por perdão.

Mas  isto  não  é  tudo.  À  medida  que  ouve,  você  compreende  que  Deus  está realmente lhe abrindo o coração  dele, tornando-se seu amigo e aceitando-o como companheiro  —  segundo  a expressão  de  Barth,  um  parceiro  da  aliança.  É  um fato desconcertante, mas verdadeiro  —  o relacionamento em que seres humanos pecaminosos conhecem  a Deus é tal que Deus,  por assim dizer,  os aceita como seus  assistentes  para  serem  daí  por  diante  seus  cooperadores  (v.  1Co 3:9) e amigos  pessoais.  O  ato  divino  de  tirar  José  da  prisão  e  torná-lo  primeiroministro  do  Faraó ilustra  o  que  ele  faz  com  todo  cristão:  de  prisioneiro  de Satanás, vê-se transferido a uma posição de confiança a serviço de Deus. Sua vida é transformada imediatamente.

A  diferença  entre  sentir  orgulho  ou  vergonha  da  condição  de  servo  depende daquele a quem se serve. Muitas pessoas falaram do orgulho de prestar serviços pessoais a sir Winston Churchill na Segunda Guerra Mundial. Quão maior deveria ser o orgulho e a glória de conhecer e servir ao Senhor do céu e da terra!

O  que  então  está  contido  no  ato  de  conhecer  a  Deus?  Juntando  os  vários elementos  incluídos neste  relacionamento,  já  delineados,  podemos  dizer  que  o conhecimento de Deus envolve inicialmente o ato de ouvir a Palavra de Deus e recebê-la de acordo com a interpretação do Espírito Santo ao aplicá-la a nós. Em segundo lugar, prestar atenção à natureza e ao caráter de  Deus revelados em sua Palavra e obra; em terceiro lugar, aceitar seu convite e obedecer a suas ordens e, em quarto  lugar,  reconhecer  o  amor  demonstrado  por  Deus  e  alegrar-nos  nele. Com isso, o Senhor se aproxima de nós e nos atrai para sua divina companhia.

CONHECER JESUS

A Bíblia complementa essas idéias usando figuras e analogias. Ela nos fala que conhecemos a Deus como o filho conhece seu pai, a esposa seu marido, o súdito seu  rei  e  a  ovelha  seu  pastor  (estas são  apenas  quatro  das  muitas  analogias usadas). Todas mostram a relação em que o conhecedor "procura" aquele que é conhecido,  e  este  se  responsabiliza  pelo  bem-estar  daquele.  Isto  faz parte do conceito  bíblico  de  conhecer  a  Deus;  os  que  o  conhecem  —  isto  é,  os  que  ele permite que o  conheçam  —  são  amados  e  cuidados  por  ele.  Falaremos  mais adiante sobre este assunto.

A  Bíblia  acrescenta,  então,  outro  ponto:  só  podemos  conhecer  a  Deus  deste modo,  mediante  o conhecimento  de  Jesus  Cristo,  que  é  Deus  manifestado  na carne: "... não me conhece ...? ... Quem me vê, vê o Pai", "Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim" (Jo 14:9,6). É importante, portanto, que tenhamos bem claro na mente o que significa conhecer Jesus Cristo!

Para  os  discípulos  que  conviveram  com  Jesus,  conhecê-lo  era  diretamente comparável ao conhecimento do grande homem de nossa ilustração. Os discípulos eram simples galileus, sem nenhuma razão  especial de interesse por Jesus. Mas Jesus, o mestre que falou com autoridade, o profeta que era mais do que profeta, o Senhor que despertou neles crescente respeito e devoção até que o reconheceram como seu Deus, os encontrou, chamou-os a si, confiou neles e os designou como seus  agentes  para  proclamar  ao  mundo  o  Reino  de  Deus.  "Escolheu  doze, designando-os apóstolos, para que estivessem com ele, os enviasse a pregar" (Mc 3:14). Eles reconheceram quem os havia escolhido e chamado de amigos como "o Cristo,  o  Filho  do  Deus  vivo"  (Mt  16:16),  o homem  nascido  para  ser  rei, o portador das "palavras de vida eterna" (Jo 6:68). O senso de lealdade e privilégio que este conhecimento trouxe transformou completamente a vida deles.

Quando  o  Novo  Testamento  fala  que  Jesus  Cristo  ressuscitou,  um  dos significados  desta declaração  é  que  a  vítima  do  Calvário  está  agora,  por  assim dizer, livre. Qualquer pessoa, em qualquer lugar pode desfrutar do mesmo tipo de relacionamento com ele que os discípulos tiveram durante o tempo em que viveu entre nós.

As únicas diferenças são estas: primeira, sua presença entre os cristãos não é física, mas espiritual e, portanto, invisível aos olhos físicos. Segunda, baseado no testemunho do Novo Testamento, o cristão, desde o início, sabe as verdades sobre a divindade e o sacrifício de Jesus que os primeiros discípulos foram aprendendo gradualmente  no  decorrer  dos  anos.  Terceira,  Jesus  não  fala  agora  conosco mediante palavras novas, mas aplica a nossa consciência suas palavras registradas nos evangelhos, junto com todo o testemunho bíblico a seu respeito.

Conhecer Jesus permanece uma relação definida de discipulado pessoal, como o foi para os doze quando ele estava na terra. O Jesus que anda pelas histórias do Evangelho também anda com os cristãos agora, e conhecê-lo significa seguir com ele, tanto agora como antes. "As minhas ovelhas ouvem a minha voz", diz Jesus, "eu as conheço, e elas me seguem" (Jo 10:27). Sua "voz" é sua afirmação, sua promessa e seu chamado: "Eu sou o pão da vida [...] a porta das ovelhas [...] o bom pastor [...] a ressurreição" (Jo 6:35; 10:7,14; 11:25). "... Aquele que não honra o Filho, também não honra o Pai que o enviou. Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna..." (Jo  5:23b,  24a). "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim [...] e vocês encontrarão descanso..." (Mt 11:28,29).

A voz de Jesus é "ouvida" quando sua afirmação é reconhecida, quando cremos em sua promessa e respondemos a seu chamado. Desse momento em diante, Jesus passa a ser conhecido como pastor, e os que confiam nele são  reconhecidos por ele como suas ovelhas. "[...] eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e  elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão" (Jo 10:27,28). Conhecer a Jesus é ser salvo por ele do pecado, da culpa e da morte, nesta vida e na vida futura.

UMA QUESTÃO PESSOAL
Recordando agora o que foi dito sobre o significado de "que te conheçam, o único Deus  verdadeiro, e  a  Jesus  Cristo,  a  quem  enviaste",  podemos  destacar  os seguintes pontos:
Primeiro, conhecer a Deus é  uma  questão  pessoal,  como  acontece  com qualquer relacionamento humano.  Conhecê-lo  é  mais  que  obter  conhecimento sobre ele; é relacionar-se com ele enquanto se revela a você; é ser dirigido por ele à medida que toma  conhecimento de você. Conhecê-lo é uma precondição para confiar nele ("E como alguém pode ter fé no Senhor se não ouvir falar dele?" [Rm 10:14;  VFL]),  mas  a  extensão  de  nosso  conhecimento  a  seu  respeito  não  pode servir de medida para a profundidade desse conhecimento.

John  Owen e  João  Calvino sabiam  mais  teologia  do  que  John  Bunyan  ou Billy Bray, mas quem poderá negar que os últimos conheciam seu Deus tão bem quanto os primeiros? (Os quatro, é claro, eram profundos pesquisadores da Bíblia, o que vale mais que qualquer conhecimento teológico). Se o fator decisivo fosse o conhecimento  da  doutrina,  naturalmente  os  maiores  estudiosos  da  Bíblia conheceriam a Deus melhor que os outros. Mas não é isso o que acontece; você pode guardar na mente a doutrina correta, sem jamais provar em seu coração suas realidades. O simples leitor da Bíblia e ouvinte de sermões cheio do Espírito Santo desenvolverá um relacionamento mais profundo com seu Deus e Salvador que  o  estudioso  mais  erudito  que  se  contenta  apenas  por  estar teologicamente correto. A razão disto é que o primeiro entrará em contato com Deus a respeito da aplicação  prática  da  verdade  em  sua  vida,  enquanto  o  último  não  terá  essa preocupação.

Segundo,  conhecer  a  Deus  é  uma  questão  de  envolvimento  pessoal  que abrange a mente, a vontade e os sentimentos. Caso contrário, não seria um relacionamento  completo  de  fato.  Para conhecer  outra  pessoa  você  precisa envolver-se  com  seus  interesses,  procurar  sua  companhia  e estar  pronto  a  se identificar  com  suas  preocupações.  Sem  isso  seu  relacionamento  com  ela será apenas  superficial  e  insípido.  "Provem,  e  vejam  como  o  SENHOR  é  bom",  diz  o salmista (Sl 34:8). "Provar", como bem sabemos, é "experimentar" um pedaço de alguma coisa com a intenção de apreciar o sabor. Um prato pode parecer delicioso e ser bem recomendado pelo cozinheiro, mas não saberemos suas reais qualidades enquanto não o provarmos.

Do mesmo modo não conheceremos as  reais qualidades de  alguém enquanto não  tivermos "experimentado"  sua  amizade.  Os  amigos  estão,  figuradamente, comunicando  sabores  um  ao outro  todo  o  tempo,  seja  quando  compartilham atitudes (pense  nas pessoas que se amam) seja em relação a interesses comuns. À medida  que  abrem  o  coração  um  ao  outro,  pelo  diálogo  ou pelas ações,  um "prova"  as  qualidades  do  outro,  na  alegria  ou  na  tristeza.  Eles  se  identificaram com as preocupações mútuas, envolvendo-se, portanto, pessoal e emocionalmente nelas.  Sentem  e pensam  um  no  outro.  Trata-se  de  um  aspecto  essencial  do conhecimento  entre  amigos,  e  o mesmo  se  aplica  ao  conhecimento  do  cristão sobre  Deus,  o  qual,  como  já  vimos,  é  em  si mesmo  um  relacionamento  entre amigos.

O  lado  emocional  do  conhecimento  de  Deus  tem  sido  constantemente desestimulado  nos últimos  tempos,  por  medo  de  desenvolver  uma  introversão piegas.  É  verdade  que  não  existe nada  mais  irreligioso  que  a  religião ensimesmada. É preciso salientar constantemente que Deus não existe para nosso conforto,  nossa  felicidade,  nossa  satisfação,  ou  para  nos  proporcionar "experiências religiosas", como se isso fosse o mais interessante e importante na vida.

É  necessário  também  destacar  que  se  qualquer  pessoa,  baseando-se  em "experiências religiosas",  disser:  '"Eu  o  conheço',  mas  não  obedece  aos  seus mandamentos,  é  mentiroso,  e  a verdade  não  está  nele"  (1Jo  2:4;  cf.  v.  9,11; 3:6,11; 4:20). Mas, apesar de tudo isso, não devemos desprezar o fato de que o conhecimento de Deus é uma relação emocional, assim como intelectual e volitiva, e não seria de fato um relacionamento profundo entre duas pessoas se não houvesse emoção.

O cristão é, e deve ser, emocional-mente envolvido nas vitórias e vissicitudes da causa de Deus  no mundo, como os auxiliares imediatos de  sir  Winston Churchill estavam envolvidos com as oscilações da guerra. O  cristão  se  alegra  quando  Deus  é  honrado  e  vindicado  e  sente  profunda angústia quando o vê escarnecido. Quando Barnabé chegou a Antio-quia "vendo a graça de  Deus, ficou alegre" (At 11:23), ao  contrário do salmista, que escreveu "Rios de lágrimas correm dos meus olhos, porque a tua lei não é obedecida" (Sl 119:136).  Do  mesmo  modo,  o  cristão  sente  vergonha e tristeza quando  se convence de ter negado seu Senhor (v., p. ex.: Si 51 e Lc 22:61,62), e de tempos em tempos conhece enlevos de alegria quando Deus de alguma maneira lhe faz sentir  a  glória  do seu  eterno  amor  com  o  qual  tem  sido  amado  ("vocês  estão cheios de uma alegria radiante que não pode ser descrita com palavras", lPe 1:8; VFL).

Este  é  o  lado  emocional  e  experimental  da  amizade  com  Deus.  Por  mais verdadeiros que sejam os pensamentos do ser humano sobre Deus, se ele ignorar essa parte emocional, na realidade, não conhece o Deus que lhe ocupa a mente. Em terceiro lugar,  conhecer a Deus é uma questão de graça.  Trata-se de um relacionamento cuja iniciativa pertence completamente a Deus  —  como deve ser mesmo,  pelo  fato  de  ele  estar  tão  acima  de  nós  e  de  termos  perdido  totalmente qualquer direito  a  seu  favor  por  causa  de  nossos  pecados.  Nós  não  fazemos amizade com Deus; ele se torna nosso amigo levando-nos a conhecê-lo e tornando seu amor conhecido por nós. Paulo expressa esta idéia da prioridade da graça em nosso  conhecimento  de  Deus  quando  escreve  aos  gálatas: "Mas  agora, conhecendo  a  Deus,  ou  melhor,  sendo  por  ele  conhecidos"  (Gl  4:9).  O  que transparece nesta frase é a compreensão por parte do apóstolo de que a graça veio primeiro e permanece fundamental na salvação dos leitores dele.

O conhecimento de Deus era  conseqüência  de ter  Deus  tomado  conhecimento  deles.  Eles  o conhecem pela fé porque ele os havia escolhido primeiro pela graça. "Conhecer", quando usada em relação a Deus, é uma palavra da graça soberana e  mostra  que  ele  tomou  a  iniciativa  de  amar, escolher,  redimir,  chamar  e preservar. Que Deus está perfeitamente consciente a nosso respeito, "conhecendonos pelo avesso" por assim dizer, é com certeza parte do significado, como se vê pelo contraste  entre  nosso  conhecimento  incipiente  de  Deus  e  seu  perfeito conhecimento sobre nós em 1Coríntios 13:2; mas não é o significado principal, pois este realmente surge nas passagens que se seguem: O  SENHOR  disse  a  Moisés  [...]  porque  tenho  me  agradado  de  você  e  o conheço pelo nome (Êx 33:17).

Antes de formá-lo [Jeremias] no ventre  eu  o  escolhi;  antes  de  você nascer, eu o separei (Jr 1:5). Eu sou o bom pastor;  conheço as minhas ovelhas,  e elas me conhecem [...]  e  dou  a  minha  vida pelas  ovelhas  [...]  As  minhas  ovelhas  ouvem  a minha voz; eu as conheço [...]  jamais perecerão (Jo 10:14,15,27,28). Aqui o conhecimento de Deus sobre os seus está associado ao propósito da graça salvadora.  É  um  conhecimento  que  implica  afeição  pessoal,  ação  redentora, fidelidade  à aliança e  proteção  providencial  para  os  conhecidos  de  Deus.  Em outras  palavras,  isto  implica salvação, agora  e  para  sempre,  como  já  aludimos anteriormente. 

SER CONHECIDO

Portanto, o que importa realmente, em última análise, não é o fato de que conheço a Deus, mas uma ideia muito mais ampla está subentendida  —  o fato de que  ele me conhece.  Estou gravado nas palmas de sua mão, e nunca estou longe de seu pensamento. Todo o meu conhecimento dele depende de sua iniciativa contínua de  me  conhecer.  Eu  o  conheço  porque  ele  me  conheceu  primeiro  e continua  a fazê-lo.  Ele me conhece como amigo —  alguém que me ama muito e cujos olhos e atenção  jamais  se  afastam  de  mim.  Por  nenhum  momento  seu  cuidado  me faltará.

Estamos  falando  de  um  conhecimento  significativo.  Há  um  conforto indescritível  —  o tipo de conforto que nos estimula, seja dito, e não debilita  — em saber que Deus está constantemente atento a mim com amor, e velando por mim  para  meu  benefício.  Há  um  alívio  tremendo  em  saber  que seu  amor  é profundamente realista. Cada ponto baseia-se no conhecimento prévio do que  há de pior sobre mim, de modo que agora nada pode desapontá-lo a meu respeito  — como  acontece  muitas vezes  comigo,  pois  estou  sempre  me  desiludindo  sobre mim mesmo —, nem extinguir sua determinação de me abençoar.

Há, certamente, grande motivo de humilhação em pensar que ele vê tudo o que há de errado em mim que outros não vêem (e isto me alegra!), e que ele vê mais corrupção do que eu mesmo vejo em mim (o que, em sã consciência, é bastante). Há,  entretanto,  igualmente  um  grande  incentivo  para adorar  e  amar  a  Deus porque,  por  alguma  razão  insondável,  ele  me  quer  por  amigo,  e  quer ser  meu amigo,  pois  entregou  seu  Filho  para  morrer  por  mim  a  fim  de  cumprir  esse propósito.

Não podemos desenvolver essas idéias aqui, mas sua simples menção já basta para mostrar  como é importante saber não apenas que conhecemos a Deus, mas que ele nos conhece.

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Extraído de "O Conhecimento de Deus", por J. I. Packer