O CARÁTER DO PASTOR - Richard Baxter

O CARÁTER DO PASTOR - Richard Baxter
Tendo sido dada uma incumbência bíblica para todos, concentremo-nos nas maneiras de ser e de agir do pastor. Podemos esboçar doze características da maior importância.

1. Pureza dos motivos
A obra ministerial deve ser realizada exclusivamente para Deus e pela salvação do Seu povo. Jamais poderá ser realizada visando a algum lucro particular nosso. Um motivo errado que visa um objetivo errado pode muito bem arruinar todo o ministério, por melhor que seja em si mesmo. Sim, pois, neste caso estará servindo a nós mesmos, e não a Deus. Sem abnegação, nem por uma hora ele poderá servir a Deus. Sem abnegação, nem por uma hora ele poderá servir a Deus.

A abnegação é essencial
O interesse próprio é uma escolha infeliz e contraproducente. Assim, a abnegação, a autonegação, é absolutamente necessária a todo cristão. Mas é duplamente necessária ao ministro do evangelho, porque é seu dever ter redobrada santificação e dedicação a Deus. Sem abnegação, nem por uma hora ele poderá servir a Deus. Árduos estudos, muito conhecimento e pregações excelentes são mais gloriosos, mas também são pecados de hipocrisia quando feitos para a nossa própria glória. A assertiva de Bernardo de Claraval é de conhecimento geral: “Há os que adquirem conhecimento pelo valor do conhecimento — e isto é vaidade de baixo nível. Mas há os que desejam tê-lo para edificar outros — e isto é amor. E há outros que o desejam para que eles mesmos sejam edificados — e isto é sabedoria” (Cantares de Salomão, 26)

2. Diligência e trabalho duro
A obra do ministério deve ser realizada com muita diligência e esforço, pois ela é de infinita importância para os outros e para nós mesmos. Nossa tarefa é livrar-nos e as outros da tentação, dominar o diabo, destruir o seu reino e edificar o reino de Deus. É nosso dever ajudar outros a alcançar a glória eterna. São trabalhos imensos que temos que realizar; daí, como fazê-los com mãos e mentes descuidadas. Vejamos, então, que sejam feitos com toda a diligência. Estudemos estrenuamente, pois o poço de conhecimentos espirituais é fundo, e nossos cérebros são rasos.

Ponham em prática o que pregam
Empenhem-se especialmente em pôr em prática e exercitar o seu conhecimento. Que as palavras de Paulo retinem continuamente em seus ouvidos: “pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o Evangelho! ” (1 Coríntios 9:16). Considerem, então, o que está em suas mãos — pois se eu não me mover ativamente, Satanás poderá prevalecer, caso em que o evangelho perecerá para sempre, e o sangue do meu próximo será requerido de mim. Como diz o já citado Bernardo de Claraval, “Os que não se envolvem na obra dos homens, seguramente se envolverão na dos demônios”. E como diz Gregório, o Grande, “Quantos forem os labores que você mostre pelo bem da verdade, outras tantas serão as promessas que poderá esperar”. Pois ninguém jamais sofreu prejuízo por servir a Deus como Ele quer.

3. Prudência e eficiência
Esta obra também deve ser realizada com prudência, com ordem e de maneira sistemática. Deve-se dar leite antes de alimento sólido. Devemos lançar os alicerces, antes de começar a construir. As crianças não devem ser tratadas como se fossem gente adulta. As pessoas devem ser introduzidas num estado de graça antes de se esperar que pratiquem as obras da graça. As obras da conversão, do arrependimento das obras mortas, e da fé em Cristo devem ser ensinadas primeiro, com frequência e de maneira completa. Os mordomos da casa de Deus devem dar a cada um à sua porção, e no devido tempo. Jamais devemos ir além das capacidades do nosso povo, nem devemos ensinar maturidade cristã aos que não aprenderam a primeira lição.

Deem alimentação própria 
Como diz Agostinho,“Se uma criança for alimentada de acordo com as suas forças, será capaz de receber mais nutrição à medida que cresça. Mas, se excedermos ao que um bebê pode receber, suas forças decrescerão, em vez de aumentar”. Gregório também disse: “Assim como não ensinamos às crianças os princípios avançados da ciência, mas primeiro lhes ensinamos o alfabeto e, depois, frases, assim também os doutores da Igreja devem ensinar primeiro às suas igrejas as doutrinas básicas da fé, e só então, e unicamente de maneira graduada, descerrar-lhes as questões mais profundas e misteriosas”. É por isso que a Igreja se preocupa com os seus catecúmenos, antes de os batizar. Isso por não querer pedras brutas no edifício, como João Crisóstomo o assinala numa das suas homilias.

4. Certeza quanto às doutrinas básicas
Devemos também salientar a certeza com que ensinamos as nossas doutrinas básicas. Do restante podemos tratar menos frequentemente. Ensinar Cristo ao nosso povo é ensinar tudo. Portanto, vejamos que cada qual obtenha o céu e tenha conhecimento suficiente para este propósito. Assim, as grandes verdades, comumente reconhecidas, são aquelas pelas quais os homens vivem e são os grandes instrumentos que elevam os seus corações a Deus. São elas que destroem os pecados dos homens. Focalizem, pois, essas verdades centrais, e evitarão pormenores frívolos, enfeites desnecessários e controvérsias sem proveito. Ao invés disso, lembrem-se daquilo que é verdadeiramente necessário. Outras verdades podem ser desejáveis, mas estas precisam ser conhecidas.

Lembrem-se de que são limitados pelo tempo
A necessidade é uma grande planejadora do tempo. Se fôssemos competentes em todas as coisas, poderíamos também dominar a enciclopédia inteira. Mas a vida é curta e nós somos limitados. Assim, a focalização das verdades eternas e do modo como as almas dependem do nosso ensino é de grande valor. Confesso que essas limitações têm determinado o meu horário e as minhas prioridades quanto ao tempo e aos estudos. Elas me ajudam a determinar os livros que devo ler e o texto que devo escolher para o meu sermão. Como disse Xenofonte, “Não há melhor mestre que a necessidade, que ensina tudo com suma diligência”.

Focalizem os pontos essenciais
É por isso que o pregador deve focalizar muitas vezes as mesmas coisas, porque os pontos essenciais são poucos. Portanto, não se deixem tentar pelas novidades. Todavia, devemos rechear os pontos essenciais com as mais variadas expressões. Muitíssimas vezes as controvérsias verbosas e tediosas que nos fazem desperdiçar tanto tempo e que tanto nos perturbam, são feitas de opiniões, e não das verdades essenciais. Como diz Gregório Nazianzeno, “Os pontos essenciais são comuns e óbvios. É com as coisas supérfluas que desperdiçamos o nosso tempo, trabalhando por elas e lamentando que não as conseguimos realizar”. Portanto, os ministros devem estar vigilantes para, pelo bem do seu rebanho, saber quais são as prioridades. Semelhantemente, em seu programa de leitura, vocês não preferirão os autores que dizem a verdade com simplicidade e clareza — e até com rude franqueza — aos que falam com eloquência admirável, mas falsamente? Proponho-me seguir o conselho de Agostinho, quando diz: “Prefiro ter discursos verdadeiros, aos que apenas contêm coisas finas e elegantes. Exatamente como também prefiro ter amigos sábios aos que são apenas elegantes”.

5. Ensino claro e simples
Todo o nosso ensino deve ser tão claro e evidente quanto nos seja possível. Aquele que deve ser compreendido precisa falar à altura dos seus ouvintes. Deve ter como objetivo do seu afã fazer-se compreendido. A verdade ama a luz. É mais bela quando mais transparente, pois é sinal de invejosa inimizade odiar a verdade. É sinal de hipocrisia fazê-lo, fingindo revelá-la.

Falem com simplicidade
Se o seu objetivo não é ensinar, o que estão fazendo no púlpito? E se o seu objetivo é ensinar, por que não falar de maneira que sejam compreendidos? Não há melhor meio de fazer uma boa causa prevalecer do que fazê-la tão claramente, bem como universalmente, e também completamente compreendida quanto possível. Não ser claro mostra que, na verdade, vocês não digeriram bem o assunto. Todavia, a verdade requer capacidade para recebê-la. Assim, alguns não poderiam entender certas verdades, mesmo que vocês as expressassem com a maior clareza possível.

6. Dependência de Deus e docilidade perante os outros
Toda a nossa obra deve ser levada adiante com humilde senso da nossa incapacidade. Precisamos estar numa piedosa e confiante dependência de Deus em todas as coisas. Devemos recorrer a Ele em busca de luz, vida e poder, pois é Ele quem nos envia a trabalhar. Quando sentimos fraca a nossa fé e vemos que os nossos corações vão ficando melancólicos e desajustados face à tão grandiosa obra que nos compete realizar, temos que recorrer ao Senhor que nos envia.

Coloquem-se em profunda dependência do Senhor
É então que perguntamos: “Senhor, enviarás alguém com coração descrente como eu, a persuadir outros a crer? Deverei pelejar diária e zelosamente com os pecadores acerca da vida e da morte eternas, sendo que eu mesmo não tenho verdadeira fé e sinceros sentimentos quanto a estas importantes questões? Vendo-me, Senhor, como estou nu e despreparado para essa obra, prepara-me com os recursos necessários para tal tarefa”. Agostinho fez esta observação: “O pregador deve esforçar-se para ser ouvido com entendimento, com boa vontade e com obediência. Não tenha ele dúvidas de que fará isto, mais com fervorosas orações do que com todo o vigor da sua oratória. Orando por si e por seus ouvintes, ele se disporá a ser um suplicante, antes de ser um mestre. Portanto, ao chegar e ao sair, trate de elevar sua voz a Deus, e faça a sua alma subir em fervorosa aspiração”.

A oração é vital
Como a nossa pregação, a oração também é força motora na realização da nossa obra, pois quem não ora por seu rebanho não lhe pregará poderosamente. Se não persuadirmos Deus a dar-lhes fé e arrependimento, não teremos probabilidade de os persuadir a crer e arrepender-se. Desta forma, Paulo nos dá muitas vezes o seu próprio exemplo, como alguém que ora “dia e noite” por seus ouvintes... Quando os nossos corações não estão em ordem, os deles também não estarão. Se não persuadirmos Deus a ajudar os outros, nosso trabalho será vão.

7. Humildade
Detestem o seu próprio orgulho
Nossa obra deve ser conduzida também com grande humildade. Nós mesmos devemos conduzir-nos com modéstia diante de todos. Quando ensinamos, devemos estar abertos também para aprender de qualquer que nos possa ensinar. Deste modo, ensinamos e aprendemos ao mesmo tempo. Não nos vangloriemos orgulhosamente das nossas pretensões de saber, desprezando os que nos contradizem. Não ajamos como se já tivéssemos chegado ao topo, e os outros tivessem que sentar-se aos nossos pés.

Detestem o seu próprio orgulho
O orgulho é um mal que prejudica os que pretendem levar outros a marchar humildemente para o céu. Portanto, tenhamos cuidado, para não suceder que, tendo conduzido outros para lá, as portas se mostrem estreitas demais para nós mesmos. Ora, se Deus pôs para fora um anjo orgulhoso, tampouco tolerará um pregador orgulhoso. Na verdade, o orgulho está na raiz de todos os outros pecados: a inveja, o espírito belicoso, o descontentamento e todos os obstáculos que impedem a renovação espiritual. Onde há orgulho, todos querem dirigir e ninguém quer seguir ou concordar. Daí, o orgulho é causa de cismas, apostasias, usurpação arrogante e outras formas de imposição. Daí, é causa também do ministério ineficaz de tantos e tantos ministros, que pura e simplesmente são demasiado orgulhosos para aprender. Como Agostinho disse a Jerônimo, “Embora seja mais próprio do idoso ensinar que aprender, também lhe é mais próprio aprender que ficar na ignorância”. A humildade nos ensina a aprender de boa vontade tudo que não sabemos, pois, se quisermos ser mais sábios do que todos, temos que estar dispostos a aprender de todos. Pois aquele que receber de todos será o mais rico.

8. Equilíbrio entre a severidade e a delicadeza 
É preciso haver, igualmente, uma prudente mescla de severidade e delicadeza, tanto na nossa pregação como na nossa disciplina. Cada um deve ser admoestado de acordo com o contexto da personalidade de cada pessoa e da situação em que nos encontramos. Se não houver severidade nenhuma, nossas repreensões serão desprezadas. Se só houver severidade, tomar-nos-ão como dominadores, e não como persuasores da verdade.

9. Espírito zeloso e afetuoso
Também é importante que sejamos sinceramente afetuosos, de intenções sérias e zelosos em todas as nossas exortações públicas ou particulares. A importância daquilo que fomos comissionados a ensinar condenará toda frieza ou sonolenta moleza que podemos ser tentados a tolerar. Portanto, permaneçamos vivamente despertos. Permaneçamos em condições tais que despertemos outros. Sabiamente dizia Gregório: “Devemos ser como o galo. Antes de cantar, ele bate as asas e se golpeia com elas, para ficar mais vigilante. Semelhantemente, os pregadores, quando estão para proclamar a Palavra de Deus em público, primeiramente devem exercitar-se na devoção espiritual”. Tratemos, pois, com muita feição, os nossos ouvintes, agucemos as nossas palavras para penetrarmos até mesmo os seus corações de pedra. Pois falar com frieza e superficialidade das coisas celestiais é muito pior que não dizer nada a ninguém.

10. Reverência
Façamos todo o nosso trabalho reverentemente, como convém aos que têm consciência da presença de Deus. Não ousemos usar as coisas santas como se fossem banalidades. Quanto mais Deus aparecer no meio dos nossos deveres, maior autoridade os homens verão neles, porquanto a reverência é aquele afeto da alma que provém da profunda percepção de Deus. Revela uma mentalidade intimamente versada em Deus. Mas mostrar irreverência para com as coisas de Deus é revelar hipocrisia. Ela mostra que o coração não a concorda de fato com a língua. Quanto mais reverente for o pregador, mais ele falará como se estivesse vendo a face de Deus. Tal homem afetará muito mais profundamente o meu coração — ainda que empregue linguajar bem simples — do que alguém que seja irreverente e apenas fale com eloquência. A transpiração não substitui a inspiração. Portanto, se o calor da palavra não for acompanhado pela reverência a Deus, terá pouco efeito sobre os ouvintes.

Não brinquem nem entretenham superficialmente o auditório
De todas as formas de pregação que muito me desagradam, tenho ojeriza pela pregação que alegra os ouvintes com muitas pilhérias e os entretém com diversão superficial. É como se estivessem fazendo uma representação teatral, em vez de serem temidos pela santa reverência ao caráter de Deus. Escrevendo a Nepociano, disse Jerônimo: “Quando estiver pregando na igreja, não comova excitadamente o povo com um grito, mas faça com que ele cresça aos poucos, porque as lágrimas dos seus ouvintes tenderão para um verdadeiro louvor”. Devemos ver, pois, a realidade do trono de Deus, com suas miríades de anjos em serviço ali. Isto nos manterá em constante temor da Sua majestade, quando nos achegamos a Ele no cumprimento dos nossos santos deveres. É como devemos agir; do contrário, profanaremos o Seu nome e tomaremos o Seu nome em vão.

Deem tom espiritual
Assim, pois, toda a nossa obra deve ser realizada espiritualmente. Devemos realizá-la como homens que se acham diante do Espírito Santo e que provaram as coisas do Espírito de Deus. Nalguns homens há um tom espiritual que os ouvintes piedosos podem discernir e fruir, ao passo que a outros falta esse toque secreto, de modo que, mesmo quando estão falando de coisas espirituais, comportam-se como se estivessem tratando de assuntos triviais. Cuidemos, pois, que tudo que falemos seja espiritual, como proveniente das Escrituras Sagradas, ao passo que aquilo que citamos dos chamados “pais da igreja”, é simplesmente secundário e deve ser citado cautelosamente.

Não desprezem os iletrados
A autoridade de escritores como Aristóteles é até de menor valor, visto que a sabedoria do mundo não deve ser engrandecida em contraste com a sabedoria de Deus. A filosofia deve ser ensinada a inclinar-se diante da fé e a servi-la, enquanto que a fé tem a principal influência sobre as nossas vidas. Os grandes estudiosos da escola de Aristóteles devem ter muito cuidado para não glorificar demasiadamente o seu mestre. Ao mesmo tempo, não desprezem eles os que estão abaixo da sua conquista intelectual. Não desprezem os que lhes são inferiores em sua capacidade intelectual. Sim, pois, enquanto que os intelectualmente dotados podem ser grandes aos olhos dos homens, podem ser os menores no reino de Deus. Um homem mais sábio que qualquer deles declarou que não se gloriava senão em Cristo crucificado. Como disse Gregório, “Deus chamou primeiro os indoutos, e depois os filósofos. Ele não ensinou os pescadores por meio dos mestres da oratória, mas ensinou os mestres da oratória por meio dos pescadores”. As pessoas mais instruídas devem ponderar sobre isto.

Focalizem a Palavra de Deus
Todos os homens têm o seu mérito, mas nenhum se compara com a Palavra de Deus. Não recusemos os seus serviços, mas abominemo-los como rivais da Palavra. É sinal de fraqueza de alma, perder o gosto pela excelência das Escrituras. Há uma natureza comum no coração espiritualmente devotado à Palavra de Deus, porque esta é a semente que frutifica vida nova. A Palavra é o selo que imprime tudo que é santo nos corações dos crentes verdadeiros, pois ela deixa estampada neles a imagem de Deus. Portanto, eles devem assemelhar-se à Palavra e dedicar-lhe alta estima, enquanto viverem. Agostinho fala de “certo seguidor de Platão que dizia que aparte inicial do Evangelho Segundo João deveria ser escrita com letras de ouro e ser colocada nos lugares mais proeminentes de todas as igrejas”. Se um simples pagão pôde dar tanto valor a um trecho que se ajustava ao seu platonismo, quanto mais devemos nós valorizar a Bíblia toda, como vital que é para todo o nosso caráter e interesse cristão! Deus é o melhor mestre da Sua natureza e da Sua vontade.

11. Amorosa preocupação pelo rebanho
Toda a causa do nosso ministério deve ser conduzida com terno amor pelas pessoas do nosso rebanho. Precisamos fazer que vejam que nada nos agrada mais do que aquilo que lhes é proveitoso. Devemos mostrar-lhes que aquilo que lhes faz bem, igualmente nos faz bem. Devemos sentir que nada nos preocupa mais do que aquilo que as fere. Retornando a Jerônimo, diz ele, escrevendo a Nepociano: “Como os bispos não são senhores, mas pais, assim devem incumbir-se do seu povo como de seus filhos. Sim, nem mesmo o mais terno amor da mãe por seu filho deve sobrepujar o deles”. Como afirma Paulo, devemos até sentir “as dores de parto, até que Cristo seja formado” neles (Gálatas 4:19). Nossos filhos na fé devem ver que nós não nos preocupamos com as coisas externas — nem dinheiro, nem crédito econômico, nem liberdade, nem a própria vida — em comparação com a preocupação que temos com a salvação deles. Em vez disso, à semelhança de Moisés, devemos estar dispostos a ter o nosso nome riscado do livro da vida por amor deles, antes que deixá-los perecer e não se acharem no Livro da Vida do Cordeiro.

Sacrifiquem-se; pelos outros
Como o apóstolo João, não devemos ter nossas vidas como preciosas para nós, de modo que possamos achar nossa coroa de alegria na realização da obra de Deus pela salvação deles. Quando o rebanho vir que vocês o amam verdadeiramente, ouvirá o que dizem — dará o que lhe pedirem — e os seguirá com a maior presteza. E quando, por amor, for aberta uma ferida, será aceita mais prontamente do que quando se diz uma palavra grosseira, proferida com ressentimento ou com ira. Muitos julgam o conselho que recebem pelo modo como recebem a afeição do seu conselheiro. Vejam que tenham terno amor pelos membros do seu rebanho, e então eles o sentirão em seus discursos e o verão em seu modo de tratá-los. Façam-nos ver o que vocês passaram e passam por amor deles. Façam-nos ver que tudo o que vocês fazem é para o bem deles, e não para os seus próprios fins. Para esta finalidade, as marcas do caridoso amor são essenciais, na medida do seu bolso, uma vez que palavras ocas dificilmente os convencerão de que vocês têm verdadeiro amor por eles. Quando não puderem dar, mostrem-lhes que de fato estariam dispostos a dar, se pudessem. Mostrem-lhes ao menos algumas ações práticas que evidenciem a sua sinceridade. Como disse Agostinho, em seu comentário do Salmo 103, “Se você pode dar, dê; se não pode, mostre que se preocupa”.

Não sejam mundanos
Assegurem-se de que o seu amor não é carnal, oriundo do orgulho; não seja proveniente de um coração interessado em seu amor próprio, mas de um amigo de Cristo. Cuidado, pois, que não sejam coniventes com pecados secretos, pretextando amor. Assim, a amizade sempre deve ser consolidada pela piedade, pois um homem mau nunca poderá ser um verdadeiro amigo. Se vocês protegerem a iniquidade dos ímpios, mostrarão que vocês mesmos são ímpios. Portanto, não finjam amá-los, se lhes favorecem os pecados e não procuram verdadeiramente a salvação deles. Como dizia Basílio, o Grande: “Somente o santo, como Deus é santo, pode ter amizade verdadeira”. Por sua conivência com os pecados alheios, vocês mostram que estão em inimizade com Deus. Então, como é possível amarem os pecados deles como se fossem irmãos? Pois os pecados deles são os piores inimigos que eles têm. Como vocês poderão ser seus melhores amigos, se ajudam tais inimigos? Assim é que, como os pais corrigem os filhos que eles amam, Deus castiga todos os Seus filhos.

12. Paciência
Finalmente, a duodécima característica pessoal do pastor é a paciência. Temos que suportar muitos abusos e ofensas daqueles a quem estamos fazendo o bem. Depois de termos dado bastante atenção à situação deles, depois de termos orado e suplicado com eles e por eles, depois de os termos enaltecido e de nos termos desgastado por eles, ainda precisamos ter mais paciência com eles. Ainda podemos esperar que, depois de termos olhado por eles como se fossem os nossos próprios filhos, alguns nos rejeitem com escárnio e até nos odeiem e nos desprezem. Lançar-nos-ão desdenhosamente em rosto a nossa bondade e nos verão como seus inimigos. Farão isto simplesmente porque lhes dissemos a verdade. Sim, quanto mais os amarmos, mais nos odiarão

Sejam mansos
Tudo isso tem que ser aceito por nós, e ainda precisamos desejar inabalável e infatigavelmente fazer tudo que for bom para eles. Precisamos persistir em instruir com mansidão os que se opõem aos seus próprios interesses superiores. Deus poderá levá-los ao arrependimento. Mesmo quando eles menosprezarem e rejeitarem o nosso ministério e nos mandarem cuidar da nossa própria vida, devemos continuar cuidando deles com perseverança, desde que estamos tratando de pessoas desnorteadas que rejeitam o seu médico. Não obstante, devemos persistir na busca da sua cura. É deveras indigno o médico que se retira apenas por causa do linguajar tolo dó paciente

Prevejam as reações dos ouvintes
Quando dizemos às pessoas que o homem natural não recebe bem as coisas de Deus, e que elas estão fora de si nas questões referentes à salvação, devemos estar preparados para as suas reações. Não esperemos que os estultos reajam agradecidamente como sábios. Nem todos podemos dizer estas coisas, mas talvez tenhamos que enfrentar más reações dirigidas a nós. Pode suceder que sejamos censurados e caluniados por nosso amor. Pode haver gente disposta a cuspir em nossos rostos, em vez de ser-nos grata por nosso conselho. Todavia, estas são as espécies de provações que temos que aceitar como bons pastores. Servirão para testar-nos e para mostrar-nos se os restos do velho Adão ainda são bastante fortes em nós para fazer que os nossos corações reajam com orgulho e raiva. É o novo homem em Cristo que pode reagir com mansidão e paciência. Como é triste, porém, quando muitos ministros do evangelho fracassam nesta prova!

__________________________________________________
Extraído: O PASTOR APROVADO - MODELO DE MINISTÉRIO E CRESCIMENTO PESSOAL - RICHARD BAXTER
PRIMEIRA PARTE EXAME DE NOSSAS VIDAS PESSOAIS
2. 0 caráteres do pastor e nosso intercâmbio com outros pastores