A Outra Face, por John MacArthur

No entanto, emissários de Satanás que aparentam ser benignos e amavelmente religiosos são comuns. A história de redenção está repleta deles, e a Bíblia sempre adverte sobre esses falsos mestres — lobos ferozes que se vestem de ovelhas, “falsos apóstolos, obreiros enganosos, fingindo-se apóstolos de Cristo. Isto não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Portanto, não é surpresa que os seus servos finjam que são servos da justiça” (2 Corintios 11:13-15).

Fazendo seu discurso de despedida em Éfeso, o apóstolo Paulo disse aos presbíteros daquela jovem, mas já assediada, igreja: “Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos” (Atos 20:29,30, ênfase do autor).

Ele os estava advertindo de que falsos mestres se levantariam não só dentro da igreja, mas que também chegariam despercebidos na liderança da igreja (cf. Judas 4). Isso, sem dúvida, aconteceu em Éfeso, e aconteceu repetidas vezes em cada etapa da história da igreja. Falsos mestres cobrem-se com vestes de Deus. Eles querem que as pessoas acreditem que representam Deus, que o conhecem, que têm discernimento especial da verdade e da sabedoria divinas, mesmo sendo emissários do próprio inferno.

Em 1 Timóteo 4:1-3, Paulo profetizou que a igreja dos últimos dias seria atacada por falsos mestres com uma visão farisaica do ascetismo, a qual usariam como um disfarce para a licenciosidade: “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada e proíbem o casamento e o consumo de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem e conhecem a verdade.”

Observe como as Escrituras dizem enfaticamente que os falsos mestres que gostam de usar o disfarce do falso moralismo e esconder-se sob o pretexto da ortodoxia são maus, mensageiros do diabo, mestres de doutrinas diabólicas. Mais uma vez, nada é mais terrivelmente diabólico do que a falsa religião, e somos advertidos, repetida e explicitamente, a não fazermos pouco caso de falsos ensinamentos, uma vez que eles se parecem muito com a verdade.

Nunca os falsos mestres foram mais agressivos do que durante o ministério terreno do Senhor Jesus Cristo. Foi como se todo o inferno investisse com força total contra Ele durante aqueles três anos. E, sem dúvida, podemos entender isso. Ao opor-se ao evangelho e tentar frustrar o plano de Deus, Satanás liberou tudo o que tinha contra Jesus Cristo, desde seus esforços diretos para tentar Jesus (Mateus 4:1-11; Lucas 22:40-46) a demônios que o confrontaram enquanto fingiam reverenciá-lo (Marcos 5:1-13) — e tudo o que estivesse entre ambas as coisas, incluindo a infiltração de Judas, o falso discípulo, a quem o próprio Satanás influenciou, possuiu e capacitou para cometer o pior ato de traição (Lucas 22:3).

Mas a investida mais séria e prolongada contra Jesus — e a principal campanha de clara oposição que, finalmente, o perseguiu até a cruz — foi o incessante antagonismo dos fariseus, instigado pelo Sinédrio.

Eles, por sua vez, estavam sendo controlados por Satanás. Sem dúvida, estavam cegos para esse fato, mas Satanás os usava como fantoches em sua implacável campanha contra a verdade.

Parece quase impensável que a oposição mais ferrenha a Cristo viesse dos líderes mais respeitados do segmento religioso da sociedade. Mas é verdade. Observe o amplo alcance do ministério terreno de Jesus conforme registrado pelos escritores do evangelho e pergunte: “Quem foram os principais agentes de Satanás que tentaram frustrar a obra de Jesus e opor-se aos seus ensinamentos? De onde veio a principal resistência a Cristo?” A resposta é óbvia. Não foi do submundo criminoso da cultura nem de sua baixa classe secular. Não foi de excluídos da sociedade — coletores de impostos, pessoas desprezíveis, marginais, prostitutas e ladrões. Pelo contrário, os principais emissários e agentes de Satanás foram os mais devotos, os mais santos, os mais respeitados líderes religiosos em todo o Israel — liderados pela mais rígida de todas as suas seitas, os fariseus.

Toda essa estratégia foi, sem dúvida alguma, armada e iniciada pelo próprio Satanás. Na verdade, tudo o que Paulo quer dizer em 2 Corintios 11:14,15 é que o subterfúgio secreto é e sempre foi a principal tática do diabo. Portanto, não deveria nos surpreender o fato de que os inimigos do evangelho sempre foram (e ainda são) mais terríveis quando religiosos. Quanto mais conseguirem convencer as pessoas de que eles fazem parte do círculo da ortodoxia, mais eficientes serão no sentido de corroer a verdade. Quanto mais fundo puderem infiltrar-se na comunidade de verdadeiros cristãos, mais danos poderão causar com suas mentiras. Quanto mais perto conseguirem chegar das ovelhas e ganhar a confiança delas, mais facilidade poderão ter para devorar o rebanho.

______________________________________________________
Apenas um trecho extraído de "A Outra Face", por John MacArthur