Quando eu houver falado sobre a utilidade e propósito da  humilhação, vocês  entenderão  mais do porquê da necessidade dela para vocês mesmos.


1. Um dos usos da humilhação é ajudar na mortificação da carne, ou do “eu” carnal, e aniquilá-la, visto ser esta o ídolo da alma. A natureza do estado pecaminoso e miserável do homem consiste no fato de haver se afastado de Deus, e de estar entregue a si mesmo, vivendo agora para si mesmo, estudando, amando e satisfazendo a si mesmo, ao seu “eu” natural mais do que a Deus. Um pecador se livrará de muitos pecados exteriores e se libertará de obras exteriores antes que venha a se libertar do seu “eu” carnal, e se livre da fortaleza e poder do pecado.

Não há parte da mortificação tão necessária e tão difícil como a autonegação - na verdade, ela virtualmente compreende todo o resto, e se isto for feito, tudo estará feito. Se fosse apenas uma questão dos seus amigos, seus supérfluos, sua casa, suas terras, talvez um coração carnal pudesse abrir mão disso. mas abrir mão da sua vida, do seu tudo, do seu “eu”, é uma palavra dura para ele, e suficiente  para  fazê-lo ir embora  pesaroso. Assim sendo, aqui aparece a necessidade da humilhação; ela coloca todo o fardo sobre o “eu”, e quebra o coração do velho homem, e faz um homem não tolerar a si mesmo, a quem anteriormente amava sobremaneira.

A humilhação transforma esta torre de Babel em pó, e faz com que nos detestemos até o pó e cinzas. Ela toca fogo na casa, na qual confiávamos e nos deleitávamos, diante dos nossos olhos; e nos faz não apenas ver, mas sentir, que é tempo de nos rendermos. O orgulho é o pecado mestre do ímpio, e é parte da humilhação fazê-lo cair por terra. A auto-satisfação é o propósito de suas vidas, até que a humilhação ajude a mudar o curso do rio; e aí, então, se você pudesse ler os pensamentos deles, veria que eles agora se consideram os mais indignos; e se você pudesse ouvir suas orações e lamentos, você os ouviria clamar por si mesmos como se fossem os seus maiores inimigos.

2.  A próxima utilidade da humilhação, e implícita na utilidade anterior, é mortificar aqueles pecados dos  quais o “eu” carnal depende e pelos quais é nutrido, e bloquear todas as avenidas e passagens através das quais eles são supridos. O pecado é doce e querido por todos os que não são santificados; mas a humilhação faz com que se tornem amargos e vis.

Assim como as crianças são dissuadidas de brincar com uma colmeia de abelhas quando são uma ou duas vezes ferradas por elas, ou de brincar com cães bravios quando são mordidas por eles, assim Deus ensina Seus filhos a saberem o que significa brincar com o pecado, quando são golpeados por ele.

Eles  distinguirão  uma  urtiga  de  arbustos  inofensivos  quando sentirem o seu  ardor. Nós  estamos tão  acostumados  a viver pelos sentidos, que Deus considera necessário que nossa fé tenha a ver com os sentidos para ajudá-la. Quando a consciência acusa, o coração sofre, geme de dor, e sentimos que nenhum expediente ou esforço nos livrará disso, então começamos a nos tornar mais sábios do que antes, e a conhecer o que é realmente o pecado, e o que ele nos causa. Quando aquilo que era o nosso 

deleite  se  torna  a  nossa  aflição,  e  uma  aflição  pesada  demais para suportarmos, isto cura o nosso deleite no pecado. Quando Davi estava encharcando o seu leito com lágrimas, e teve que beber delas, o seu pecado não era mais a mesma coisa para ele, como o foi quando o cometeu. 

A humilhação retira a pintura desta prostituta que é o pecado e mostra-a em sua deformidade. Ela desmascara o pecado, o qual assumiu uma máscara de virtude, ou de algo irrelevante, ou de uma coisa inofensiva. Ela desmascara  Satanás,  o  qual  foi  transformado  num  amigo,  ou em um anjo de luz, e revela o seu caráter maligno. Quão difícil é curar um mundano do amor ao dinheiro!

Mas quando Deus coloca tal peso em sua consciência, a ponto de fazê-lo gemer e clamar por socorro, o dinheiro perderá o seu atrativo. Quando ele começa a chorar e gemer por causa das misérias que vêm sobre si, e vê os efeitos da sua riqueza corrupta, e a gangrena do seu ouro e prata começar a comer a sua carne como fogo, e seu ídolo se torna nada menos do que um testemunho contra si, então estará melhor habilitado do que antes para avaliar o pecado. O devasso pensa que tem uma vida feliz quando os lábios da prostituta destilam favos de mel, mas quando ele percebe que o fim dela é amargoso como o absinto, agudo como a espada de dois gumes, que os seus pés descem à morte, e que os seus passos conduzem-na ao inferno, e ele jaz em tristeza, lamentando-se da sua loucura, estará então em mais condições de julgar corretamente do que antes estava.

O manassés humilhado em cadeias não é o mesmo que era quando estava no trono; embora a graça tenha contribuído mais para isso do que seus grilhões, estes foram úteis para este fim. A humilhação abre a porta do coração, e lhe diz o que o pecado faz à  vida,  e  introduz  a  palavra  de  vida,  a  qual não  havia  ainda penetrado além dos ouvidos ou do cérebro.

É um trabalho cansativo falar a homens mortos, os quais perderam os seus sentimentos; especialmente quando se trata de uma doutrina efetiva e prática, a qual devemos lhes comunicar, e que será perdida se não for sentida e praticada. Até que a humilhação opere, nós falamos a homens mortos, ou pelo menos a homens profundamente adormecidos. Quantos sermões eu tenho ouvido que se pensava viriam a transformar os corações dos homens internamente, a fazê-los chorar por causa dos seus pecados, com tristeza e vergonha diante da congregação, levando-os a nunca mais se envolverem com o pecado; e, no entanto, os ouvintes quase que nem foram tocados por eles, mas saíram como vieram, como se não soubessem do que o pregador estava falando, porque os seus corações estavam o tempo todo sonolento dentro deles.

Uma alma humilhada, entretanto, é uma alma despertada. Ela considerará aquilo que é dito; especialmente quando percebe  que  vem  do  Senhor,  e  diz  respeito  à  sua  salvação. É um  grande encorajamento  para  nós  pregar  para  um  homem que tem ouvidos, vida e sentimentos, que recebe a palavra com apetite,  saboreando-a,  engolindo  a  comida  que é  colocada  na sua boca. A vontade é a principal fortaleza do pecado. Se nós pudermos alcançá-la, nós poderemos fazer alguma coisa, mas se ela bloquear o coração, e nós não pudermos chegar mais perto do que o ouvido ou o cérebro, não haverá benefício algum.

A humilhação nos abre uma passagem para o coração, a fim de que possamos tomar de assalto o pecado em seu vigor. Eu lhes falo da natureza abominável do pecado, que causou a morte de Cristo, e leva ao inferno, e que é melhor correr para o fogo do que, de maneira propositada, cometer o menor pecado, embora se trate de algo tal que o mundo nem note. mas, ao lhes falar, se você não for humilhado, pode ouvir tudo isto e superficialmente crer nisso, e dizer que é verdade, mas é a alma humilhada que pode sentir o que lhe está sendo dito. Que luta nós temos com um beberrão, ou com um mundano, ou com qualquer outro  pecador  frívolo,  na  tentativa de  persuadi-lo a abandonar seus pecados com abominação; e tudo com tão pouco resultado! Às vezes ele deseja abandoná-los, mas é tentado a provar do pecado de novo; e assim fica adiando, porque a palavra não se assenhoreou do seu coração. mas quando Deus vem sobre a alma como uma tempestade, arrebentará as portas, e como se fossem relâmpagos e trovões na consciência, apodera-se do pecador e o sacode todo em pedaços com o Seu terror e lhe pergunta: O pecado é bom para ti?

Uma vida carnal e descuidada é boa? Tu, verme desprezível! Tu, tolo pedaço de barro! Ousas abusar de mim face a face? Ignoras que Eu estou te olhando? É esta a obra para a qual continuas vivo? Fora com o pecado, sem mais  delongas, ou jogarei fora a tua alma e te entregarei aos atormentadores. Isto o desperta da sua demora e procrastinação, faz com que veja que Deus tem boa vontade para com ele, e que, portanto, ele deve ter boa vontade para com Deus.

Se um médico tem um paciente amante da comida que sofre da gota ou de pedra nos rins, ou de qualquer outra doença, e lhe proibir do vinho, bebida forte e outros alimentos que deseja, logo que ele se sentir melhor se aventurará a prová-los, e não se sujeitará às palavras do médico; mas, quando for atacado pela doença e sentir o tormento, então se submeterá às prescrições médicas. A dor o ensinará mais efetivamente do que as palavras poderiam fazê-lo. Quando ele sente o que lhe é doloroso, e que aquilo sempre o faz adoecer, ele se reprimirá mais do que faria por atenção às recomendações médicas.

Assim, quando a humilhação quebrar o seu coração e lhe fizer sentir que está doente de pecado, e encher a sua alma com dores agudas e sofrimentos, então você terá mais desejo de que Deus destrua o pecado em você. Quando o pecado pesar sobre você, a ponto de não lhe permitir levantar os olhos, quando fizer com que vá a Deus com gemidos e lágrimas clamando: Oh, Senhor, tem misericórdia de mim porque sou pecador!

Quando você ficar feliz em procurar os ministros para aliviar a sua consciência, encher os ouvidos deles com acusações a si mesmo, e revelar até os pecados mais odiosos e vergonhosos, então você ficará feliz em se desvencilhar dos pecados. Antes disso não adianta lhe falar sobre mortificação e sobre rejeição resoluta dos seus pecados; os preceitos do Evangelho parecerão rigorosos demais para que você se submeta a eles. mas um coração quebrantado mudaria a sua mente.

Um  saudável  lavrador  diria:  “Eu  como  o  que  quero”; “os médicos só querem tirar o nosso dinheiro”; “eu nunca seguirei o conselho deles”. mas quando a enfermidade vier sobre ele, e houver tentado em vão tudo que estava ao seu alcance e a dor não lhe der descanso, e for levado ao médico, então ele fará qualquer coisa, e tomará qualquer remédio que ele lhe der, a fim de que possa ter algum alívio e se recupere.

Assim, quando o seu coração estiver endurecido e não humilhado, estes pregadores e as Escrituras lhes parecerão severos  demais.  O  que  vocês  desejam  realmente  são  ministros afetados e presunçosos, que preguem o que bem quiserem. Vocês nunca acreditarão que Deus concorda com as coisas duras que os ministros fiéis pregam, nem que Deus condenará vocês pelas coisas às quais dispõem seus corações. mas quando aqueles pecados se tornarem como que espadas no seu coração, e você  começar  a  sentir  aquilo  de  que  os  ministros  haviam  lhe alertado, então a sua reação será outra. Portanto, fora com o pecado! Não há nada tão odioso, tão maligno, tão intolerável. 

Oh, se você pudesse se livrar dele, custasse o que custasse! Então você teria por seu melhor amigo aquele que lhe pudesse dizer como matar o pecado, e se livrar dele; e aquele que afastasse você desse amigo lhe seria como o próprio Satanás. A humilhação cava tão profundamente que mina o pecado, e a fortaleza do mal; e quando o alicerce está profundamente enraizado, a humilhação o destroçará.

Quando os assassinos de Cristo tiveram o seu coração golpeado, eles clamaram por um conselho dos apóstolos. Quando um assassino dos santos é jogado cego por terra, e o Espírito, além disso, humilha a sua alma, então ele é levado a clamar: “Senhor, o que tu queres que eu faça?” 

Quando um cruel carcereiro que açoita os servos de Cristo é levado por um tremor de terra a um tremor de coração, ele então clamará: “Que devo fazer para que seja salvo?”

Aqui se manifesta o uso das aflições; e mesmo o porquê delas favorecerem tanto a humilhação: os homens são trazidos à razão em momentos de crise. Quando eles jazem num leito de morte, alguém pode falar-lhes, que eles não vão, tão soberbamente, fazer pouco caso do que lhes é dito, ou escarnecer da Palavra do Senhor, como o fizeram na prosperidade. Deus será mais considerado quando Ele pleitear com eles com uma vara na mão. Os açoites são a melhor lógica e o melhor discurso para um tolo. Quando o pecado leva cativa a razão deles pela carne, o argumento que poderá convencê-los deverá ser tal que a carne seja capaz de entender. A carnalidade brutifica o homem de tal modo que, tornando-se brutos, não são mais as razões mais claras  que  prevalecerão;  e  se  Deus não houvesse mantido no homem corrompido algum resquício de razão, nós pregaríamos aos animais com tanta esperança como pregamos aos homens.

Mas as aflições tendem por enfraquecer o inimigo que os cativa; assim como a prosperidade tende a fortalecê-lo. A carne entende a linguagem da vara melhor do que a linguagem da razão e da Palavra de Deus.

Como a parte sensível da nossa humilhação promove a mortificação, assim a humilhação racional e voluntária, que é própria ao santificado, é a parte principal da mortificação. Assim, como você vê, é necessário que sejamos totalmente humilhados, a fim de que o pecado possa ser plenamente aniquilado em nós.

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Trecho extraído de: "Quebrantamento: espírito de HumilHação", Rev. Richard 
Baxter
Reforma Radical

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