O Evangelho em seu Conceito - Herman Hoeksema

    A Bíblia emprega, com frequência, dois termos que estão proximamente relacionados tanto em seus respectivos significados como, também, em suas sonoridades, no original grego. São os vocábulos espangelia e evangelion, o primeiro significando "promessa," e o segundo "evangelho." Que tais termos são semelhantes em nossas mentes fica evidente com maior razão pela expressão comum, frequentemente usada e empregada pelas nossas confissões, a saber, "a promessa do evangelho". Tal expressão salienta que o evangelho contém uma promessa.

     Entretanto, este relacionamento próximo entre "promessa" e "evangelho" tornar-se ainda mais claro e é visto numa diferente perspectiva, se nos debruçamos sobre a Escritura e descobrimos que, de acordo com ela, o evangelho é verdadeiramente o evangelho da promessa. Isso é diretamente expresso em Gl. 3:8 e em At. 13:32. O primeiro texto diz “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. Observe-se que na última expressão temos a promessa”.

    Agora, de acordo com o texto, quando a promessa foi feita a Abraão, o evangelho foi pregado a ele. O evangelho e a promessa são, assim, identificados desta maneira, ou seja, a entrega da promessa por Deus a Abraão é por si só a pregação do evangelho. No outro texto, At. 13:32-33 lemos “Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a nossos pais como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus ...” Fica evidente que a promessa feita aos pais e cumprida em nós, seus filhos, é a mesma que está mencionada em Gálatas 3. Aqui fica igualmente claro que, da mesma forma que na passagem anterior, o apóstolo fala sobre a promessa, como sendo a pregação do evangelho, ou a proclamação das boas novas. O evangelho é, então, em sua essência, de acordo com seu conceito, o evangelho da promessa, e, neste sentido, chamamos a sua atenção, leitor, a fim de que tal evangelho seja divulgado em concordância com a verdade da Escritura.

    Muito frequentemente, a Bíblia fala da promessa. Algumas vezes, refere-se a ela no plural, para expressar as riquezas de suas implicações. Contudo, mais amiúde, ela fala no singular para denotar unidade e identidade, mas sempre é a mesma promessa: a promessa que é feita a Abel, a Enoque, a Noé, a Abraão, Isaque e Jacó. Assim, por mencionar estes santos da antiga dispensação, e tendo falado de suas vidas e suas mortes, ou arrebatamento pela fé, o capítulo 11 de Hebreus nos diz no versículo 13 “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra”. E tendo revisto a vida e a batalha pela fé de muitos que formam a nuvem de testemunhas, incluindo-os todos em sua visão, o autor da carta aos Hebreus finalmente afirma no versículo 39 “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa ...”

    Estas passagens deixam claro, em todas elas, que havia uma promessa dada aos santos a qual eles abraçaram e creram, e pela qual viveram e morreram, pela qual estavam dispostos a ser estrangeiros e peregrinos na terra, passar fome, ser exilados e presos, suportar o martírio, a zombaria e toda sorte de sofrimentos. Eles foram mortos a fio de espada e serrados pelo meio, andaram peregrinos vestidos peles de cabras, afligidos, destituídos de seus pertences e atormentados de todas as maneiras. Todavia, na grandeza da fé e severidade do sofrimento desses patriarcas, podemos ver refletida a beleza e a riqueza da promessa que eles tinham e enxergar muito além disso. Gálatas 3 é um clássico capítulo sobre a promessa. Ele enfatiza que tal promessa foi feita a Abraão e à sua descendência, e que a semente do patriarca é central e essencialmente Cristo (v. 16). É óbvio que Cristo, o Descendente, que é o cumprimento da promessa, é, ao mesmo tempo também, o principal receptor dela. Ela afirma que a Lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois da promessa a Abraão, não a pode anular (v. 17); mas Deus concedeu a herança a Abraão pela promessa (v. 18). Chega-se à conclusão que, se somos de Cristo, então somos descendência de Abraão e herdeiros de acordo com a promessa (v. 29).

     Quanto ao conteúdo dessa promessa, a Bíblia fala dela como a promessa do Espírito Santo, dada a Cristo (At. 2:33) e àqueles que são dele pela fé (Gl. 3:14); é a promessa de vida (1Tm. 4:8; II Tm. 1:1); a promessa da vida eterna (I Jo. 2:25); a promessa da volta de Cristo (II Pe. 3:4); a promessa de entrar no descanso de Deus (Hb. 4:1); a promessa de ser herdeiro do mundo (Rm. 4:13); a promessa de trazer o Salvador da raiz de Davi (At. 13:23). Por essa razão, a Escritura fala ainda do Espírito como o Espírito da promessa (Ef. 1:13); de filhos da promessa, isto é, de filhos que são nascidos da descendência da promessa, pelo poder e de acordo com ela e sobre os quais ela descansa (Rm. 9:8). A Bíblia chama a atenção para os herdeiros e coerdeiros da promessa, uma vez que nem todos os homens a receberam (Hb. 6:17, 11:9). E no início da Nova Aliança, a Escritura pontua em Atos 2:39 “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar”.

    Nestas circunstâncias, é importante que entendamos claramente a natureza de uma promessa. Não é de forma alguma o mesmo que uma oferta. Nesta última acepção, a pessoa que faz a oferta declara sua disposição em fazer algo para ou a favor de quem a oferta é feita, mas para sua realização ela depende da disposição da outra parte, do seu consentimento. Entretanto, uma promessa é diferente. É uma declaração escrita ou verbal que compele à pessoa que a fez realizar ou desistir de realizar a coisa prometida. É, assim, um compromisso independente de qualquer dever ou obrigação por parte da pessoa a quem a promessa foi feita. Consequentemente, ela implica na declaração de certo benefício, com a garantia de que tal benefício será aplicado ou realizado a favor da pessoa a quem a promessa está dirigida. Esta garantia, em relação à promessa bíblica, é potencializada pelo fato de que o próprio Deus é quem a fez. Deus concebeu a promessa, logo é Ele quem realiza a coisa prometida. Ele declara a promessa, o que implica, em primeiro lugar, que tal promessa não pode estar condicionada, porque Deus é Deus, e o seu agir, com toda certeza, não pode estar na dependência da vontade da criatura. Em segundo lugar, isso significa que a promessa é tão fiel e verdadeira como Deus é imutável. Ele certamente cumprirá a promessa. Quando Ele se compromete a fazer ou entregar alguma coisa, Ele é obrigado por Ele mesmo e por todos os seus divinos atributos a realizar a promessa para quem ela foi feita, posto que Ele não pode negar a si mesmo.

    Esse conceito da promessa, necessariamente, implica que ela é feita a um grupo definido de pessoas. Uma oferta, por outro lado, por ser dependente da aceitação e do consentimento de uma segunda pessoa, pode ser genérica, ou vaga. Uma promessa, no entanto, que compromete a parte promitente e que assegura sua realização, exige a existência de uma definida segunda pessoa. E é desta maneira que a promessa está nas Escrituras. Não obstante, a promessa é feita para Cristo e, através Dele, para a descendência de Abraão, para os filhos da promessa, para aqueles que são chamados herdeiros e coerdeiros dela. Que este é, certamente, o conceito da promessa está claramente expresso na Escritura. Neste sentido, lemos em Hebreus 6:13-14,17 “Pois, quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha ninguém superior por quem jurar, jurou por si mesmo, dizendo: Certamente, te abençoarei e te multiplicarei ... Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, se interpôs com juramento”. Assim, para os herdeiros da promessa, ela é inevitável, porque está atrelada ao imutável propósito do Altíssimo.

      Assim, o conceito do evangelho é que ele é uma agradável notícia sobre esta promessa de Deus. Agradável notícia de boas novas é o significado da palavra evangelion. Agradável notícia por duas razões: Em primeiro lugar, por causa da miséria atual dos herdeiros da promessa. Eles estão no mundo, e neste mundo estão sujeitos ao pecado e à corrupção, ao sofrimento e à morte. A experiência atual deles é de desespero e de angústia, de aflição e de tormento, de miséria e de gemidos. Mas a promessa assegura-lhes a libertação do presente estado de miséria e de completa pobreza espiritual. Em segundo lugar, o evangelho é agradável notícia porque trata da inefável riqueza da herança que está prometida. Contudo, a promessa não assegura aos herdeiros apenas a libertação do pecado e da morte, como também a restauração a um estado e a uma condição anterior, mas enche seus corações com uma esperança de glória jamais imaginada pelo homem. Compreende-se, portanto, que esta agradável notícia a respeito da promessa somente pode ser concedida por Ele, o Deus poderoso, que concebeu tal promessa. O Senhor proclama a promessa. Ele prega o evangelho. O Evangelho, que fala de coisas que olho algum viu, e ouvido algum ouviu, e que nunca foi concebido pelo coração do homem, somente pode vir através da revelação de Deus. Entretanto, esta revelação de Deus, esta divina proclamação do evangelho, sempre acontece por meio dos homens. Logo, aquele que prega o evangelho pode, com autoridade, declarar, em nome de Deus, a agradável notícia da promessa, sobre a certeza de seu cumprimento, sobre a riqueza de suas bênçãos e sobre o progresso de sua realização na história. Por toda a história da humanidade existem no mundo herdeiros da promessa. Eles conhecem a promessa. Estão ansiosos por ela e esperam por sua realização. Questionam sobre o seu conteúdo e sobre a proximidade de seu completo cumprimento. E aquele que pode responder a esses ansiosos questionamentos e trazer alguma boa notícia sobre a promessa está pregando o evangelho.
_____________________________________________
Extraído de: O Evangelho – por Herman Hoeksema
Tradução de Rev. Pedro Corrêa Cabral

Fonte (original): "The Gospel"